Exílio
Chegada a Portugal
Permanência em Portugal
Partida de Portugal
Fim do exílio
Curt Geyer (1891–1967), que usou também o pseudónimo Max Klinger, nasceu em Leipzig, filho de um político social-democrata. Licenciou-se em economia e história, em 1914, tendo nesse mesmo ano começado a trabalhar em diferentes jornais diários afetos ao partido socialista alemão, no qual se filiara ainda durante o curso.
Em abril de 1917, em protesto contra a política de Burgfrieden do SPD durante a 1.ª Guerra Mundial, Geyer integra o Partido Socialista Independente (USPD). Nesse mesmo ano, torna-se redator do jornal Leipziger Volkszeitung e casa com a jornalista Anna (Elbert) Geyer, com quem terá uma filha. Após a Revolução de Novembro de 1918, foi eleito presidente do Conselho de Trabalhadores e Soldados de Leipzig e dois anos depois para o Reichstag de Weimar.
Em outubro de 1920, o USPD divide-se, integrando Geyer temporariamente a sua ala esquerda, que irá transformar-se, juntamente com o VKPD, no Partido Comunista alemão, a cuja direção Geyer pertenceu. Um ano depois é expulso, devido à sua oposição às «21 condições» de Lenin, regressando ao USPD e depois ao SPD, a partir de 1922. Nos anos seguintes, desenvolve uma intensa atividade publicista como escritor e jornalista.
Com a subida de Hitler ao poder, parte da direção do SPD muda-se para o Sarre (sob administração da Liga das Nações), e pouco depois para Praga, onde Geyer se instala no outono de 1933. Ali vem a integrar a direção do partido no exílio (Sopade) e a redação do seu órgão Neuer Vorwärts, destacando-se, tal como Friedrich Stampfer, pela oposição à colaboração com o partido comunista.
Com o nome inscrito na lista dos expatriados desde 1936, Geyer e a família são dos primeiros entre os membros do Sopade a buscar refúgio em Paris (1937) , quando se prenuncia a invasão da Checoslováquia pelas tropas de Hitler. No ano seguinte, Geyer assume a direção do Neuer Vorwärts, agora editado na capital francesa. Ali publica, entre numerosos artigos de opinião, no auge do apaixonado debate sobre a «outra Alemanha» (no verão de 1939) um texto em defesa do povo alemão, que Geyer se nega a identificar com o movimento nacional-socialista. A «outra» Alemanha seria, segundo ele, representada por aqueles que procuraram a emigração no exterior.
Pouco antes da chegada das tropas alemãs a Paris, Geyer é internado num campo de refugiados na qualidade de «estrangeiro inimigo», enquanto a direção do SPD, a que se juntam Anna Geyer e a filha, se decide pela fuga através da França não ocupada. Após a sua libertação, Geyer reune-se em Agean a esse grupo – Stampfer, Vogel, Breitscheid, Hilferding, Ollenhauer, Rinner e Weichmann e respetivas famílias (vd. entradas nesta base) – , para depois empreenderem uma fuga errática através da França, tentando alcançar Sète, de onde esperavam poder embarcar rumo a África, o que se não concretiza. Após semanas de espera em Castres, recebem a informação de que lhes será concedido em Marselha um visto para abandonar o país, por ação do jornalista norte-americano Frank Böhm, que, ao serviço do American Joint Labor Committee, levava a cabo a difícil missão de salvar funcionários de sindicatos e socialistas europeus. Enquanto a mulher e a filha se juntam a outros membros da direção do Sopade em Lisboa, protagonizando todos eles fugas atribuladas, Curt Geyer permanece em Marselha e colabora na ação salvífica de Böhm e Varian Frye, e chega a Lisboa apenas alguns meses depois.
Foi muito pouco o que consegui apurar sobre a sua passagem por Lisboa. Apenas que, como os outros membros do Sopade que o haviam precedido na capital portuguesa, se instala na Pensão Leiriense. É no papel timbrado desta pensão que «Geyer, numa síntese brilhante e visionária, retomou a ideia, outrora desenvolvida por Rudolf Hilferding, de uma cooperação transatlântica entre democracias, com base no comércio livre como pedra angular de uma reorganização das relações internacionais após a guerra» (Thunecke 2019). Não será por muito tempo que irá advogar esta ideia.
Enquanto a mulher e a filha tinham partido de Lisboa para os EUA, Geyer chega em junho de 1941 ao Reino Unido, onde se haviam instalado já Erich Ollenhauer e Hans Vogel. Outrora defensor da «outra Alemanha», vai gradualmente deixar-se seduzir pela nova orientação da política inglesa, que, sob influência de Lord Vansittart, considerava o povo alemão «a escumalha moral e política da terra», procurando condicionar o destino da Alemanha do pós-guerra.
Geyer defende agora ter o nacionalismo do SPD contribuído para a ascensão do nazismo, dando início à querela sobre o nacionalismo («Nationalismusstreit»), que conduziu à sua expulsão da Union of German Socialist Organizations in Great Britain, e à sua adesão em 1942 ao grupo «Fight for Fredom» sob a liderança de Walter Loeb.
Ao contrário de outros sociais-democratas, de quem o governo britânico se distancia gradualmente, Geyer obtém um lugar de assessor do Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico ainda durante a guerra, bem como a cidadania inglesa. Depois da guerra, permanece em Londres, como correspondente de vários jornais alemães, e vem a morrer em Lugano, na Suíça, em 1967.
Loring, Marianne (1996), Flucht aus Frankreich 194O. Die Vertreibung deutscher Sozialdemokraten aus dem Exil, Frankfurt a.M., Fischer.
Runge, Friederike (2018), «German Social Democrats in London Exile during World War II», in: The London Moment, online (acedido em 3.9.2O25).
Thunecke, Jörg (2019), Der Mythos vom ‚anderen Deutschland‘. Curt Geyers Weg vom Neuen Vorwärts (Paris 1938/40) zu ‚Fight for Freedom‘ (London 1942/44), in: Cahiers d´Études Germaniques, p. 239-250. https://doi.org/10.4000/ceg.5001 (acedido em 3.9.2O25).
(Teresa Martins de Oliveira)
Do/a autor/a sobre o exílio