Bach, Susanne

Data de nascimento: 29 de janeiro 1909
Local de nascimento: Império Alemão (Munique)
Data de morte: 10 de fevereiro 1997
Local de morte: RFA (Munique)
Nacionalidade: alemã
Confissão:
Profissão:
Artes, Letras e Ciências:
susanne-Bach

 

Exílio

Data de partida: 1933
Motivo(s):
Passagem por: França (Paris, Gurs, Vichy, Marselha); Portugal (Lisboa)

 

Chegada a Portugal

 

Permanência em Portugal

 

Partida de Portugal

Data de partida: 27 de abril de 1941
Meio de transporte: navio Cabo de Hornos
Destino: Brasil (Rio de Janeiro)

 

Fim do exílio

Data de regresso: 1983
Local de regresso: RFA (Munique)
Sobre o exílio

 

A escritora e livreira Susanne Bach (1909-1997), Lichtenberg de solteira, nasce numa família da burguesia judaica e liberal, em Munique. O pai, filho de um médico, morre na 1.ª Guerra Mundial, poucas semanas depois de ser enviado para a frente leste, e a mãe assume o seu cargo na direção de uma oficina de gravação de águas-fortes.

Aos vinte e três anos, Susanne conclui a licenciatura em línguas românicas, em Munique, onde é aluna distinta do linguista e filólogo Karl Vossler, ao qual a liga um devaneio amoroso, aparentemente correspondido (Marques: 333, nota 5), e que a indica para fazer parte de um importante projeto de edição de um dicionário latino. Vivia-se o ano de 1932 e Susanne Lichtenberg é rejeitada devido à sua origem judaica.

No ano seguinte, a subida de Hitler ao poder dita a emigração de Lichtenberg para Paris, onde frequenta um curso de livreira na Librairie d’Érudition Droz, o que lhe permite trabalhar mais tarde nessa área de especialização. Simultaneamente, e ainda por interferência de Vossler, dá aulas de línguas e faz traduções, ao mesmo tempo que se dedica à causa judaica, colaborando no Comité International pour le Placement des Intellectuels Réfugiés.

Todavia, a invasão da França pela Alemanha e a criação do Governo de Vichy fazem dela «estrangeira inimiga» e ditam o seu internamento no Vélodrome d´Hiver em  Paris, primeiro, e depois no campo de Gurs no sul da França. Dois meses mais tarde foge de Gurs e dirige-se a Vichy, onde consegue ser acolhida no palácio que albergava a rádio francesa Radiodifusion Nationale, para a qual trabalhara em Paris. Ali obtém modestas acomodações, além de trabalho, dividindo com outro romanista as emissões em alemão. A estada no castelo Larive, de julho a meados de outubro, num ambiente agradável que lhe lembrava o de Paris, é referido por SL como dos tempos mais felizes da sua vida (1991: 79), escondendo-se nesta formulação provavelmente o romance do qual nascerá a sua filha «de pai anónimo». Será, todavia, despedida pelo novo diretor da radio, que procura ainda sonegar-lhe a declaração de que colaborara com a Radiodifusion Nationale. Seguem-se meses trabalhando como professora particular e habitando quartos cada vez mais desconfortáveis e frios, até à expulsão da cidade dos estrangeiros sem emprego formal. Embora conseguindo obter um prolongamento da autorização de permanência, decide partir para Marselha, onde esperava obter um visto que lhe permitisse abandonar a França. Acolhida inicialmente num lar de quakers, transfere-se em poucos dias para um quarto alugado e obtém trabalho no HICEM, juntando-se, mais uma vez ao círculo de emigrantes que procuravam agora partir de uma cidade sobrecarregada de fugitivos, que, como escreve, queriam partir para dar lugar a outros que assim se poderiam salvar (1991: 84). Por intermédio da amiga Dana Roda, filha do escritor Alexander Roda Roda, entretanto casada com o autor e dramaturgo oposicionista alemão Ulrich Becher, obtém autorização para integrar o grupo Görgen.

Lembre-se, num parêntesis, que o filósofo, Professor universitário  e político Hermann Mathias Görgen, que  fez parte da oposição católica ao nacional-socialismo, organizou a fuga para o Brasil de um grupo de quarenta e oito pessoas (30 homens, 15 mulheres e 3 crianças), judeus e perseguidos políticos, apresentando-os como futuros trabalhadores de uma fábrica a fundar em Minas Gerais. Condição imposta pelo governo de Getúlio Vargas, de forte orientação antissemita, era que fossem portadores de um atestado de batismo católico, que lhes é conseguido por um jornalista, Johannes Hoffmann, com contactos privilegiados na cúria romana.

Susanne Lichtenberg recebe, então, um passaporte com visto brasileiro, passado pela secretaria checa na Liga das Nações, documento que, como escreve nas suas memórias, permitia apenas uma viagem e não conferia cidadania. Parte de Marselha, passando por Perpignan em direção a Barcelona, onde ao fim de três dias obtém um visto para Madrid, seguindo depois para Lisboa para se juntar ao Grupo Görgen, que já se encontrava ali. A sua passagem por Lisboa não tem qualquer história: um dia depois da chegada, embarca, em 27 de abril de 1941, no navio espanhol Cabo de Hornos para chegar ao Rio de Janeiro em 11 de maio. Já a estada no Brasil permite fazer dela uma reconhecida mediadora cultural entre os dois países.

Sobre a sua chegada ao Brasil, onde segue, como os outros membros do grupo, para Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais, conta numa entrevista a Izabela Kestler: «Eu só tinha US$ 30 no bolso e estava grávida de seis meses. O pai da criança, francês, permaneceu na França». Em agosto nasce em Petrópolis a filha Katharina Isabel, que será afilhada do casal Görgen.

Com a aprendizagem do português facilitada pelo bom domínio do francês e do espanhol,  Susanne Lichtenberg conta, rapidamente obtém trabalho como secretária e tradutora, sendo depois contratada pela Livraria Kosmos, fundada por Erich Eichner e pelo refugiado austríaco Norbert Geyerhahn, e que era um importante lugar de encontro entre os refugiados de língua alemã. Em 1944, publica em francês numa editora relativamente modesta, as suas memórias, com o proustiano título de À la recherche d’un monde perdu, traduzidas e adaptadas do original alemão, onde relata a sua vida até à partida de França. Como nota Karina Marques, estas memórias caracterizam-se pelo seu caracter «lacunar e silencioso» (Marques 2024:326) e virão a ser integradas, possivelmente na sua versão original, como primeira parte, no texto autobiográfico que SB escreve em alemão no fim de vida. De facto, em 1991, seis anos antes de morrer, Susanne Bach regressa a uma obra autobiográfica, relatando agora com fidelidade as suas experiências exílicas em Paris, a rota de fuga e as vivências brasileiras, nomeando as figuras com quem se cruzou e que no primeiro texto se camuflavam atrás de nomes fictícios, no texto Karussel. Von München nach München Carrossel. De Munique a Munique (Marques 2024: 337-340).

Após a guerra, Susanne Lichtenberg voltou para a Europa, mas em 1948 emigra definitivamente para o Brasil, onde vem a casar com o engenheiro Jean Bach, de origem húngara, sobrevivente do campo de concentração Mauthausen que se dedicou ao comércio de pedras preciosas. Susanne adota o apelido do marido e cria com o nome «Susan Bach Comércio de Livros» a primeira livraria científica e internacional do Rio de Janeiro, direcionada para a exportação de livros de autores brasileiros, vindo a ter como clientes importantes bibliotecas europeias.  A partir dos anos setenta, dedica-se também  a colecionar literatura de exílio publicada no Brasil (esta coleção encontra-se no Deutsches Exilarchiv na biblioteca nacional de Frankfurt a. M.), organiza catálogos e artigos científicos e publica ela própria também diversos artigos sobre autores de língua alemã exilados no Brasil, com destaque para a obra de Stefan Zweig. O seu regresso à Alemanha é ditado pela morte prematura da filha, instalando-se, para estar perto do neto, em Munique, onde vem a morrer em 1997.

 

Bach, Susanne (1991), Karussell. Von München nach München. Nürenberg, Frauen in der Einen Welt,  https://www.frauenindereinenwelt.de/de/search?language=de&q=susanne+bach&page=2

Kestler, Izabela Maria Furtado (1992), Literatura de exílio e o exílio de escritores e jornalistas de língua alemã no Brasil. Peter Lang, Frankfurt am Main et al.

Marques, Karina (2024), «L’ autobiographie française de Susanne Bach: des stratégies pour racontrer la Shoah entre le Nazisme et le Nazifascisme», in: Martin, Eden Viana et al., Perspectivas interculturais: discurso, linguagem e poder, Rio de Janeiro, Edições Makunaima, 325-350.

Münster, Irene (2016), «Das Buch als Gastgeschenk: Deutsch-Jüdische Buchhändler und Verleger in Lateinamerika»,  in Feierstein, Lilian Ruth Hrsg. Von Europa nach Südamerike – Deutsch-jüdische Kultur in der Emigration , Münchner Beiträge zur jüdischen Geschichte und Kultur,  München, Jg. 10, Heft 2, 71–74.

 

(Teresa Martins de Oliveira)

Obras do/a autor/a sobre o exílio

Bach, Susanne (1991), Karussel. Von München nach München , Zentrum für Interkulturelle Frauenalltagsforschung und Internationalen Austausch,

Espólio

Deutsches Exilarchiv der Deutschen Nationalbibliothek, em Frankfurt a.M.

 

Portugal visto pelo artista

Assim se fecha o círculo. Eu podia ter prescindido do novo-mundo para ficar em França, mas esta espécie de suicídio não teria aproveitado a ninguém. No domingo de Páscoa de 1941, às 5 horas da manhã, fui a pé até à estação de comboios, que ainda ficava bastante longe. Durante o trajeto, tive tempo de pensar em muitas coisas.
Em Perpignan, respirei o ar de França pela última vez, enquanto esperava, no terraço de um café, pelo comboio de ligação. Algumas horas depois, cheguei a Espanha, onde passei uma semana, antes de continuar para Lisboa. A 2 de abril deixei, então, a Europa – é certo que por muito tempo, mas não para sempre.

Bach, Susanne (1991), Karussell. Von München nach München, Frauen in der einen Welt, https://www.frauenindereinenwelt.de/de/search?language=de&q=susanne+bach&page=2, p. 85.

De Marselha fui para Barcelona, por Perpignan, onde, na fronteira espanhola fui revistada por uma mulher frente à qual tive que me despir toda, até os sapatos. Fiquei lá três dias. Todos os dias ia à estação, para comprar um bilhete para Madrid, mas ouvia sempre: Está esgotado! Até que alguém me deu o bom conselho de ir a uma agência de viagens, e lá consegui de facto o bilhete, embora a um preço muito mais elevado. Finalmente cheguei a Madrid, onde me esperava o meu antigo companheiro de estudos Kurt, que viera de Oviedo. (…)
Depois apanhei o comboio para Lisboa. Os outros membros do meu grupo já lá tinham chegado e no dia 27 de abril embarcámos no «Cabo de Hornos», um vapor espanhol, que no dia seguinte largou para o alto mar.
Alguns dos nossos companheiros foram para a 1.ª classe, a maior parte, e eu também, para a entrecoberta. Era um espaço gigantesco no casco do navio, com um número incontável de camas para nós mulheres, e por certo o mesmo para os homens. Havia imensos insetos, principalmente uma enorme quantidade de bichinhos pretos pequeninos, mas que não faziam mal a ninguém. Na entrecoberta não se podia tomar banho. Por isso, esgueirava-me à socapa (claro que era proibido) para a 1.ª classe, para o camarote da minha amiga Dana.
Depois de duas semanas de viagem, chegámos ao Rio de Janeiro. Foi no dia 11 de maio de 1941, o dia em que Rudolf Hess voou para Inglaterra.
A entrada, vindo do mar, já foi descrita inúmeras vezes, mas nunca é demasiado o que se diga sobre a beleza desta primeira impressão da costa do Rio, com as ilhas, umas mais pequenas outras maiores, que lhe ficam em frente: a impressão é avassaladora.
Stephan Zweig escreveu a esse propósito: «Depois veio a aterragem no Rio, uma das impressões mais marcantes que algum dia experimentei. Fiquei fascinado e ao mesmo tempo emocionado. Pois não só era confrontado com uma das mais maravilhosas paisagens do mundo, esta combinação única de mar e montanha, cidade e natureza tropical, mas também com um tipo de civilização completamente nova».
Ficámos pouco tempo no Rio, instalados numa pequena pensão na Av. Atlãntica, ao pé do mar. Depois viajámos juntos para o interior, para Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais, uma cidadezinha universitária.

Bach, Susanne (1991), Karussell. Von München nach München, Nürenberg, Frauen in der einen Welt, 87.
(Teresa Martins de Oliveira)

 

Do/a autor/a sobre o exílio

Citar este verbete como: Teresa Martins de Oliveira, "Bach, Susanne," em Passagen, Maio 17, 2021, https://passagen.ilcml.com/base/bach-susanne/.