Zoff, Otto (Friedländer-)

Data de nascimento: 9 de abril 1890
Local de nascimento: Império Austro-Húngaro (Praga)
Data de morte: 14 de dezembro 1963
Local de morte: RFA (Munique)
Nacionalidade: austríaca
Artes, Letras e Ciências:
Zoff,-Otto

 

Exílio

Data de partida: 1933
Motivo(s):
Passagem por: Itália (Milão); França (Nice, Tarascon, Narbonne, Toulouse, Pau, Caufranc, Lourdes); Espanha (Saragoça, Madrid)

 

Chegada a Portugal

Data de chegada: 22 de fevereiro 1941
Acompanhado por: Liselotte Zoff (mulher), Constance («Stanzi») Zoff (filha)

 

Permanência em Portugal

Tempo de permanência: menos de um mês

 

Partida de Portugal

Data de partida: 17 de março 1941
Meio de transporte: navio Sibonay
Destino: EUA (Nova Iorque)

 

Fim do exílio

Data de regresso: 1961
Local de regresso: RFA (Munique)
Sobre o exílio

Hoje praticamente caído no esquecimento, o escritor, dramaturgo e jornalista Otto Zoff (09.04.1890-14.12.1963) foi uma figura destacada na vida literária e cultural alemã, com uma intensa e multifacetada atividade até ao final da República de Weimar. Nascido em Praga, filho de um oficial austríaco e de mãe judia, irmão mais velho de Marianne Zoff (futura primeira mulher de B. Brecht), estudou na Universidade de Viena História da Arte, Literatura e Filosofia, tendo-se licenciado em 1914.

Ainda durante o Império Alemão, a publicação do seu primeiro romance, Das Haus am Weg (1913) [A casa junto do caminho], deu início a uma carreira literária de êxito que virá a ser abruptamente mutilada. Em Berlim durante a Grande Guerra, colaborou com diversos jornais e revistas (p. ex., Berliner Tageblatt e Neue Rundschau); em 1916-1917 foi leitor na editora Fischer; em 1917 trabalhou como dramaturgo e, de 1919 a 1923, como vice-diretor do teatro Kammerspiele de Munique, onde apresentou, p. ex., as primeiras peças de Georg Kaiser e Trommeln in der Nacht (1919) [Tambores na noite], de Brecht; publicou três romances (p. ex., Der Winterrock  (1919)[O capote]), uma monografia sobre Ticiano e outra sobre Rubens (ambas de 1922),  poemas, oito peças de teatro e 15 antologias. A sua especialidade era, contudo, a adaptação, destacando-se nesta fase o êxito constituído por Die Freier (1923) [Os pretendentes], comédia produzida a partir da obra homónima de Eichendorff e representada em quase 100 teatros (Kesten 1968: 278-279).

Todavia, com o nacional-socialismo a crescer exponencialmente na Alemanha, Zoff afasta-se e a sua vida altera-se radicalmente. O literato tão ativo e reconhecido durante 20 anos na cena cultural alemã transformar-se-á num autor austríaco retirado na Itália. De facto, aí vive frequentemente a partir de 1931 embora, dois anos depois, já divorciado da sua segunda mulher, seja ainda em Berlim que casará com Liselotte Kalischer. No entanto, ambos de esquerda, ele considerado semijudeu pelos nacional-socialistas e um dos autores visados pelo auto-de-fé de 1933, refugiam-se na Itália (Milão), onde Liselotte e a irmã exploram um instituto para terapia do movimento. Entretanto, Zoff e o amigo Guido von Kaschnitz, marido da escritora Marie Luise von Kaschnitz, haviam decidido dedicar-se exclusivamente à sua vocação criativa. Dinheiro para o dia-a-dia ganhá-lo-iam apenas na roleta (Edschmid, 1990: 168) – o que só muito raramente acontecia. Zoff vivia no estrangeiro, mas ainda não era um exilado.

Apenas no ano da anexação da Áustria, quando o autor perdeu a sua editora alemã e Mussolini publicou o Manifesto da raça (1938), de forte influência nacional-socialista, o casal partiu com a filha Stanzi [Constance], ainda bebé, para França. Decidem-se por Nice, onde residirão até à partida para Portugal. Dois dias depois de a Alemanha invadir a Polónia, Zoff inicia o seu diário, Tagebücher aus der Emigration (1939-1944) [Diários da emigração (1939-1944)] que, por encomenda da Akademie für Sprache und Dichtkunst de Darmstadt, virá a ser publicado postumamente. É dessa obra – na qual escreve quase todos os dias durante um ano e sete meses, e se interligam, entre vários temas, questões privadas com notícias sobre a política mundial, recordações com relatos sobre o tempo atmosférico e a saúde da mulher e da filha, reflexões sobre literatura com os efeitos da guerra e a profunda aversão a qualquer tipo de atrocidades –, que aqui se retirarão diversas informações.  No sul de França, o autor circula fundamentalmente no círculo dos refugiados. Encontra-se com vários intelectuais (p. ex., Alfred Neumann, Walter Hasenclever e Kurt Wolff), visita Walter Benjamin na Riviera; frequenta jantares e serões musicais em casa de amigos ou de conhecidos, aproveita concertos grátis na catedral –, sempre ensombrado pelas crescentes preocupações financeiras, pela cada vez maior escassez de alimentos e pela luta constante pelos vistos necessários para abandonar a França, atravessar a Espanha e poder prosseguir para os EUA.

Enquanto a Wehrmacht se aproximava cada vez mais, será devido à sorte, e sobretudo às diligências do ex-marido de Liselotte, já imigrado na América, que os Zoff conseguem chegar a Lisboa com um visto de emergência para os EUA, bilhetes de navio pagos e dinheiro para a viagem. Deixam Nice de comboio a 16 de fevereiro de 1941 e, via Madrid, chegam a Lisboa a 22 do mesmo mês. Decorrido menos de um mês, embarcam no navio Sibonay para Nova Iorque onde aportam a 27 de março de 1941. Apesar de reativar contactos e amizades, p. ex., com o editor Kurt Wolff, Zoff não se consegue impor literariamente nos EUA. Apenas depois da guerra, ainda residindo em Nova Iorque mas com longas e frequentes visitas à Alemanha e à Áustria, readquire notoriedade nesses dois países: as suas peças radiofónicas são transmitidas, os teatros encenam obras suas – König Hirsch (estreia 1956, em Zurique) [O rei veado], adaptação da comédia de Carlo Gozzi, com estreia em 1956, em Zurique, foi um êxito –, editoras publicam textos do autor. Em 1961 o casal regressa a Munique onde Zoff virá a falecer em 1963.

Tal como a grande parte dos refugiados que passaram pelo nosso país, Zoff não dedica muito espaço no diário aos 23 dias passados em Portugal – não chega a oito páginas completas, aqui traduzidas praticamente na íntegra (vd. Sobre o exílio). De resto, ele próprio reconhece que Lisboa lhe é estranha porque encarada apenas como local de passagem, e quase tudo lhe surge a uma luz disfórica. O mau tempo, o alojamento deplorável e o estado físico da família também não propiciam uma abertura ao Outro – ele com febre, a mulher e a filha de cama. A cidade não tem qualquer charme meridional, tudo é feio e provinciano, incluindo os habitantes, inquietam-no o atraso e a insuficiência dos jornais quanto às notícias da guerra e não deixa de mencionar a organização «miserável» do embarque no Sibonay.

Mesmo assim, Zoff não termina a sua passagem por Portugal sem algumas imagens positivas: p.ex., maravilha-se com a abundância de alimentos que vê nas mercearias finas, considera «inesquecível» uma noite passada na casa de fado «Solar» e é com alguma melancolia, à medida que o navio se afasta do cais, que se despede da Europa, lançando um derradeiro olhar sobre as cores de Lisboa e destacando a beleza calma do Tejo à luz do entardecer.

 

Edschmid, Ulrike (1990), «Liselotte Zoff. Eine kleine Öffnung zum Licht», in U. E., Diesseits des Schreibtischs. Lebensgeschichten von Frauen schreibender Männer, Frankfurt/Main, Luchterhand: 149-187.

Kesten, Hermann (1968), «Nachwort», in Otto Zoff, Tagebücher aus der Emigration (1939-1944), Heidelberg, Verlag Lambert Schneider: 277-285.

Zoff, Otto (1968), Tagebücher aus der Emigration (1939-1944), Heidelberg, Verlag Lambert Schneider

https://litkult1920er.aau.at/litkult-lexikon/zoff-otto/

(Maria Antónia Gaspar Teixeira)

 

 

Kesten, Hermann (1968), «Nachwort», in Otto Zoff, Tagebücher aus der Emigration (1939-1944), Heidelberg, Verlag Lambert Schneider: 277-285.

Obras do/a autor/a sobre o exílio

Otto Zoff (1968), Tagebücher aus der Emigration (1939-1944), Heidelberg, Verlag Lambert Schneider.

Obras do/a autor/a com referências a Portugal

Otto Zoff (1968), Tagebücher aus der Emigration (1939-1944), Heidelberg, Verlag Lambert Schneider.

Espólio

Deutsches Literaturarchiv Marbach

Portugal visto pelo artista

22 de fevereiro
De noite continuamos. Para a Liselotte e a criança ainda encontramos uma carruagem-cama. Ainda continuo com febre. O comboio sobreaquecido. O martírio desta viagem intensifica-se. Três fronteiras diferentes na passagem para Portugal, em cada uma se é vexado, atormentado, degradado. Depois a viagem através do país devastado pelo ciclone, troncos gigantescos desenraizados, casas caídas no Tajo [sic] que galgou as margens, o Tajo um lençol de água gigantesco. Todo o país profundamente impressionado com a desgraça. No entanto, tem-se uma sensação libertadora, porque a Espanha ficou para trás. A Espanha ficará na nossa memória como um pesadelo: por fim, ainda na fronteira, um pedinte emagrecido até ao esqueleto, o corpo coberto apenas com farrapos de lã. Eu, que nunca estabeleço relações em viagem, converso muito bem com um alemão do Reno, que revela ser Wagner-Scholz, o antigo deputado do Reichstag, e com um jornalista francês encantador, de semblante o mais aberto possível, chamado Moffre. Perante a ameaça de extradição, Wagner-Scholz atravessou ilegalmente a fronteira; conta-me que os franceses terão entregado Breitscheid e Hilferding aos alemães. Chegados a Lisboa com horas de atraso; já é noite.
23 de fevereiro
Apenas uma volta [pela cidade], uma fugaz vista geral. Mau tempo. Estamos doentes, à tarde de cama. Febre.
24 de fevereiro
Tomo a direção da [agência de navegação] American Exportlines [sic]. Como tudo, muito desorganizada. Um postal de Zadora, que alugou para nós um quarto em Nova Iorque; dinheiro de Koebner. Mandei telegrama a Gix acerca da nossa chegada. Aliás, a agência de navegação afirma que os nossos bilhetes ainda não estão pagos. Mas, pouco a pouco vou-me habituando a tais tiros de pólvora seca, já não me tiram a CONTENANCE Encontrei Kurt Wolff.
25 de fevereiro
O nosso estado físico tolhe-nos em todos os aspetos. À tarde, telefonei à doutora Adler.
26 de fevereiro
Ocupado com nada, mas de permeio, de novo, com as imprescindíveis idas à Export Lines, Hicem, etc. Tenho bolhas de febre, Liselotte e a criança estão de cama. A cidade é muito ruidosa, muito turbulenta, toda meridional, mas sem o charme do sul. Pelo contrário: tudo é deselegante, feio, provinciano. A aparência das mulheres é como se camponesas tivessem decidido dar uma festa mascaradas “à moda de Paris”. Onde quer que vão ou estejam, os homens mandam engraxar os sapatos. Os sapatos brilham como espelhos. As mercearias finas são verdadeiros milagres para nós, que vimos duma França completamente faminta. Vê-se manteiga! Vê-se carne, queijo, veem-se enchidos! Já não sabemos, no fundo, de que vivíamos em Nice; reconstruímos com dificuldade aquela vida de fome. Mudança do hotel para os dois quartos mobilados na Rua Rodrigo da Fonseca, em casa de Leinung.
27 de fevereiro
À noite, mas apenas então, reflito sobre trabalhos – como se ainda fizesse sentido pensar no futuro com a minha idade e nestas circunstâncias. Muito de repente, surge-me a conclusão do romance, que em vão vinha procurando já há anos, está arredondada. Como um milagre. Uma única ideia. Como é que são precisos anos para que num único segundo tudo se torne leve, evidente? O romance termina pouco depois da separação de Joscha e Mariani. Ele não vai à ópera, mas a um serão. A cena do serão será, portanto, antecipada. Será consideravelmente alargada. Talvez mais personagens. O casal Monor ficaria lá muito bem. Mal ele sai, é noite. Encontra Fantl. A última cena com Fantl será também antecipada. Transforma-se numa enorme discussão. Ao mesmo tempo, os dois percorrem toda a cidade. Chegam ao canal do Danúbio. No ponto alto do debate, Mariani oferece o peito a Fantl: «Dê então a estocada!» E contra todas as expectativas, Fantl dá realmente a estocada. Mariani cai na água negra. É procurado durante dias. No dia a seguir à despedida, Joscha come com a família no Meiβl & Schaden: aqui, portanto, a cena já escrita, apenas com a diferença de ser percorrida pela inquietação de Joscha, que em vão esperou por Mariani. De seguida, ela também não é capaz de ir ter com o seu amado. Vai ao último andar e chegada ao patamar, ouve-o a declamar – (ele é ator) –, no entanto, ocupada com os pensamentos em M., enigmaticamente desaparecido, não se consegue decidir a entrar. Logo que sabe da morte de M., sente que apenas o amou a ele e nunca mais amará outro.
28 de fevereiro
Todas as noites, quando estou deitado acordado, incapaz de ler porque não posso acender a luz por causa da Liselotte e da Stanzi, o romance ganha forma. É como se estivesse vivo dentro de mim. Declamo longos diálogos entre Mariani e Joscha. Eles têm de fracassar no seu casamento,
que tem de ser descrito muito mais pormenorizadamente. De manhã não sei nada do que compus à noite. Mas não faz mal. O que se perdeu nunca está perdido,
1 de março
Também ocupado com o drama «O processo de Jesus». Grande diálogo sobre a questão judaica entre um oficial romano e um judeu honrado.
2 de março
As passagens para os EUA custam mais de 100 dólares a mais do que quando nos foram postas à disposição. Isso preocupa-nos. Negociações maçadoras, repugnantes, humilhantes com o Joint e o Hicem. O casal Blauwohl, comerciantes judaico-berlinenses muito esquisitos que se estabeleceram aqui desde 1933, interessam-se por nós de um modo verdadeiramente comovente que não é apenas comovente, mas também engraçado: porque, enquanto agem como se nos quisessem ajudar, também querem mostrar a si próprios e aos outros a sua importância em Lisboa. Megalomania, infantil e bárbara e bondosa.
3 de março
O que mais me inquieta é ter apenas notícias insuficientes da guerra. Os jornais portugueses, tenho mais de os adivinhar do que os consigo perceber, os ingleses e suíços chegam com um enorme atraso e ninguém tem rádio.
4 de março
Rumores que a Grécia quer fazer a paz com a Itália. O que está por trás disso? Quem? A Grécia – perante a ameaçadora marcha alemã através da Bulgária – estará farta de ser tão pouco auxiliada pela Inglaterra? Ou serão os rumores falsos e apenas foram espalhados pelo Eixo?
5 de março
Notícias sobre a marcha dos alemães através da Bulgária; a Jugoslávia vai aliar-se ao Eixo nos próximos dias; a mensagem enigmática dos russos para a Bulgária, onde manifestam estranheza sobre a sua adesão ao Eixo. Ainda não se percebe até que ponto a viagem de Eden teve afinal êxito.
6 de março
A Stanzerl novamente doente; febre sem que se conheça a causa.
7 de março
Entregues os últimos documentos para a partida. Lisboa continua estranha, porque desde o início foi tida como um local de passagem. A culpa não é dela. De manhã, as varinas passam pela Praça do Comércio em filas de seis a dez, cabeça erguida onde repousam grandes canastras e, enquanto conversam, os seus tamancos matraqueiam sonoramente nas pedras. Dá na vista o seu amor indisfarçado por cores vibrantes; saias vermelhas, blusas verdes, lenço amarelo ao pescoço e um avental às riscas cor-de-rosa e violeta, isto não é raro; fica bonito. Infelizmente o tempo é sempre miserável. À noitinha, médica chamada para a criança. Ela acha que é uma infeção da faringe e do nariz, o que neste país surge frequentemente com febre alta.
8 de março
A criança teve mais de 40 graus de febre. Está numa época estranha de uma ternura completamente transbordante. Quando estamos sentados ao pé dela e contamos uma história de um livro ilustrado, ela acaricia-nos constantemente, beija-nos, aninha-se contra nós, inventa ternuras …
9 de março
Chamámos a médica outra vez; mas não parece ser nada de grave. Talvez uma recaída da gripe.
10 de março
A Stanzerl está melhor; febre quase desapareceu. Muito fraca e muito maçadora.
11 de março
Devo receber os bilhetes amanhã. Diz-se que o «Sibonay» vai largar com atraso. Em vez de no dia 14, no dia 16 ou 17. Para nós seria conveniente porque a Stanzerl poder-se-ia restabelecer melhor.
12 de março
Bilhetes recebidos. Nem pensar em cabine própria. Camas nos dormitórios que foram organizados nestes navios repletos. Para enorme surpresa, encontrámos Olga Koseleff no Rossio, de quem nunca soubemos se ainda tinha saído de Paris antes de os alemães terem entrado. À tardinha em casa do arquiteto Lesser; família não sem arrogância, muita vaidade, snobismo berlinense, mas com uma certa força interior, arrebatadora e estimulante, quase refrescante nesta atmosfera pequeno-burguesa.
13 de março
O estado de espírito problemático, cada dia mais em baixo pelas horríveis condições em que moramos e dormimos, ainda mais em baixo pelo tempo terrível que muda totalmente a cada quarto de hora. Para nós, isto já é mau desde o Natal – tanto em Nice, como em Espanha ou aqui – é demasiadamente atroz.
14 de março
Súbita alteração do tempo. Sol. A cidade parece diferente, também a vida, até o futuro.
15 de março
O jovem Löwe levou-nos ao bar português «Solar». Muito estranho, e ficámos encantados por ainda termos podido conhecer isto. Num estrado um guitarrista e um tocador de bandolim. (em todo o caso, um bandolim é aquele instrumento circular, seja como for que se chame.) Entre estes dois músicos, que são sempre os mesmos, apresentam-se alternadamente um, cinco ou seis cantores ou cantoras, que de cada vez cantam duas canções. O que é extraordinário, fascinante para nós, é que eles vêm em traje de rua, até desleixado, as mulheres com um xaile preto; depois, é que têm pouca voz, nem sequer agradável, e nem rasto de talento de representação; e que as mulheres não são bonitas e os homens são feios. E em terceiro lugar: que as canções pouco se distinguem umas das outras, são monótonas e com pouca cor. O que é que torna tão atrativas para o público estas pessoas discretas que cantam as suas canções de um modo rígido? É o tipo de interpretação, que um estrangeiro não pode reconhecer? (Como se poderia explicar a um francês p. ex. a magia de Karl Valentin?) É o texto destas canções? É um colorido nacional? Mas muito mais extraordinário: O que é que torna estes cantores e cantoras tão atrativos até para nós, que não percebemos uma palavra, que não fazemos qualquer ideia de que tratam estas canções sempre melancólicas (humor parece ser estranho aos portugueses) – o que é que nos prende, fascinados, a aguardar com impaciência um cantor a seguir ao outro? A magia deste tipo de arte, apresentada sem encenação, numa sala sóbria, sem decoração, sem nada que faça crescer o entusiasmo, permanecerá para sempre na nossa memória. Quanto mais se aproxima a meia-noite, tanto mais se enche a sala, tanto mais elegante é o público e quanto mais tudo se torna elegante, tanto mais o público parece ligado à produção: conhece-se pessoalmente cada um dos artistas, mais ou menos como numa estreia teatral entre nós. De repente, o empresário sobe ao palco e anuncia (isso percebemos) uma nova cantora, uma estreia. Entra em cena uma pessoa pequena, rechonchuda, com uma cara redonda, estúpida, talvez até estupidamente insolente, um pouco como um pequeno dogue ofendido, uma cozinheira teimosa com um xaile preto, longo, e com as primeiras palavras conquista a audiência. A sua voz é aguda e feia, mas a sua expressão ultrapassa a prestação dos concorrentes. Ela quase dispara as frases para dentro da sala, uma [Bessie] Tucker portuguesa. O aplauso é entusiástico.
16 de março
Mais uma vez se fazem e desfazem malas, escrevem-se as últimas cartas da Europa.
17 de março
Às três horas foi o embarque. Processa-se com grande desordem, miseravelmente organizado, com apertos e empurrões. Sem a ajuda da Frau Blauwohl, que já fez isto dúzias de vezes e está muito orgulhosa da informação que tem, não sei como teria conseguido lidar com os chauffeurs, carregadores e funcionários portugueses. Isto é, então, a despedida da Europa. Não é o início de uma viagem, em que de ambos os lados se acena alegremente; isto é um acenar triste. O sol põe-se quando o navio começa a mover-se. A baía maravilhosa com uma luz avermelhada, mágica. As casas cor-de-rosa, amarelas, violeta. Agora mesmo entra uma grande barca azul, bem lançada e pintada como uma embarcação medieval. Segue-se, ainda mais lentamente, uma castanha, a vela é vermelha acastanhada. Gaivotas. Chamam para jantar. O navio balança. Viramos no estuário, a margem em frente com as colinas desajeitadamente ondulantes, com as aldeias já submersas no nevoeiro. A camarata, que foi montada no trottoir para cerca de 40 camas parece tolerável – mas no decurso da noite prova ser insuportável, terrível mesmo. Metade das pessoas já está enjoada e vomita onde pode vomitar. A cama ao pé da minha está vomitada, isto nem a 30 centímetros da minha almofada, durante muito tempo não tenho coragem de me deitar com tal vizinhança. O ar é miserável. Por toda a parte se ouve vomitar, bacias a bater e crianças a chorar. Não se vislumbra um stewart. A Liselotte também já está enjoada, a criança ao seu lado, na caminha, não quer adormecer, porque as luzes ficam acesas, porque está habituada só a dormir no escuro. No dormitório das mulheres ainda é pior, lá está simplesmente tudo doente. Despedida da Europa.
Otto Zoff, Tagebücher aus der Emigration. 1939-1944: 113-120.
(tradução Maria Antónia Gaspar Teixeira)

 

Do/a autor/a sobre o exílio

Citar este verbete como: Maria Antónia Teixeira, "Zoff, Otto (Friedländer-)," em Passagen, Março 20, 2022, https://passagen.ilcml.com/base/zoff-otto/.