Chegada a Portugal
Permanência em Portugal
Partida de Portugal
Fim do exílio
Escritor, médico neurologista e psiquiatra, Bruno Alfred Döblin nasceu em Stettin (à data na Pomerânia alemã, hoje Polónia) numa família de classe média de judeus assimilados. Com 10 anos, mudou-se com a mãe e os irmãos para uma zona proletária de Berlim, onde viveu dificuldades económicas, desclassificação social e o antissemitismo já antes sentido em Stettin. Durante os 45 anos seguintes, praticamente não saiu da capital alemã, que não só inspirou o seu romance de craveira internacional, Berlin Alexanderplatz. Die Geschichte vom Franz Biberkopf (1929) [Berlim Alexanderplatz: A história de Franz Biberkopf], mas também se tornou na sua verdadeira pátria. Escritor prolixo e multifacetado, não se ligou a qualquer das tendências estéticas da época, embora delas aproveitasse para desenvolver uma escrita temática e estilisticamente inovadora, de modernidade radical, que virá a influenciar gerações seguintes de autores. Repetidamente laureado, atinge o auge da fama no início dos anos 30, sendo hoje considerado como figura-chave da modernidade clássica.
A tomada do poder por Hitler forçou-o a um exílio de 12 anos – uma rutura de que nunca recuperará. Um dia após o incêndio do Reichstag (fevereiro de 1933) e ainda com a ilusão de se tratar de uns escassos meses, Döblin emigra para a Suíça; pouco depois, já sem a ilusão de um final rápido do regime de Hitler, segue para Paris. Na Alemanha, as suas obras são queimadas no auto-de-fé de maio de 1933, a cidadania é-lhe retirada. Döblin, bem como a mulher Erna e os quatro filhos do casal adquirem a nacionalidade francesa (1936), e Döblin colabora com o “Commissariat Général à l’Information” na elaboração de textos de propaganda contra o nacional-socialismo (1939-40).
Em 10 de junho de 1940, quatro dias antes da ocupação de Paris, quando Erna e Stefan, o filho mais novo (o mais velho, Peter, já se encontrava exilado nos EUA, os outros dois permanecerão na França), já tinham fugido rumo a Le Puy, o autor inicia uma fuga caótica e traumática em direção à mesma cidade na tentativa de se reunir com a família. Desencontram-se, todavia, e nesse meio tempo Döblin permanece por cerca de duas semanas num campo de refugiados em Mende (SchR, 103, passim). Apenas em julho o casal se reencontrará em Toulouse, ainda não ocupada pelos nazis. Instado pela mulher a prosseguir para os EUA, o autor inicia os contactos para as ajudas necessárias, entre elas a do filho mais velho. Já na posse dos vistos de saída da França, o casal ruma a Marselha onde, com dificuldade, consegue os vistos de trânsito pela Península Ibérica. Todavia, sem meios suficientes para chegarem a Lisboa, enviam novo pedido aos EU (SchR, 224). Por fim, a 31 de julho 1940, atravessam a fronteira franco-espanhola em Portbou, seguem para Barcelona e no dia seguinte para Madrid. Da viagem de comboio através da Espanha até Vilar Formoso o narrador regista, p.ex., a amabilidade de alguns civis, a alegria barulhenta das pessoas e a iluminação noturna em contraste com a escuridão na Europa Central (SchR, 232), mas também o calor e o ruído excessivos, a pobreza infantil, a paisagem desolada com os muitos vestígios da Guerra Civil. Chegam a Lisboa a 3 de agosto (SchR, 230-239; Sander, 2001: 48-66). (Da passagem por Portugal tratar-se-á adiante com base na obra Schicksalsreise).
Precisamente um mês mais tarde, embarca com a mulher e o filho mais novo no navio “Nea Hellas” rumo aos EUA, vindo a radicar-se em Los Angeles – sempre com graves problemas económicos porque impedido de exercer medicina, dependente de subsídios e dos poucos guiões encomendados pela MGM, isolado de grande parte dos exilados devido à sua conversão ao catolicismo (1941). Regressa à Alemanha (1945) com patente e uniforme de oficial das forças de ocupação francesas que, no âmbito da reeducação dos alemães, lhe confiam a edição da revista Das goldene Tor (1946-51). Todavia, confrontado com a “amnésia” do país perante a catástrofe nazi, desiludido com a evolução política da RFA, num isolamento desolador, muito doente, esquecido enquanto escritor, sente-se “supérfluo” no seu país – assim escreve em carta a Theodor Heuss (SchR, 91). Retorna à França (1953-56), embora com deslocações frequentes à Alemanha para tratamentos, vindo a falecer em 1957.
Chegado aos EUA, Döblin escreve Schicksalsreise. Bericht und Bekenntnis (1949) [Viagem ao destino. Relato e confissão]. Texto de carácter autobiográfico, entrelaça um relato das experiências de guerra e de exílio do autor entre 1940 e o regresso à Alemanha com algumas reflexões sobre a evolução da sua vida interior e religiosa, que culminaria com o batismo católico. Com eco reduzido aquando da publicação, encontra-se hoje vastamente traduzido.
É no primeiro livro, intitulado “Europa, ich muß (sic) dich lassen” [“Europa, tenho de deixar-te”], que Döblin dedica a Portugal o 14.º capítulo – sobre o qual, aliás, já Teolinda Gersão (1992) e Maria de Lurdes Godinho (2018) se debruçaram.
Condicionado pelo confessado desconhecimento quase total do país (SchR, 242; VDest, 228) e, sobretudo, pela situação extrema em que a família se encontrava – exausta, sem dinheiro, com roupa desapropriada para o calor meridional –, o autor-narrador, instalado numa modesta pensão no centro de Lisboa, oferece-nos essencialmente uma imagem disfórica de Portugal. É certo que logo de início escreve: “Portugal é um país maravilhoso” (SchR, 240; VDest, 226). Enaltece a inesperada e inultrapassável solidariedade e solicitude dos portugueses que sentiu logo à chegada ao país enquanto esperavam pelo comboio para a capital: o “belo e completo déjeuner” e um quarto para descansar (SchR, 241; VDest, 227) oferecidos numa casinha da aldeia; a amabilidade de desconhecidos a cederem lugares sentados no comboio; ou o português que voluntariamente lhes arranja um alojamento económico em Lisboa (SchR, 242; VDest, 228). Também é verdade que o autor-narrador reconhece a magnificência de Lisboa (sem esquecer a fantástica abundância de alimentos) (SchR, 244, 245; VDest, 229-231), bem como a “mágica luminosidade” da Exposição do Mundo Português (SchR, 266; VDest, 249), última imagem que reteve da Europa – topoi muito frequentes na literatura de exílio. Todavia, o retrato global é dececionante: “Com a mesma naturalidade com que nos acolheu, assim Lisboa nos havia de desapontar superlativamente” (SchR: 242; VDest: 228). Como bem sublinha T. Gersão, é sempre o mundo nórdico, evoluído mas enlutado por uma guerra terrível, que serve de bitola para os juízos emitidos sobre o Outro, cujas manifestações “desviantes” incomodam e quase parecem ofender o narrador-autor, que não se exime a comentários, ora humorísticos, ora irónicos, mesmo sobranceiros – e nem sempre acertados (Gersão 1992: 60-61). Apesar de apreciar a paz que encontra (SchR, 243; VDest, 228), dói-lhe a vida despreocupada e a alegria dos portugueses que vê como alheados da realidade apocalíptica europeia; de modo geral, o barulho até altas horas das vozes, dos risos, da música, das cantigas, dos pregões, dos elétricos é-lhe insuportável (SchR, 254-255; VDest, 239), o calor abrasador (SchR, 252-53, passim; VDest, 237) e a iluminação “infernal” (SchR, 243; VDest, 228) incomodam-no profundamente; estranha as igrejas que se “podem confundir com ginásios” (SchR, 266; VDest, 244).
Mesmo assim, flaneur e observador clinicamente treinado que era, interessa-se por aspetos, à data apreciados, do quotidiano pitoresco e multifacetado da cidade. Regista, p. ex., o movimento no mercado, a vida diária fervilhante das ruas, vazias e emudecidas ao domingo, as quais, especifica, se encontram divididas por ramos de comércio (SchR, 245; VDest, 230); apercebe-se do “espectáculo soberbo” (SchR, 254; VDest, 238) das varinas e das vendedoras de figos a transportarem os cestos à cabeça (SchR, 254; VDest, 238). E embora não se expanda em considerações sobre o regime do Estado Novo, não deixa de criticar, p. ex., a crua miséria dos pequenos ardinas (SchR, 255; VDest, 239).
Tal como muitos outros exilados focados na sua penosa situação de refugiados, Döblin não demonstrou grande disponibilidade para apreciar a cidade-trânsito que ansiava abandonar.
Maria Antónia Gaspar Teixeira
Gersão, Teolinda (1992), “A passagem de Alfred Döblin por Lisboa”, Revista portuguesa de estudos germanísticos, n.º 17/18: 57-64.
Godinho, Maria de Lurdes d. N. (2018), “Diário de uma fuga: imagem de Portugal entre o Velho e o Novo Mundo nos exilados Erich Maria Remarque, Alfred Döblin e Heinrich Mann”, in: Oliveira, Teresa Martins de e Maria Antónia Gaspar Teixeira (eds.), De passagem: artistas de língua alemã no exílio português, Porto, Afrontamento, 127-141.
Ulysseias, https://ulysseias.ilcml.com/pt/termo/döblin-alfred/
Sander, Gabriele (2001), Alfred Döblin, Stuttgart, Reclam.
Döblin, Alfred (1949), Schicksalsreise. Bericht und Bekenntnis, München, Deutscher Taschenbuch Verlag.
— (1996) Viagem ao destino. Relato e confissão, trad. de Sara Seruya, Lisboa, Asa.
Döblin, Alfred (1949), Schicksalsreise. Bericht und Bekenntnis, München, Deutscher Taschenbuch Verlag.
— (1996) Viagem ao destino. Relato e confissão, trad. de Sara Seruya, Lisboa, Asa.
Gersão, Teolinda (1992), “A passagem de Alfred Döblin por Lisboa”. Runa, Revista Portuguesa de Estudos Germanísticos, n.º 17/18, 56-64.
Godinho, Maria de Lurdes d. N. (2018), “Diário de uma fuga: imagem de Portugal entre o Velho e o Novo Mundo nos exilados Erich Maria Remarque, Alfred Döblin e Heinrich Mann”, in: Oliveira, Teresa Martins de e Maria Antónia Gaspar Teixeira (eds.), De passagem: artistas de língua alemã no exílio português, Porto, Afrontamento, 127-141.
Ulysseias, https://ulysseias.ilcml.com/pt/termo/döblin-alfred/
“Uma nova alínea. A princípio escrevi:
‘Agora que pego na pena para começar a narrar este troço da viagem – uma viagem a partir de uma França há pouco sucumbida, a meados de Junho de 1940, antes da assinatura do Armistício – interrogo-me depois de um breve panorama geral: por junto, que sentido tem isto? Vale a pena registar isto tudo, a deslocação daqui para acolá, as dificuldades que se levantaram e tudo o mais que aconteceu? Terá realmente algum interesse? Falando mais precisamente, redondamente: não se tratou de uma digressão de uma localidade francesa para outra, foi, sim, uma viagem entre o Céu e a Terra.
Do princípio ao fim, esta viagem teve um… eu diria, um carácter visionário, fantástico, ou seja, um carácter não exclusivamente real.
No trajecto, do início até ao final (se é que findou…) fui ‘eu’ que viajei. Mas o viajante não era um passageiro normal munido de bilhete.
A viagem decorreu simultaneamente em mim, comigo e sobre mim. E só porque ela assim se processou é que me abalanço a relatar a digressão e as suas circunstâncias várias.” (…) (VDest, 225)
O calor tornou-se insuportável. Obrigava-nos a ficar dentro de portas horas a fio e a bulirmos só à noitinha. Entretanto, às tardes, deixávamo-nos vadiar por um café fresco. Mas para isso tínhamos sistematicamente de atravessar em passo de corrida a grande e soalhenta praça principal, onde os pombos se acoitavam à sombra de um monumento. De vez em quando, um homem baixo de longos cabelos brancos alimentava-os, eles vinham pousar-lhe nos ombros e comiam-lhe da mão. Ficávamos a observá-lo, pasmados, e abalançávamo-nos em fuga até ao café que prometia, numa tabuleta, 20 graus, e cumpria; e nós, resfolegantes, quedávamo-nos por momentos sem fala, de olhos naquela cabeça branca que dava de comer aos pombos.
A temperatura, mesmo para Lisboa, era anormal, segundo constava. «Anormal», assim se lhe chamava. Mas que coisa mais esquisita, este ano, isso da «anormalidade». Pessoas e história natural andavam, de mãos dadas, a braços com o anormal, onde é que ainda existia alguma coisa de normal? Éramos nós a suspirar pelo normal, e o mundo entrando num estádio de experimentação. (VDest, 237)¨(tradução de Sara Seruya)
Do/a autor/a sobre o exílio