Exílio
Chegada a Portugal
Permanência em Portugal
Partida de Portugal
Fim do exílio
Filho de um pedreiro de filiação social-democrata, Erich Ollenhauer (1901– 1963) trabalha numa oficina depois de concluir a escolaridade obrigatória na sua Magdeburg natal, já que a debilidade económica da família o impede de concretizar o sonho de se tornar professor. Aos dezassete anos filia-se no SPD e pouco depois inicia a sua carreira de funcionário do partido ao serviço da juventude social-democrata, tornando-se, volvidos dois anos, presidente da «Internacional da Juventude Operária» («International of the Working Youth»). Inicialmente secretário da «Sozialistische Proletarierjugend» (SPJ) [Juventude proletária socialista], vem a presidir à SAJ («Sozialistische Arbeiterjugend» [Juventude dos trabalhadores socialistas]) desde 1928, mantendo a organização próxima do SPD.
Depois da subida de Hitler ao poder e da ocupação dos sindicatos no início de maio de 1933, o SPD elege novos membros da direção, entre eles o jovem Ollenhauer, protegido de Otto Wels. Convencida dos riscos em que se encontrava o partido, a nova direção decide que Wels, Stampfer e Crummenerl se refugiem imediatamente no estrangeiro. No dia seguinte, é decidida a partida de Hertz, Ollenhauer e Vogel. Ollenhauer atravessa a fronteira para a Checoslováquia, guiado através das montanhas por Fritz Heine: passa por Praga e Viena e espera ainda uns dias em Zurique, onde a mulher se lhe juntará com os dois filhos, antes de voltar a Praga.
Entretanto, os membros do SPD reunidos em Saarbrücken a 14 de maio de 1933 decidem-se pela transferência da direção do partido para a Checoslováquia, o que leva à sua cisão. Porém, a 21 de junho, os membros do novo diretório de Berlim são presos ou mortos, e o SPD é ilegalizado por Hitler. Pela mesma altura, o grupo de Praga, que se intitula Sopade e se considera o legítimo representante do partido, começa a publicação do «Neuer Vorwärts» [Novo Avante] e dos «Deutschland-Berichte» [Relatórios sobre a Alemanha], tornando-se um dos mais importantes grupos de oposição ao regime de Hitler.
Em 1938, sob fortes e crescentes ameaças do governo alemão, os sociais-democratas no exílio são proibidos pelo governo da Checoslováquia de continuar com a sua atividade editorial e de contestação ao nacional-socialismo. Ollenhauer e os outros membros do Sopade, entretanto privados da nacionalidade alemã, trocam Praga por Paris, onde continuam o seu trabalho de oposição a Hitler.
Dois anos depois, o início da guerra dita o internamento de Ollenhauer, em 14.5.1940, no velódromo «Stade Buffalo», em MontRouge sobre o Sena, na qualidade de «estrangeiro inimigo». Outros membros do Sopade, com idades entre os dezassete e os 55 (depois 65) anos têm a mesma sorte (Geyer, Heine, Leeb e Rinner). Também Peter, filho de Ollenhauer é internado, sendo depois encaminhado para Tence, a sul de Auvergne, juntamente com o filho de Hans Vogel (S.-Brandt 213).
Entretanto, Ollenhauer é enviado como trabalhador para o campo de Bussens, perto de Bordéus, de onde será libertado por intervenção do socialista Léon Blum, antigo Presidente do Conselho de Ministros de França. Dois dias depois, em 9 de junho, chega a Agen, ao Hotel Terminus, onde se encontravam os outros membros do Sopade (Martha Ollenhauer e o filho Hermann, Hans e Dina Vogel, Toni Wels, Hildegard Leeb e o filho Lothar haviam chegado no mesmo dia da libertação de Ollenhauer (S.-Brandt 215) ). Alguns dias volvidos, chegam Leeb, Rinner, Geyer, estes últimos com as mulheres vindas do campo de Gurs.
A presença em Agen das vinte e sete pessoas que compunham o grupo dos mais importantes membros do Sopade (faltava apenas Fritz Heine) ameaçava tornar-se demasiadamente ostensiva e o grupo é dividido; Ollenhauer encontra-se entre aqueles que seguem para Tonneins, uma pequena localidade nas imediações de Agen. Goradas as diferentes hipóteses de fuga que os tinham levado até perto de Bordéus, depois ao sopé dos Pirenéus e duas vezes até Montpeliers e Sète, regressam a Castres no dia 25 de junho, para aí permanecerem cerca de dois meses, envidando esforços para partirem de França, o que cada vez se lhes afigura mais difícil. Todavia, em meados de agosto, são contactados por Frank Bohn, enviado dos EUA pela «American Federation of Labour» numa missão que visava salvar membros dos movimentos operários. O grupo reúne-se em Marselha e é desencadeada uma rápida ação de obtenção de vistos, que lhes permita partir para Lisboa (vd. verbetes sobre Marianne Loring e Friedrich Stampfer nesta base).
Ollenhauer e Vogel e respetivas famílias recebem vistos para Portugal e para Espanha, mas falta-lhes permissão para abandonarem a França. Sentindo Marselha como crescentemente perigosa, tomam o comboio para Narbonne a 8 de setembro e chegam a Cerbère no dia seguinte, passando a noite no Hotel Midi. Na madrugada do dia 10, guiados por um camarada francês e simulando um passeio pela montanha, evitam o posto de controle fronteiriço e descem para Port Bou, pelo célebre caminho através dos Pirenéus que viria a ser conhecido como «rota F».
Mais dois dias e seguem de comboio para Barcelona e daí para Madrid, onde chegam exaustos 14 horas depois, a meio da noite. No fim da tarde seguinte continuam viagem e, embora a Espanha franquista se lhes afigure pouco segura, lê-se em diferentes depoimentos que «Ollenhauer a atravessou, descontraidamente, com o cachimbo na boca» (p. ex. S-Brandt 221). Dia 14 de setembro, ao meio dia, entram em Portugal e, na madrugada do dia 15, são recebidos na estação de Santa Apolónia por Rinner, que lhes entrega um grande ananás (S.-Brandt 221).
Não é muito o que se sabe sobre a estada de Ollenhauer em Lisboa, onde se instala na Pensão Leiriense, situada na R. da Assunção, «pobre mas limpa», no dizer de Martha (apud S.-Brandt 222), e onde se albergavam já os outros membros do Sopade, há pouco chegados a Portugal. Sabe-se ainda que Ollenhauer escreve para a Suécia sobre o baixo custo de vida em Lisboa e sobre as refeições copiosas. Seebacher-Brandt considera que Ollenhauer vai mais tarde idealizar os tempos passados em Lisboa, cidade onde diz que teria gostado de viver, «se as condições fossem outras». Ainda no dizer da mesma autora, Ollenhauer, mal chegado a Portugal, empenha-se em arranjar dinheiro que cobrisse as suas despesas e eventualmente as dos seus companheiros de viagem, escrevendo nesse sentido para a Suécia e os EUA. E se é certo que nunca passou verdadeiras necessidades, é também certo que o desafogo dos tempos iniciais da emigração tinha desaparecido (S.-Brandt 222-223).
A partir de Lisboa, Ollenhauer e Vogel esforçam-se por serem acolhidos em Londres, onde pretendiam colaborar na luta contra o nacional-socialismo, e também na oposição ao bolchevismo, partindo de uma perspetiva democrática. Todavia, o governo inglês, com uma política de concessão de vistos restritiva e pouco interessado na presença de um grande grupo de dirigentes sociais-democratas alemães, adia a autorização de entrada. Crescentemente agastado com as dificuldades que lhe são impostas, Ollenhauer revela-se cada vez mais irritado, como mostram as cartas que dirige aos seus contactos internacionais (S.-Brandt 224).
Três meses volvidos e depois de muitos empenhos, em 14 de janeiro de 1941, Erich Ollenhauer consegue seguir para a Grã Bretanha, sendo recebido sem demora pelo secretário internacional do «Labour Party». Embora o apoio que dele vem a obter se revele menor do que tinha sonhado e se acentuem as costumeiras querelas, Ollenhauer consegue manter vivos no exílio não só o SPD, como a sua ligação a outros movimentos alemães que se opunham ao nacional-socialismo.
Ollenhauer visita a Alemanha logo em 1945 na qualidade de representante do Sopade na conferência do SPD em Hanover e regressa definitivamente em fevereiro do ano seguinte, já depois da morte de Hans Vogel, vindo a ser escolhido como número dois do partido, agora dirigido por Kurt Schumacher. Após a morte deste, em 1952, foi eleito seu sucessor, lugar que exerceu até ao fim da vida, sem conseguir vencer as eleições para o Bundestag, em 1953 e em 1957 (ganhas pelo democrata-cristão Konrad Adenauer), acabando por desistir a favor de Willy Brandt. Todavia, o seu papel é decisivo nas reformas do SPD, que haviam de terminar no Programa de Godesberg. Tendo exercido numerosos e destacados cargos ao longo das quase duas décadas que viveu na Alemanha depois da guerra, é eleito presidente da Internacional Socialista três meses antes da sua morte súbita, em 1963.
Glees, Anthony (1982), Exile Politics During the Second World War: The German Social Democrats in Britain, New York, Oxford University Press.
Loring, Marianne (1996), Flucht aus Frankreich 194O. Die Vertreibung deutscher Sozialdemokraten aus dem Exil, Frankfurt a.M., Fischer.
Runge, Friederike (2018), «German Social Democrats in London Exile during World War II», in: The London Moment, online (acedido em 3.9.2025).
Seebacher-Brandt, Brigitte (1984), Ollenhauer: Biedermann und Patriot, Berlin, Siedler.
«Erich Ollenhauer», in Munzinger-Archiv, Erich Ollenhauer–Munzinger Biographie (acedido em 14.11.2025.
Teresa Martins de Oliveira
Do/a autor/a sobre o exílio