Chegada a Portugal
Permanência em Portugal
Partida de Portugal
Fim do exílio
A filósofa e investigadora de teoria política Hannah Arendt (1906 – 1975) é por certo um dos
mais destacados nomes entre aqueles que escreveram sobre a condição dos refugiados.
Filha de um casal de judeus assimilados, Hannah nasceu em Linden (Hanover), e cresceu em
Königsberg, na Prússia. Depois da morte prematura do pai, o engenheiro Paul Arendt, foi educada
pela mãe, social-democrata e liberal, em contacto com os avós, cujo judaísmo reformado nunca
professou. Atraída desde cedo pela filosofia, estuda em 1924 em Mannheim com Martin
Heidegger, com quem tem um relacionamento amoroso – que a condição deste, casado e com o
dobro da idade dela, proibia – , depois em Freiburg com Husserl, e ainda em Heidelberg, onde
defende a sua tese de licenciatura sobre o conceito de amor em Santo Agostinho, com Karl
Jaspers, a quem a ligará uma profunda e duradoura amizade. Em 1928 casa com o filósofo e crítico
da cultura Günther Stern (que mais tarde adota o nome Günther Anders).
Ainda em Heidelberg, Hannah interessa-se por Paul Tillich e Karl Mannheim e inicia estudos que
conduzirão à sua tese de doutoramento sobre a salonnière romântica de origem judia Rahel
Varnhagen. Segue-se um ano em Frankfurt, onde colabora com o jornal Frankfurter Allgemeine
Zeitung e depois, já em Berlim, estuda a obra de Marx e Trotzky e sobre a condição dos judeus,
a partir dos conceitos de «pária» (Max Weber) e de «parvenu» (Lazare).
A Karl Jaspers, que procura convencê-la a considerar-se alemã, Arendt escreve que para ela
alemão é a língua mãe, a filosofia e a poesia; quanto ao resto, sentia-se obrigada a manter
distância. Anos mais tarde, dirá numa entrevista: «Se te atacam como judia, é como judia que
deves defender-te».
Confrontada com as perseguições aos judeus que se seguiram ao Incêndio do Reichstag (27 de
fevereiro de 1933) e impedida de entregar a tese de doutoramento que lhe abriria as portas à
docência universitária, Hannah Arendt apercebe-se de que é chegada a hora de sair da Alemanha.
Antes de partir, empenha-se ainda em prestar algum serviço à causa judaica e aceita colaborar
com o movimento sionista, de cujo presidente, Kurt Blumenfeld, era amiga: recolhe dados sobre
as medidas antissemitas tomadas por associações governamentais, informações destinadas a
serem apresentadas ao Congresso Sionista de Praga, o que a torna suspeita aos olhos da Gestapo.
É presa para interrogatórios e libertada uma semana depois.
Começa, então, para Arendt o longo período de exílio: atravessa ilegalmente a fronteira, com a
mãe, instalando-se a título provisório em Praga, cidade onde à época se refugiavam muitos dos
críticos do regime nacional-socialista. Pouco depois, muda-se via Genebra para Paris, onde o
marido se refugiara desde março desse ano, juntando-se a inúmeros judeus alemães e a uma
grande comunidade de perseguidos políticos e apátridas, oriundos dos antigos impérios multiétnicos e da Espanha franquista. Arendt liga-se à World Zionist Organization e trabalha para, e.
o., a associação Youth Aliyah, que organizava o transporte de crianças para Israel e, a partir de
1943, para a Conference of Jewish Relations. Ao mesmo tempo, estabelece contacto com círculos
de emigrados alemães, onde priva, e.o., com Walter Benjamin, primo de Stern, que lhe confiará
o seu manuscrito Thesen über den Begriff der Geschichte (Teses sobre a filosofia da história) e
que meses depois se virá a suicidar na fronteira franco-espanhola.
Em 1937, Arendt divorcia-se – Günther Stern partira já no ano anterior para o EUA, onde virá a
casar com Elisabeth Freundlich (vd. Passagen) – e perde a nacionalidade alemã, tornando-se
apátrida durante quase 20 anos. Três anos depois, casa-se com outro refugiado, o jornalista
Heinrich Blücher, antigo membro do Partido Comunista alemão.
A ocupação do norte de França pelas tropas de Hitler e a instalação em Vichy de um governo prónazi marcam o início de uma nova fase de repressão dos judeus e antifascistas: Arendt e Blücher
são enviados, separados, para campos de internamento. Na qualidade de «estrangeira inimiga»,
Hannah passa em maio de 1940 cerca de uma semana no Vélodrome d´Hiver, em Paris, e daí
segue para o campo de internamento para mulheres em Gurs, no sul de França, de onde consegue
fugir ao fim de 4 semanas, reunindo-se pouco depois ao marido em Montauban. Com a ajuda de
Varian Fry, documentos arranjados por Albert Hirschmann, um visto de emergência do diplomata
Hiram Bingham IV, a garantia de apoio económica de Günther Anders, e viagens pagas pelo
Rescue Committee, o casal consegue juntar os documentos necessários para a emigração para o
EUA. Arendt e Blücher empreendem, então, o périplo de fuga mais comum na primavera de 1940:
de comboio, passam por Port Bou, Barcelona e Madrid, entrando em Portugal provavelmente
pela fronteira de Badajoz. Chegam a Lisboa em 10 de janeiro de 1941 e instalam-se numa casa
na Rua Sociedade Farmacêutica, n.º 6.
Pouco se sabe sobre a vida de Hannah Arendt e Blücher em Lisboa, além de que, como muitos
outros refugiados, correram as agências e organizações de apoio à emigração que lhes podiam
garantir lugar num barco para a América; empenharam-se ainda, com sucesso, por conseguir a
vinda para Lisboa de Martha Arendt, que ficara em Montauban. Da atividade intelectual de Arendt
em Lisboa sabe-se apenas que se juntava com outros refugiados amigos para lerem os
apontamentos que lhe confiara Walter Benjamin. Informações sobre essa estada de 3 meses e meio
em Lisboa encontrar-se-ão eventualmente em cartas a amigos, como acontece, p.ex., em cartas a
Salomon Adler-Rudel.
A 10 de maio de 1941, partem de Lisboa no navio «S.S. Guiné», para chegar a 22 do mesmo mês
a Nova York, onde vivem inicialmente de uma pequena pensão concedida por uma organização
sionista. Apostada em se tornar independente, Arendt dedica-se afincadamente a melhorar os seus
conhecimentos de língua inglesa. A partir de outubro do mesmo ano, colabora com instituições e
publicações judaicas, entre elas a revista judaico-alemã Aufbau, de Nova York, e os Jewish Social
Studies.
Em 1943 publica na revista Menorah Journal o ensaio «We refugees», à época pouco valorizado,
mas que se tornará uma das suas obras de referência e um dos mais citados textos sobre a condição
dos exilados. Partindo da sua própria experiência e da de outros companheiros de infortúnio,
Arendt reflete sobre a impossibilidade de assimilação para os judeus, a dificuldade destes em
aceitarem a sua situação de refugiados e o esforço que fazem para serem aceites como iguais;
sobre a condição política e humana de refugiados e apátridas, privados da sua existência social e
profissional, da sua nacionalidade e até da própria língua. Mas a barbárie nazi não se detém apenas
nos judeus, já que outros europeus perseguidos pelo nacional-socialismo abandonam os seus
países, seguindo-lhes as pisadas: «Os refugiados empurrados de país em país representam a
avantgarde dos seus povos» (Arendt 2021: 43).
Dois anos depois, Arendt publica na mesma revista o artigo «Zionism Reconsidered» em que,
como escreve Thomas Meyer, retoma as ideias expressas em We refugees, para se distanciar da
fundação do estado de Israel baseado nas mesmas premissas nacionalistas que provaram ter
falhado no confronto com o ataque nazi.
Em 1951 surge aquela que pode ser considerada a sua obra prima The Origins of Totalitarism,
publicada inicialmente com o nome The Burden of our Time. Nesta surge a máxima, hoje
considerada universal, «sobre o direito a ter direitos»; Arendt debruça-se de forma especial sobre
a temática dos direitos humanos (outros temas são o antissemitismo e o imperialismo). Nesse
mesmo ano, começa a lecionar na Universidade de Chicago; anos depois, muda-se para a New
School for Social Research de Nova York, continuando a publicar tanto trabalhos de investigação
como de divulgação, principalmente no âmbito da filosofia política, e que se revelaram
frequentemente origem de grandes polémicas. Lembre-se, a título de exemplo, a obra Eichmann
in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil (1963).
Depois da guerra, Hannah Arendt volta à Alemanha em trabalho ou em visita e colabora com
diversas universidades alemãs, mas é nos EUA que obtém em 1951, finalmente, a nacionalidade,
e é na Library of Congress e nas universidades onde lecionou que está depositado quase todo o
seu espólio. Na Alemanha são-lhe votadas associações e institutos em diferentes universidades
(p.ex. Bremen, Dresden e Oldenburg) e, um pouco por toda a parte, a sua obra continua a ser
estudada e valorizada, destacando-se a lucidez e atualidade do seu pensamento, nomeadamente
sobre o totalitarismo e a condição dos refugiados.
Arendt, Hannah e Giorgio Agamben (2O21), Nós refugiados e Para lá dos direitos do homem,
trad. Miranda Justo, Lisboa, Antígona.
Meyer, Thomas, 2O15, «Hannah Arendt über Flüchtlinge. ‚Es bedeutet den Zusammenbruch
unserer privaten Welt‘», Deutschlandfunk.de (acedido em 9. 12. 2O24)
- Collection Hannah Arendt Papers, in Library of Congress, Washington.
Cartas de Hannah Arendt a Salomon Adler-Rudel, escritas em Lisboa
Lisboa, 17 de fevereiro de 41
Caro Rudel
…
Por favor, dê-me notícias suas e escreva-me o que anda a fazer…
Estou para aqui com o meu marido, desde setembro que temos vistos de perigo, com os quais nós, na qualidade de apátridas, não podíamos nem partir nem passar por Espanha. Agora conseguimos finalmente. Correu-nos tudo relativamente bem. E não nos incomodaram praticamente nada. Em Gurs não cheguei a ficar quatro semanas. Infelizmente não é esta a regra, de forma nenhuma, e a grande maioria dos nossos amigos está em campos de trabalho ou de concentração em condições inimagináveis… Não é só em Gurs que a mortalidade é altíssima – lá morrem 25 a 40 pessoas por dia (…).
Não sei quanto tempo vamos ficar aqui. Para já, ainda não temos passagens e eu vou ter de me travar de razões com o HICEM, o que também não se tornou mais agradável à medida que o tempo passa. O que acontece ou acontecia em Marselha não é realmente exemplo (…).
Lisboa, 2 de abril de 41
Caro Rudel
(…) já escrevi à Eva que provavelmente a minha mãe vai chegar aqui ainda este mês, uma vez que também lhe consegui um visto de salvação. O cônsul de Marselha acabou por o acrescentar aos nossos vistos, sem qualquer formalidade, mas nós não pudemos esperar até ela ter todos os vistos de trânsito, uma vez que os nossos caducavam entretanto, e também porque a nossa permanência podia facilmente levar a situações muito desagradáveis, o que não é o caso dela. A minha mãe ainda pôde desfazer a nossa casa de Paris – e a biblioteca foi guardada nos Quakers. – Temos uma vaga esperança de ir embora ainda este mês. As nossas passagens foram pagas há muito – para nós, pelo Rescue-Committee, para a minha mãe pelo HICEM – mas aqui há verdadeiras batalhas pelos lugares, nas quais não participamos. Toda a emigração me lembra o nosso velho jogo «Homem, não te aborreças», em que se lança o dado e, de acordo com o resultado e sem estar à espera, somos obrigados a recuar ou a andar uma série de casas para a frente ou até a começar do início. E ponto final nas questões pessoais!
Não sei até onde está a par da situação dos refugiados em França. Sabe, naturalmente, que a grande maioria está presa em campos, a morrer à fome.
(Trad. Teresa Martins de Oliveira)
Excerto do texto Nós refugiados
Em primeiro lugar, não gostamos que nos chamem «refugiados». Entre nós, chamamo-nos uns aos outros «recém-chegados» ou «imigrantes». Os nossos periódicos são publicações para «americanos de língua alemã»; e, tanto quanto sei, não existe nem nunca existiu nenhum clube fundado por gente perseguida por Hitler cujo nome indicasse que os seus membros fossem refugiados.
Um refugiado costumava ser uma pessoa levada a procurar refúgio por algum acto cometido ou professar alguma opinião política. Bom, é verdade que tivemos de procurar refúgio; mas não cometemos quaisquer actos e muitos de nós nunca sonharam ter alguma opinião radical. Connosco, o significado do termo «refugiado» modificou-se. Agora, «refugiados» são aqueles que foram tão desafortunados que chegaram sem meios a um novo país e que têm de ser ajudados por comités para refugiados.
Antes de ter rebentado esta guerra éramos ainda mais sensíveis perante o facto de nos chamarem refugiados. Fazíamos o nosso melhor para provar aos outros que eramos apenas vulgares imigrantes. Declarávamos que tínhamos partido de livre vontade para países da nossa escolha e negávamos que a nossa situação tivesse alguma coisa a ver com «os chamados problemas judaicos». (…) Queríamos reconstruir as nossas vidas e era tudo. Para se reconstruir a vida, é preciso ser forte e optimista. Portanto, somos muito optimistas.
De facto, o nosso optimismo é admirável, ainda que sejamos nós próprios a dizê-lo. Por fim, a história do nosso combate tornou-se conhecida. Tínhamos perdido a nossa pátria, o que significa que perdêramos a familiaridade com a nossa vida quotidiana. Tínhamos perdido os nossos empregos, o que quer dizer que perdêramos a confiança de quem sabe ter alguma utilidade neste mundo. Tínhamos perdido a nossa língua, o que representa que perdêramos a naturalidade das reacções, a simplicidade dos gestos, a expressão não afectada dos sentimentos. Tinhamos deixado os nossos parentes nos guetos polacos, e os nossos melhores amigos tinham sido mortos em campos de concentração, e isso significa a ruptura das nossas vidas privadas.
Contudo, logo que fôramos salvos – e a maior parte de nós tivera de ser salva várias vezes – , tínhamos dado início às nossas novas vidas e tentáramos seguir tão rigorosamente quanto possível todos os bons conselhos que os nossos salvadores nos haviam transmitido. Disseram-nos que esquecêssemos; e esquecemos mais depressa do que alguém alguma vez pudesse imaginar.
(Arendt, Hannah e Giorgio Agamben (2O21), Nós refugiados. Para lá dos direitos dos homens, tradução de José Miranda Justo, Lisboa, Antigona, pp. 15-17).
(O tradutor escreve de acordo com a ortografia antiga)
Do/a autor/a sobre o exílio