Dembitzer, Salamon

Data de nascimento: 29 de dezembro 1888
Local de nascimento: Império Austro-Húngaro (Cracóvia)
Data de morte: 11 de outubro 1964
Local de morte: Suíça (Lugano)
Nacionalidade: polaca
Confissão:
Profissão:
Artes, Letras e Ciências:
Dembitzer, Salamon

 

Exílio

Data de partida: 4 de março 1933
Local de partida: Berlim
Motivo(s):
Passagem por: Holanda (Amsterdão, Den Haag); Bélgica (Bruxelas); França (Baiona, Hendaia); Espanha (Irun)

 

Chegada a Portugal

Data de chegada: 26 de junho 1940
Acompanhado por: Marie-Madeleine Bambust (namorada)

 

Permanência em Portugal

 

Partida de Portugal

Data de partida: 1941
Destino: EUA (Nova Iorque)

 

Fim do exílio

Data de regresso: 1947
Local de regresso: Austrália (Sydney); Suíça (Lugano)
Sobre o exílio

Nascido em Cracóvia (29-12-1888), então parte do Império Austro-Húngaro, no seio de uma família polaca de judeus de Leste profundamente religiosa, Dembitzer personifica bem o mito do Judeu Errante: após uma infância passada em Lancut, cidadezinha perto de Cracóvia, e dado rejeitar o futuro de rabino que a família desejava, foge com 15 anos para Antuérpia. Em 1906, reúne-se novamente com a mãe e os três meios-irmãos, entretanto instalados em Kassel. Começa então a escrever. Por intermédio de Philipp Scheidemann, à data redator-chefe do jornal Kasseler Volksblatt, surgem os seus primeiros trabalhos literários nesse jornal e, em 1908, é publicada a sua primeira obra, um volume de poesia em ídiche – Lebens Klangen [Sons de vida]. Entre 1914-1918 evita o alistamento enquanto correspondente de guerra na Holanda para o jornal social-democrata Vorwärts, ao mesmo tempo que colabora com periódicos neerlandeses e publica diversas narrativas em holandês.

Já em Berlim entre finais de 1919 e 1933, e sempre com uma relação próxima com a tradição intelectual e ética do judaísmo de Leste, Dembitzer prossegue com a atividade literária a par da jornalística  ̶  publica o seu primeiro romance, Bummler und Bettler (1930) [Vadios e mendigos], colabora em diversos jornais, e lentamente, vai chamando a atenção da cena cultural alemã. Todavia, poucos dias depois do incêndio do Reichstag, o autor foge de novo para a Holanda (março de 1933), onde publica Die Geistigen (1934) [Os espirituais], roman à clef no qual satiriza destacados intelectuais na vida literária e cultural da República de Weimar (Beiküfner 2007: 171, 175). Decorrido cerca de um ano, muda-se para a Bélgica, de onde se evade em maio de 1940 com a namorada, a belga Marie-Madeleine Bambust. Sempre em fuga para o sul, Dembitzer e a companheira passam “por Lille, Tours, Poitiers, Bordeaux, Biarritz, Hendaye” (Seeber 2009: 299), entram na Espanha em Irun com vistos portugueses, muito provavelmente assinados por Aristides de Sousa Mendes, atravessam de comboio a Espanha fascista até Vilar Formoso e chegam ao Porto a 29 de junho de 1940 (Visum nach Amerika – VnA: 179), zona de residência fixa onde são colocados pelas autoridades portuguesas.

Depois de uma espera de cerca de meio ano – desta passagem por Portugal adiante se tratará –, é-lhe finalmente atribuído um visto do ERC [Emergency Rescue Committee] para a travessia para Nova Iorque (janeiro 1941). Nos Estados Unidos, com uma existência anónima, solitária e sem conseguir publicar, não lhe teria sido possível sobreviver sem o financiamento de organizações como a Hebrew Immigrant Aid Society.

Em 1947 ruma à Austrália (Sydney) onde virá a casar anos mais tarde com Hertha Weiss, funcionária da biblioteca pública e alfarrabista. O casal muda-se em 1958 para a Suíça (Lugano), onde Dembitzer, que não mais publicou, virá a falecer em 11 de outubro de 1964. (Beiküfner 2007: 153-159; Seeber 2009: 298)

Visum nach Amerika. Geschichte einer Flucht (ingl.: 1952; al.: 1974-75 e 2009) [Visto para a América. História de uma fuga], um «relato de factos» segundo o próprio autor (VnA, 290) , constitui um importante documento para reconstruir a fuga de Dembitzer e a sua permanência em Portugal; mas é também sinédoque do destino dos milhões de refugiados que, numa tensão entre terror e esperança de salvação, procuravam escapar ao nazismo, bem como pode permitir uma aproximação a todos aqueles que, em diferentes circunstâncias e momentos históricos, se veem obrigados a abandonar os seus países.

A narrativa inicia-se em maio de 1940, quando o protagonista Sylvian Horn e a sua companheira, Malvine van Gent, se juntam aos milhares de fugitivos que procuravam escapar ao avanço das forças de Hitler – sempre sarcasticamente designado como Schicklgruber – rumo à precária segurança da França. Termina com um capítulo dedicado a Lisboa, um final aberto, pois o leitor ignora se virão a obter o desejado «visto para a América». Entrelaçadas com a reconstrução dessas vivências do casal encontram-se episódicas reflexões e/ou comentários normalmente do protagonista. Se bem que pormenorizadamente descrita, não focarei a angustiante e malograda luta do casal até à chegada a Portugal, centrando-me antes na estadia no Porto, principal local de ação.

Perante a terrível condição de refugiados, não é surpreendente que o olhar de Horn não se detenha com minúcia no país e na cidade que acolhe o casal. O Porto – apenas se desloca três dias a Lisboa –, é pouco mais do que pano de fundo para as situações e as personagens apresentadas. Mesmo assim, o protagonista e/ou o narrador não deixam de nos dar, com pontuais mas muito precisas pinceladas, um quadro topográfico, social e humano entrelaçado com uma acentuada crítica sociopolítica dos locais.  Ao invés do quadro ambivalente, algo estereotipado de Lisboa, que nos legam muitos dos textos escritos por exilados que por lá passaram – cidade meridional, bela e tranquila, mas também insuportavelmente quente, barulhenta, com zonas de grande pobreza –, em Visum nach Amerika apresenta-se uma imagem exclusivamente disfórica do Porto que logo desde início se impõe ao olhar implacável, destrutivo mesmo, do jornalista. E é de modo seco, irónico, distanciado, nomeando ruas e edifícios que descreve pequenos momentos que compõem um quadro da cidade.

Apresentando-a como «escarpada», com «muitas ruas íngremes e sinuosas, com casas desleixadas» (VnA: 190), o narrador não se cansa de referir que a cidade é «fétida» (ibid: 197, 244, passim); também o calor abrasador é estranhante e sufoca o protagonista, originando, a seu ver, uma orientalidade no ambiente e uma indolência conducente à ociosidade.

Horn, um alter-ego de Dembitzer, e Malvine terão uma rotina quotidiana muito semelhante à dos inúmeros refugiados anónimos, circulando, num exílio dentro do exílio, quase exclusivamente nesse microcosmos constituído por judeus. Será raro afastarem-se do centro da cidade e das ruas circundantes, percorrendo-as a pé e descobrindo novas ruelas e recantos. Habitam na baixa, primeiro no quarto mais barato nas águas-furtadas de uma pensão, mais tarde num quarto particular da rua Fernandes Tomás. De modo a partilhar informações e boatos, reúnem-se com inúmeros outros exilados nos cafés mais centrais, p. ex., na Praça da Liberdade, «a mais nobre praça da cidade» (ibid: 191). Circulam pelas ruas mais centrais, integram intermináveis filas à porta dos consulados, deslocam-se à agência de viagens Abreu, também na baixa.  Mas, note-se, embora Horn saiba de antemão que o Porto é uma cidade portuária, apenas se interessa pela eventual existência de um navio que o leve para longe da Europa – nunca se desloca até à orla costeira ou mesmo ao rio Douro. O local mais distante onde vão é o bairro de Guerra Junqueiro, já então uma das zonas residenciais mais exclusivas do Porto. É assim que, tanto a caminho da casa do refugiado Gabriel, engenheiro há alguns anos residente nesse bairro, como da sinagoga, situada na rua de Guerra Junqueiro, passam pelo Colégio Alemão – ironicamente paredes-meias com a sinagoga e no qual a nazificação se fez sentir a partir de 1937 (Pimentel 2008: 63) – que ostenta, como o narrador não deixa de sublinhar, a bandeira nacional-socialista (VnA: 206).

 

Todavia, o que ressalta ao longo da narrativa e mais orienta o olhar desilusionístico do narrador, é desde logo a realidade sociopolítica e cultural portuguesa, a miséria humana e social, bem como o arcaísmo vigente no Portugal patriarcal-católico no período do Estado Novo. É verdade que no trajeto de Vilar Formoso para o Porto, o protagonista não fora indiferente à paz e à segurança, ao ambiente de música suave e de dança que irradiava do enclave luxuoso constituído pelo Palace Hotel da Curia, alheado do apocalipse que se vivia na Europa. Mas, ao mesmo tempo, Horn sentira a irrealidade desse quadro que apenas contemplava do exterior, contrastando com a pobreza extrema em torno do hotel. Não familiarizado com tal miséria, o protagonista descreve com ironia o quarto malcheiroso que conseguira alugar, povoado de mosquitos, pulgas e percevejos (ibid: 164). E comparando com os anos vividos na Bélgica, chocam-no sobretudo as muitas crianças-pedintes, sujas e fisicamente deformadas que vê na Curia, já notadas em Vilar Formoso e que também se amontoarão no Porto.

Com escasso contacto com os portugueses, estes são vistos às vezes como generosos mas intrometidos, e, sobretudo, como miseráveis e primitivos. O topos da solicitude e da hospitalidade portuguesas frequente na literatura de exílio não se encontra, o retrato global é dececionante. Nas ruas secundárias do Porto veem-se figuras desleixadas, andrajosas, deformadas (ibid: 194). Jovens ardinas esfarrapados gritam os títulos dos jornais. A pensão onde os Horn primeiro se hospedam no Porto, não oferece as mínimas condições. O olhar maliciosamente irónico do narrador recai também sobre a prostituição feminina praticada na casa de Fernandes Tomás, da duvidosa senhora Cecília, enquanto estratégia de sobrevivência. E é pela voz de um exilado há alguns anos radicado no Porto – mais conhecedor, por isso, das singularidades da sociedade portuguesa – que o leitor sabe da retrógrada rigidez da estratificação social. Nos cafés da Praça da Liberdade, vazios de mulheres com exceção de algumas poucas refugiadas que causavam sensação, apenas «se aglomeram animados homens pequenos e escuros, com o cabelo cuidadosamente escovado e oleado e com os sapatos a brilhar» (ibid: 191). A cidade é enfadonha, toda a intelectualidade se resume a três pessoas, sendo que duas se encontravam no estrangeiro. Os cônsules de países estrangeiros são portugueses arrivistas, ignorantes, mesquinhos e embotados.

Contrariando de certo modo uma ideia instalada, as particularidades do regime repressivo do Estado Novo não são ignoradas. Veja-se, p. ex., como a PVDE [Polícia de Vigilância e Defesa do Estado], que tratava os refugiados com sobranceria e arbitrariedade, os informa do grande poder que tem, devendo-se estes congratular por não serem logo presos. De notar ainda que não escapam ao narrador as hostilidades dentro do regime como expressas, p. ex., pelo diretor da PVDE que considera o diretor do SPN [Secretariado da Propaganda Nacional], António Ferro (Antonio Fera no texto), «um idiota» (ibid: 225).

Todavia, o que mais chamará a atenção do leitor é o olhar distanciado, por vezes frio e maldoso, que Horn, simultaneamente vítima e testemunha, lança com um humor destrutivo não só sobre os outros refugiados e as condições a que são sujeitos, mas também sobre si próprio. Lembre-se, p.ex., o seu prazer manifesto em desconcertar os interlocutores, todos refugiados. Confrontado com a fanfarronice comum à maior parte deles, o protagonista deprecia-se a si próprio ironicamente, não só dizendo-se «um escritor muito menor, muito inferior, cujos leitores apenas se encontram nos círculos de vendedores de hortaliça, empregadas domésticas e mulheres gordas e saciadas» (ibid: 193), mas também como alguém que teria estado repetidamente na prisão. E quando o refugiado Schindler assume que terá sido por motivos políticos ou sexuais, Horn inventa ter roubado os brincos a uma noiva.

É notória a mestria a mestria de Dembitzer no retrato psicológico dos refugiados, como refere Seelmann-Eggebert (apud Seeber 2009: 307). Com grande economia de meios e um olhar impiedoso, o protagonista expõe caricaturalmente, até pelos apelidos utilizados, as fraquezas dos outros exilados que se revelam ávidos de prestígio e empolam a importância que nunca tiveram. O Dr. Seelenhändler (=negociante de almas), falso dentista que, declarando-se um grande altruísta, insiste em tirar dentes aos refugiados para depois reclamar os honorários à Hicem. Ou ainda o engenheiro Erich Korkenzieher (=saca-rolhas), que se apresenta como o mais importante inventor e construtor de aviões da época, sem cujos colaboradores a França não teria sobrevivido à guerra de modo tão vitorioso (!) (VnA: 233). Há também Schindler – que Horn considera ter uma «necessidade patológica de prestígio» (ibid: 201) –, um fabricante de casacos de borracha de Antuérpia. Sempre ansioso por conviver com figuras de destaque, não perde oportunidade de se dizer «quase médico» (ibid: 172) e cujo cunhado, afirma, é presidente do Bronx para, pouco depois, o guindar a presidente dos Estados Unidos (ibid: 265). Ou o engenheiro conhecido como Engel Gabriel (=anjo Gabriel), que se vangloria dos seus contactos privilegiados com as altas esferas de apoio aos refugiados, mas afinal com simpatia pelos nacional-socialistas (ibid: 188-189).

Chamaria ainda a atenção, pelo alargamento semântico que conferem ao texto, para os comentários reflexivos sobre literatura e a sua missão, regularmente da responsabilidade do protagonista. Divaga acerca da responsabilidade moral e política do escritor para com a sociedade (ibid: 19), insiste na necessidade de «palavras novas, grandes, originais» (ibid: 99) adequadas à barbárie que é o nazismo, ou, já sarcasticamente, anuncia renunciar na escrita a guiar-se pela sua consciência em prol dos gostos do público leitor (pouco exigente): «Vou guiar-me inteiramente pelo mercado norte-americano. Com respeito à consciência: o que faço durante com ela a fuga?» (ibid: 148).

Pelo entrelaçamento na narrativa de reflexões e comentários, Visum nach Amerika vai além de um mero «relato de factos». Trata-se de um texto que, embora sem as «palavras novas, grandes, originais», defronta e denuncia literariamente o indizível dos crimes hitlerianos com um olhar criticamente desilusionístico que não poupa nada nem ninguém.

Maria Antónia Gaspar Teixeira

Dembitzer, Salamon (2009), Visum nach Amerika. Geschichte einer Flucht, Weidle Verlag, Bonn.

Beiküfner Uta (2007), “Nachwort”, in Salamon Dembitzer, Die Geistigen. Weidle Verlag, Bonn: 153-186.

Pimentel, Irene Flunser (2008), Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial. Em Fuga de Hitler e do Holocausto, Lisboa, A Esfera dos Livros.

Seeber, Ursula (2009), “Nachwort”, in Salamon Dembitzer, Visum nach Amerika. Geschichte einer Flucht, Bonn, Weidle Verlag.

Obras do/a autor/a sobre o exílio

Dembitzer, Salamon (1950), Drama in Ostend, Sydney, Villon Press.

– – (2009), Visum nach Amerika. Geschichte einer Flucht, Weidle Verlag, Bonn.

Obras do/a autor/a com referências a Portugal

Salamon Dembitzer (2009), Visum nach Amerika. Geschichte einer Flucht, Weidle Verlag, Bonn.

Espólio

Leo Baeck Institute (Nova Iorque)

Portugal visto pelo artista

«Aqui, a ditadura tem pernas bambas… tudo está a cair de podre… ainda pior do que na França. O povo está esfomeado, piolhoso e terrivelmente oprimido. A Polícia Internacional tem conhecimento de que todos estão insatisfeitos; mas não pode encarcerar todo o povo, porque então não se poderia sequer brincar à ditadura. Por isso, a polícia permite-se prender alguns cidadãos de vez em quando, sem qualquer motivo, só para meter medo aos outros.
(VnA:192-193).

Agora tratava-se de passar algumas horas. Os Horn deambularam por vielinhas secundárias e viram homens esfarrapados, mulheres desleixadas sentadas nas soleiras das casas. Crianças sujas, descalças, corriam por ali às voltas e quando avistaram o par estrangeiro, estenderam imediatamente as mãozinhas magras. Mas desta vez, ambos não pareceram dispostos a pegar na carteira. As crianças não desistiram. Não pensavam capitular. Também quem os podia impedir simplesmente de acompanhar os estrangeiros, de puxar-lhes o casaco e as mangas e de murmurar: «Temos fome…»
Assim andaram os Horn de rua em rua com duas dúzias de crianças, e quando uma vez Horn entrou numa loja, as crianças esperaram pacientemente no lado de fora até ele regressar. Quando voltaram à Praça da Liberdade, já contavam três dúzias de acompanhantes seminus que resistiam até ao fim.
Diante do café Vitória viram o Anjo Gabriel, e Horn apontou para os seus satélites.
«Isso não é nada», considerou o Anjo, «se ficar cá mais tempo, ainda vai assistir a muito».
«Nós vivemos vários anos na Bélgica, mas durante esse tempo nunca encontrámos uma única criança a pedir. A ditadura é que causou esta miséria, ou estas condições é que possibilitaram a ditadura?»
«As duas coisas estão certas», respondeu o Anjo, «mas não vamos falar disso na rua, é muito perigoso. É que aqui há legionários…» (VnA: 194-195)
(Trad. Maria Antónia Gaspar Teixeira)

 

Do/a autor/a sobre o exílio

Citar este verbete como: Maria Antónia Teixeira, "Dembitzer, Salamon," em Passagen, Maio 17, 2021, https://passagen.ilcml.com/base/dembitzer-salamon/.