Exílio
Chegada a Portugal
Permanência em Portugal
Partida de Portugal
Fim do exílio
A pianista Grete Sultan (1906-2005) provinha de uma família de grandes comerciantes de origem judaica de Berlim, cuja casa era frequentada por prestigiados músicos e pintores, como Richard Strauss, Max Slevogt e Max Liebermann. Muito jovem, Grete Sultan é aluna de Richard Buhlig, familiarizado com autores avantgarde – Henry Cowell, Ferruccio Busoni, Arnold Schönberg – , em cujas obras introduz a discípula, que receberá ainda lições de Leonid Kreutzer, na Academia de Música de Berlim, e depois de Edwin Fischer, com cuja orquestra de câmara fez diferentes tournées ao estrangeiro. No final da década de 1920 e início da seguinte, Sultan destacava-se pelo seu reportório clássico e contemporâneo, com obras de Schönberg, Krenek, Cowell e Stravinsky, e.o.
A subida de Hitler ao poder dita o fim da sua carreira na Alemanha: é proibida de tocar para um público não-judeu e expulsa da Reichsmusikkammer (Câmara Imperial de Música), em setembro de 1935. Arturo Toscanini, que a ouvira tocar, organiza-lhe no ano seguinte uma tournée em Itália, mas a apreensão do passaporte pelos nacional-socialistas impede-a de aceitar convites posteriores. Até 1941, data em que abandona a Alemanha, as suas aparições públicas, assim como o reportório com que lhe é permitido apresentar-se, são cada vez mais limitados. Entretanto, a sua família começa a ser dizimada pelo nazismo: os irmãos haviam fugido para os mais diferentes destinos depois do suicídio do irmão mais novo, acusado de Rassenschande [atentado contra a raça] em 1936, o pai e um tio vêm a suicidar-se também, e outros membros da família morrerão prematuramente após a deportação.
Em fevereiro de 1941, Grete Sultan deixou Berlim, num transporte da Reichsbahn organizado pelos nacional-socialistas: na estação de Bahnhofs-Zoo embarca num vagão lacrado e guardado pela Gestapo, temendo que a viagem a leve a Auschwitz. Todavia, como perceberá já perto de Paris, o seu destino é Portugal. [Flunser Pimentel refere estes transportes forçados organizados pela Gestapo entre janeiro de 41 e o início de 42, remetendo para notícias da revista Aufbau sobre as deportações de judeus nesses comboios, antes de se dar início à «Solução Final» (Pimentel 2008: 124-125)]. Impedida de levar dinheiro, comida ou bebida, são o pão e a água fornecidos por operários dos transportes ferroviários em Paris que livram Sultan da morte certa. Durante dias, o comboio atravessa a França e a Espanha, chegando à fronteira portuguesa, onde finalmente as carruagens são abertas. «Lembro-me de um prado em que os portugueses tinham espalhado pão e bebidas» (Der Spiegel 2001).
Num outro comboio, segue depois até Lisboa, onde chega exausta e com o visto para a América prestes a caducar. A sua estada breve em Portugal é marcada pela permanência frente aos escritórios da comunidade judaica, na espectativa de conseguir um bilhete para os EUA. Finalmente, poucos minutos antes do visto expirar, Grete Sultan embarca no navio português «Niassa», «calculado para 300 pessoas e carregado com 3000», como descreve.
Em meados de maio, Grete Sultan chega a Nova York, completamente sozinha e sem meios de subsistência. Gradualmente vai tomando contacto com outros artistas emigrados, consegue trazer para junto de si a mãe, que havia fugido para a Suíça, aprende inglês e sobrevive lecionando piano. A partir de 1946, a sua vida artística é marcada pela amizade com John Cage, que lhe dedica algumas das suas mais importantes composições, que Sultan veio a tocar um pouco por todo o mundo, integradas num vasto reportório, onde pontificavam obras dos autores clássicos principalmente alemães ao lado de outras dos mais destacados compositores contemporâneos, e que tocou até a uma idade muito avançada. Convidada , p.ex. por Theodor Adorno, a regressar à Alemanha depois da guerra, apenas ali se desloca para digressões artísticas, radicando-se definitivamente nos EUA, cuja cidadania recebe em 1947.
Kuner, Jean-Claude e Gisela Corves (2002), 32 BETRACHTUNGEN ÜBER GRETE SULTAN Eine Pianistinnen-Karriere, 32BetrSendefassungWDR , p. 21-23
Pimentel, Irene Flunser (2008), Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial. Em fuga de Hitler e do Holocausto, Lisboa, Esfera dos Livros.
Smoltczyk , Alexander (2001), «Flucht und Fuge», in: Der Spiegel 25.
Sultan, in: Universität Hamburg. Lexikon verfolgter Musiker und Musikerinnen der NS-Zeit Objekt-Metadaten @ LexM
(Teresa Martins de Oliveira)
Grete Sultan é entrevistada aos 95 anos de idade para o programa «Language of Music»
Lisboa, 23h59
«A viagem de Berlim a Nova York durou do início de fevereiro até ao final de junho. Havia homens da Gestapo a comandar tudo. E foi uma sorte eu ter sido levada para um comboio e não, como a minha família, para um campo de concentração no Leste. Então, num dia ou numa noite, [segui] de Berlim até Frankfurt, com uma pequena mala de mão. E de Frankfurt para Paris. Homens alemães troçavam de nós, e levaram-nos para uma linha desativada e trancaram-nos. Sem nada para comer, etc. Depois, de Paris até à fronteira com Espanha. Mas tudo isso levou semanas. Finalmente, depois de meses, quando chegámos à fronteira portuguesa, foram abertas as portas. Os nazis tiveram de nos deixar ir. Depois fomos levados para Lisboa e eu tive de esperar e de ir todos os dias à comunidade judaica e ver se me arranjavam um lugar para a América.
Por fim, um quarto de hora antes da meia-noite, mesmo antes do meu visto caducar, embarquei num navio português e cheguei a Nova York. Depois vieram as autoridades americanas e queriam ver para onde é que eu ia. Não estava lá ninguém. Era um dia de chuva, não se via nada. E eu não sabia falar inglês. De qualquer maneira, convenci-os a deixarem-me ficar à espera. Caso contrário, eles ter-me-iam mandado de volta. Mandado para Auschwitz.»
In: Kuner, Jean-Claude e Gisela Corves (2002), 32 BETRACHTUNGEN ÜBER GRETE SULTAN Eine Pianistinnen-Karriere, 32BetrSendefassungWDR , p. 21-23
(Tradução de Teresa Martins de Oliveira)
Do/a autor/a sobre o exílio