Weichmann, Herbert

Data de nascimento: 23 de fevereiro 1896
Local de nascimento: Império Alemão (Landsberg)
Data de morte: 9 de outubro 1983
Local de morte: RFA (Hamburgo)
Nacionalidade: alemã
Confissão:
Profissão:
Artes, Letras e Ciências:
Weichmann, Herbert

 

Exílio

Data de partida: 1933
Local de partida: Alemanha (Berlim)
Motivo(s):
Passagem por: Checoslováquia (Praga); França (Paris, Maisons Laftte, Gurs, Marselha, Pireneus); Espanha (Portbou, Barcelona, Madrid)
Encontro com outros artistas/intelectuais:

 

Chegada a Portugal

Acompanhado por: Elsbeth Weichmann (mulher)

 

Permanência em Portugal

Tempo de permanência: oito semanas

 

Partida de Portugal

Data de partida: 12 de novembro 1940
Meio de transporte: navio (Guiné)
Destino: EUA (Nova Iorque)

 

Fim do exílio

Data de regresso: 8 de maio 1948
Local de regresso: RFA (Hamburgo)
Sobre o exílio

Filho de um médico judeu e liberal, Herbert Weichmann (1896 – 1983) é oriundo de Liegnitz na Alta Silésia, frequenta uma escola protestante e, na adolescência, adere ao movimento dos «Wandervogel». Levado pelo pai a inscrever-se no curso de medicina, serve como voluntário na Primeira Guerra Mundial. No ano de 1919, regressa à universidade, agora para estudar direito em Breslau, vindo a aderir ao SPD. Depois de breves passagens pelas universidades de Frankfurt –  onde estuda com Franz Oppenheimer, e. o. , e conhece a sua futura mulher, Elsbeth Greisinger [Weichmann] (vd. verbete nesta base) –  e de Heidelberg, onde é discípulo de Karl Jaspers, conclui a licenciatura em Breslau.

Por essa altura, Weichmann torna-se colaborador dos jornais «Frankfurter Zeitung« e  «Vossische Zeitung», tratando especialmente questões de política local. Pouco depois é editor-chefe do jornal de Katovice, até que, em 1928, passa a integrar o Ministério do Estado da Prússia, em Berlim, dedicando-se à causa das minorias alemãs no exterior, enquanto desenvolvia uma relação de grande confiança com o primeiro-ministro Otto Braun, de quem é assessor. Em agosto de 1931, Weichmann passou a ocupar o posto de conselheiro ministerial, sendo nos últimos anos da República de Weimar transferido para o Ministério da Economia e do Trabalho, onde assistiu à progressiva capitulação das estruturas democráticas.

A promulgação em abril de 1933 da lei para os funcionários públicos [Berufsbeamtengesetz] ditou o fim da carreira como servidor do estado de Herbert Weichmann. Cinco meses depois, com os ataques a todos os opositores de Hitler a aumentarem, o casal Weichmann foge para a Checoslováquia e refugia-se em Brno, em casa dos pais de Elsbeth. Confrontado com a partida para Israel de muitos amigos sionistas, Herbert não consegue decidir-se a abandonar aquilo que considera a «sua» cultura europeia (Weichmann 34).

Algumas semanas depois, retemperado, o casal Weichmann instala-se em Paris, com Herbert já credenciado como correspondente do jornal «Prager Tageblatt» [Jornal de Praga] e da revista «Der Deutsche Volkswirt» [O Economista alemão ], o que lhe garantia o acesso a uma autorização de residência. Rapidamente conhecido como jornalista dedicado a questões de economia e finanças francesas, é contratado por mais de uma dezena de jornais e revistas, tanto alemãs como estrangeiras, por exemplo francesas. Elsbeth serve-lhe de secretária e, na qualidade de economista, de colaboradora ativa.

O casal, que desde o início encarou a sua estada em Paris como definitiva e não como uma etapa de exílio, instala-se confortavelmente. A uma primeira vaga de emigrantes alemães constituída por políticos opositores de Hitler segue-se um grupo crescente de emigrantes  judeus  apolíticos, entre os quais se contavam muitos familiares e amigos dos Weichmann, contribuindo todos pare a alargar o seu círculo social. O antigo ministro do interior da Prússia Albert Grzesinski e o presidente da câmara de Altona Max Brauer são apenas alguns desses amigos destacados por Elsbeth Weichmann nas suas memórias do exílio (54-62).

No dia seguinte à declaração de guerra  à Polónia, a 4 de setembro de 1939, Herbert Weichmann recebe ordem para se apresentar no campo de internamento de Maisons-Laffitte, mas é libertado logo depois, por intervenção do redator-chefe da revista «Europe-Nouvelle». No inverno seguinte, o casal Weichmann procura manter alguma normalidade numa Paris marcada pela guerra e pelas privações, até que, após a invasão da Alemanha à frente ocidental, é internado como «estrangeiro inimigo»: Herbert, de novo em  Maisons-Laffitte, segue depois como soldado auxiliar para o campo de Ruchard, no centro da França. (Elsbeth é  também presa, primeiro no Vélodrome d’Hiver, de onde é enviada para o campo de Gurs).

A notícia da entrada das tropas alemãs em Paris, a 14 de junho, leva Herbert a evadir-se do campo, juntamente com dois camaradas e a fazer o caminho a pé pelas estradas pejadas de fugitivos até Gurs, onde procura ter notícias da mulher. Já a caminho de Pau, é avisado por uma amiga comum da permanência de Elsbeth em Sète, uma pequena vila piscatória no sul do país. Informados de que no consulado de Marselha encontrariam um visto em seu nome para os EUA, enquanto políticos proeminentes em perigo, é só com muita dificuldade e de novo através de estratagemas pensados por Elsbeth que conseguem entrar em Marselha, por aqueles tempos barrada a mais estrangeiros, e onde os aguardavam novas dificuldades. Constatando que o consulado americano só muito lentamente disponibiliza os «affidativs», que lhes permitiam obter o visto para os EUA, decidem comprar um visto para Sião (Tailandia), garantindo com isso os papeis necessários para entrar em Espanha e Portugal.

Todavia, com o nome inscrito nas listas de procurados pela Gestapo, não lhes é concedida autorização para abandonar a França e decidem passar, também eles, a pé pelas cumieiras dos Pireneus, pela célebre rota entre Cerbère e Port Bou. «Tudo correu inesperadamente muito bem», resume Elsbeth nas suas memórias (111). Pelas memórias de Marianne Loring sabemos que toda a  bagagem do casal se resumia a uma mochila e uma mala muito pequena (117) e que estas são transportadas de comboio pela família Stampfer. Todavia espera-os ainda um grande susto em Madrid, pois o passaporte de Elsbeth é-lhe roubado no metro. Com a ajuda dos amigos Stampfer e Alexander Stein, dirigem-se ao consulado norte-americano na esperança de obterem um visto. O cônsul insiste com Herbert, que sabe especialmente ameaçado, para que parta quanto antes para Lisboa, e compromete-se a arranjar um visto para Elsbeth, declarando-a sob sua proteção. Marianne Loring refere o desespero de Herbert em Lisboa até à chegada da mulher, a 19 de setembro de 1940.

Elsbeth resume nas suas memórias as semanas que passam em Lisboa –  instalados, tal como os membros do Sopade, na Pensão Leiriense, à espera de um barco –  como uma «bem vinda pausa para respirar», em que puderam dormir e passear, sentar-se em esplanadas e encontrar amigos, como Ollenhauer, Vogel, Rinner,  Heiden e Arthur Koestler (Sobre a estada do casal em Portugal, leia-se o texto de Elsbeth Weichmann nesta base).  Loring refere, por seu turno, que «o cônsul americano em Lisboa era hostil a todos os emigrantes e que levantava grandes dificuldades à concessão de vistos. A Frau Weichmann tinha agora um visto, o Herr Weichmann, assim como os filhos do Ollenhauer e do Vogel não» (128). O tempo de espera vai-se-lhes tornando insuportável, até que em 12 de novembro de 1940 o Guiné,  um pequeno vapor costeiro lhes oferece possibilidade de partida.

Os primeiros tempos em Nova York são difíceis, com Herbert limitado a trabalhos esporádicos. Depois de um curso de contabilidade  na Universidade de Nova York torna-se consultor e auditor tributário. e embora prive com diferentes emigrantes alemães da área do SPD mantém-se longe das atividades e das querelas políticas que estes protagonizavam. Elsbeth estuda estatística na mesma universidade e trabalha depois nesta área de especialização. Tendo obtido a cidadania americana em 1943, o casal hesita em regressar à Alemanha no pós-guerra, mas Herbert acaba por regressar em 1948, a convite de Max Brauer, agora presidente da câmara de Hamburgo,  e Elsbeth um ano depois. Todavia, é apenas em 1956 que os Weichmann desistem da nacionalidade americana e regressam à cidadania alemã. Herbert trabalha inicialmente como Presidente do Tribunal de Contas de Hamburgo e depois como Senador para a área financeira e como Professor Convidado  na Universidade de Hamburgo; entre 1961 e 1971 é membro do Parlamento de Hamburgo, como a sua mulher o foi entre 1957 e 1974. Entre 1965 e 1971 Herbert Weichmann é eleito Presidente da Câmara de Hamburgo, iniciando um período de grande desenvolvimento da cidade e chegando a ser sondado para ocupar o cargo de Presidente da República Federal da Alemanha, o que ele recusa liminarmente. Entre os textos que Herbert Weichmann publicou, destacam-se os escritos autobiográficos sobre a viagem à Rússia ainda nos anos 2O e o relato sobre a vida nos EUA.

Weichmann morre em 1983. Seis anos depois, foi criada a fundação «Herbert und Elsbeth Weichmann-Stiftung» dedicada a «recordar a atuação da oposição democrática no exílio contra o domínio totalitário de Hitler bem como as consequências dessa atuação para a Alemanha após a guerra e a preservar essa memória para as gerações futuras» (weichmann-stiftung).

 

Herbert und Elsbeth Weichmann-Stiftung, https://  www.weichmann-stiftung.de (acedido em 14.2.2O26)

Loring, Marianne (1996), Flucht aus Frankreich 194O. Die Vertreibung deutscher Sozialdemokraten aus dem Exil, Frankfurt a.M., Fischer.

Weichmann, Elsbeth (1983), Zuflucht. Jahre des Exils. Mit einem Vorwort von Siegfried Lenz, Hamburg, Albrecht Knaus Verlag.

Weichmann, Herbert e Elsbeth (1931),  Alltag im Sowjetstaat. Macht und Mensch, Wollen und Wirklichkeit in Sowjet-Rußland, Brückenverlag, Berlin.

Weichmann, Herbert (1949),  Alltag in USA, Hamburg, Hauswedell.

 

(Teresa Martins de Oliveira)

Espólio

Herbert und Elsbeth Weichmann-Stiftung

Bibliografia crítica sobre o exílio português

Weichmann, Elsbeth (1983), Zuflucht. Jahre des Exils. Mit einem Vorwort von Siegfried Lenz, Hamburg, Albrecht Knaus Verlag, p. 114-119.

 

Do/a autor/a sobre o exílio

Citar este verbete como: Teresa Martins de Oliveira, "Weichmann, Herbert," em Passagen, Maio 15, 2025, https://passagen.ilcml.com/base/weichmann-herbert/.