Wronkow, Georg

Data de nascimento: 17 de fevereiro 1905
Local de nascimento: Império Alemão (Berlim)
Data de morte: 15 de dezembro 1989
Local de morte: EUA (Nova Iorque)
Nacionalidade: alemã; americana
Confissão:
Profissão:
Artes, Letras e Ciências:
georgewronkow

 

Exílio

Data de partida: 1933
Local de partida: Alemanha (Berlim)
Motivo(s):
Passagem por: Dinamarca; França (Paris); Espanha

 

Chegada a Portugal

Data de chegada: abril 1941
Acompanhado por: Gertrude Wincenty (mulher);

 

Permanência em Portugal

Tempo de permanência: oito semanas

 

Partida de Portugal

Data de partida: maio 1941
Meio de transporte: navio (Guiné)
Destino: EUA (Nova Iorque)

 

Fim do exílio

Data de regresso: ---
Local de regresso: ---
Sobre o exílio

O jornalista Georg Wronkow (1905–1989) – que publicou também com os nomes George Wronkow e Georg Wincenty (nome de família da mulher) e com os pseudónimos Greko e  George Gaekow – nasceu em Berlim, como segundo filho de pais judeus. O irmão é o futuro caricaturista e jornalista germano-americano Ludwig Wronkow. A morte prematura do pai, quando Georg tinha apenas quatro anos, pôs fim a uma vida desafogada, conseguindo a mãe, todavia, garantir aos dois filhos a frequência de estudos liceais, que Georg termina em 1922. Três anos depois, é jornalista em jornais de prestígio da editora Mosse, e a partir de 1931 do «Berliner Tageblatt», de onde vem a ser dispensado na qualidade de «inimigo do estado» em março de 1933, na sequência da tomada do poder por Hitler. Este despedimento dita a sua fuga para a Dinamarca e, seis meses depois, a fixação em Paris, onde passa a trabalhar como escritor independente e como ghostwriter e a colaborar no jornal «Pariser Tageblatt». Mais tarde será redator, tradutor e locutor no programa em alemão da radio «Strasbourg-PTT», que procurava contrariar a propaganda nazi que dominava a Alsácia.  Em 1936, casa  com Gertrude Wincenty.

Anos mais tarde, Wronkow escreverá as suas memórias Kleiner Mann in grossen Zeiten  [Homem pequeno em grandes tempos], um texto lúcido e informativo, em que a sua vida surge em articulação com as muitas convulsões políticas que marcaram o seu tempo. O sétimo capítulo, «Siebente grosse Zeit», [Sétimo grande tempo], começa com o período imediatamente após a entrada de França na guerra e acaba com a chegada do casal Wronkow à América. Se, no início da entrada da França na guerra,  Wronkow ainda é protegido por um carimbo no passaporte de apátrida que atesta a sua qualidade de «trabalhador técnico importante» e a sua lealdade à França, já a 13 de maio de 1940, três dias depois do ataque das tropas alemãs à frente ocidental, é mandado apresentar-se no «Stade Buffalo» e a mulher no «Vélodrome d´Hiver». Depois da confusão inicial, provocada pelo facto de os documentos o declararem servidor do estado, Wronkow é enviado para Langlade, uma pequena aldeia no sul da França, na qualidade de «volontair étranger», onde irá receber instrução militar, colaborando no exército francês até março de 1941. Tal como outros camaradas da companhia, acalenta projetos de fuga, até que é anunciado o armistício e com ele a obrigação de os franceses entregarem à Gestapo todos os estrangeiros que fossem reclamados. O comandante garante a Wronkow que sob sua liderança ninguém será entregue aos alemães e, de facto, no dia em que se anuncia a chegada de uma comissão de controlo nazi, depois de riscar todos os nomes dos fugitivos alemães da lista dos soldados da sua companhia, anuncia a Wronkow: «Monsieur, pour moi vous êtes mort». Quando no dia seguinte Wronkow regressa ao campo, recebe, tal como os seus camaradas um atestado de que o campo a que pertencia tinha sido controlado por tropas alemãs, o que lhe dá uma segurança acrescida. Nos tempos seguintes, Wronkow acomoda-se à sua nova vida, até que recebe um telegrama a anunciar que em Marselha, onde tem que se dirigir imediatamente, o espera e à mulher um visto para a América. Com auxílio do novo comandante, parte para Lodève, a 100 km de distância, para se juntar a Trude, e daí segue para Marselha, onde recebem um visto de emergência passado pela Casa Branca, que, como explica o lacónico cônsul ,«não é um visto de imigração e tem prazo limitado» (Wronkow 283). Do consulado dirigem-se ao HIAS [Hebrew Immigrant Aid Society] que se disponibiliza a arranjar um «affidavit» junto do irmão de Wronkow e os 750 dólares necessários para a viagem e os aconselha a voltarem ao campo e a Lodève, e a esperarem. Quando recebe novamente notícias de Marselha, Wronkow é transferido para o campo de emigrantes «Les Milles», onde «o regime de Vichy reúne todos aqueles de quem se quer ver livre o mais rapidamente possível» (Wronkow 289), e onde irá permanecer enquanto junta a documentação necessária à partida: «O consulado espanhol participa-me que me concederá um visto de trânsito desde que eu mostre um visto português. Os portugueses participam-me que é dada por parte de Lisboa a autorização para um visto de trânsito, se o HIAS fornecer a garantia de que continuarei viagem. As autoridades francesas dão-me a autorização para emigrar, já que, aparentemente, passei pela comissão de controle alemã» (Wronkow 289).

De comboio, abandonam Marselha, passam por Lurdes e chegam aos Pireneus, onde, na pequena localidade de Carnac, já do lado espanhol, passam o controle que lhes permite a entrada em Espanha. Em Saragoça, mudam para o comboio de longa distância para Madrid, quando, de repente, este é atacado por um bando organizado de crianças esfomeadas, órfãs de guerra, que pretendem tomar de assalto o comboio e chegar a Madrid e que são pronta e violentamente repelidas pelos carabineiros instalados, um por  carruagem, perante o olhar impávido dos viajantes. Algumas horas na capital espanhola, faminta e fortemente policiada, interrompem a viagem de três dias e três noites até à fronteira portuguesa.

As poucas semanas que passam em Lisboa assemelham-se em muito às experiências de outros refugiados deste período.  A abundância de víveres, a iluminação da cidade, a quantidade de refugiados e a alegria dos reencontros, os jornais, a segurança (relativa), a ânsia de partir e as dificuldades mitigadas pela presença tutelar das organizações de auxílio judaicas e também a partida e a sua experiência singular (cf. verbete sobre Wronkow nesta base).

Em junho 1941, o casal Wronkow chega a Nova Iorque, onde Georg trabalhará inicialmente no departamento de propaganda e distribuição da revista de emigrantes francófona «Pour La Victoire». Entre 1943 e 1947, é editor e locutor na secção de língua alemã da «Columbia Broadcasting System» (CBS) e, após a guerra, tornou-se correspondente da ONU e dos EUA para jornais e estações de radiodifusão suíços e alemães. Tendo obtido a cidadania americana em 1949, é membro de diferentes associações americanas e distinguido em 1980 com a Cruz de Mérito da República Federal da Alemanha. Morreu a 15 de dezembro de 1989 em Nova Iorque, com quase 85 anos.

Wronkow, Georg (2008), Kleiner Mann in groβen Zeiten: Reportagen eines Lebens, München, Saur

 

Obras do/a autor/a sobre o exílio

Wronkow, George (2008), Kleiner Mann in großen Zeiten. Reportagen eines Lebens, München, Saur.

Obras do/a autor/a com referências a Portugal

Wronkow, George (2008), Kleiner Mann in großen Zeiten. Reportagen eines Lebens, München, Saur.

Espólio

Instituto de Investigação Jornalística de Dortmund

Portugal visto pelo artista

Georg Wronkow, Kleiner Mann in groβen Zeiten: Reportagen eines Lebens [Homem pequeno em grandes tempos: reportagens de uma vida]

Fronteira portuguesa – estação limpa, coberta de azulejos. Mudança da bitola larga, espanhola, para a bitola normal; encontra-se aqui o último resquício do antigo comboio internacional, que antes da guerra percorria toda a Europa. Pela primeira vez desde há três noites podemos esticar as pernas na 1.ª classe de um comboio de luxo. Só uma senhora partilha connosco o compartimento.
Durante a manhã, abrimos a oitava e última lata de sardinhas do nosso farnel. Somos certamente os únicos viajantes que levam latas de sardinhas para Portugal, o tradicional país das sardinhas. A senhora, no outro canto da carruagem, abre uma lata com patê de fígado e começa a mastigar com grandes trincadelas. Olhamos saudosamente para aquela iguaria, e ela olha com um olhar ao que parece igualmente nostálgico para a nossa lata de sardinhas. «Posso oferecer-lhe uma sardinha?» Resposta agradecida: «Oh, sim! Com muito gosto! Mas talvez gostassem também de um pouco de patê de fígado» – «Com muito prazer!» – «Na verdade, eu venho de Nice, e há três dias que só como patê de fígado; foi a única coisa que consegui arrecadar para a viagem.» – «Nós abastecemo-nos em Marselha, e a nossa alimentação desde aí são sardinhas de lata». Com alegria, trocamos as nossas preciosidades e depois as nossas aventuras. É uma enfermeira inglesa, estava em França com o corpo expedicionário e após a capitulação dispersaram-se. Depois de vaguear pela França, foi finalmente mandada para Lisboa num «transporte clandestino» e quer voltar para Inglaterra. Combinamos comer um almoço monumental em conjunto quando chegarmos a Lisboa e horas depois estamos sentados no Rossio, a principal praça da cidade, e comemos, comemos. Dou-me ao luxo desta primeira «refeição de paz» por um dólar da minha fortuna. No fim, a Traute come sozinha quatro fatias de bolo. Só deixámos ficar as sardinhas de conserva do «couvert».
O repentino salto para a normalidade, pelo menos exterior, de um país neutro tira-nos o fôlego. Mesmo saciados não nos conseguimos apartar das montras das mercearias, passeamos pelos mercados cheios de frutas, legumes e peixes. Há um excedente de oferta de ananás e de frutos tropicais dos Açores, uma vez que a guerra impede a exportação. O HIAS toma imediatamente conta de nós, de forma muito eficiente. Há pessoas simpáticas a receber-nos. Espera-nos um quarto limpo numa família portuguesa, recebemos dinheiro de bolso, há uma cantina, onde podemos comer sempre que quisermos. Está prevista a nossa passagem dentro de três semanas: «Considerem esse tempo como umas férias, restabeleçam-se».
Somos tomados por uma impressão avassaladora à chegada do entardecer, quando se acendem as luzes nesta cidade que se ergue das margens do Tejo até às colinas, e toda a Lisboa resplandece. Desde 1 de setembro de 1939, quando toda a Europa mergulhou na escuridão, que não via uma cidade brilhar. Estamos sentados num banco na margem do rio, olhamos para essas luzes da cidade e sentimos, de repente, como é deprimente a eterna escuridão da guerra – como a luz pode ser redentora.
Gradualmente, experimentamos a atmosfera singular deste porto de fuga da Europa Ocidental. Os proscritos de um continente juntavam-se aqui numa pausa para respirar. Os muitos curiosos em frente aos quiosques de venda de jornais, em que se encontram lado a lado periódicos de amigos e inimigos, quase não há portugueses; ouvimos francês, inglês, alemão, holandês, checoslovaco e iídiche. Muitos querem ir para Inglaterra, para continuarem a lutar, muitos eram membros das legiões checoslovaca e polaca em França. Lisboa é, nesta primavera de 1941, um centro de intriga, a neutralidade portuguesa inclina-se para o lado inglês, mas os nazis lançaram uma rede de espionagem sobre todo o país, principalmente os transportes para Inglaterra têm que ser feitos na calada da noite e a frota inglesa navega a toda a velocidade frente à costa. Mas mesmo em terra, os nazis não deixam de levar a cabo raptos ocasionais. Somos aconselhados a ter cuidado, há rumores de sequestros, que tinham aliás plena justificação, como mais tarde se provou. À noite nunca andamos sozinhos, sempre em pequenos grupos.
«Extra! Extra!», gritam os ardinas, e os títulos portugueses mostram em grandes letras o nome de Rudolf Heβ. Alvoroçado, vou soletrando à mesa do café, com ajuda de um pequeno dicionário, a grande sensação: o substituto do Führer voou para Inglaterra [10 de maio de 1941]. Isto dá assunto de conversa no café que depressa se tornou ponto de encontro da emigração. Aparecem caras do velho «Romanischer Café» de Berlim; pessoas com quem nos sentávamos no «Café du Dôme», em Paris, companheiros de destino cujo conhecimento provém dos cafés da [Avenida La] Canebière de Marselha. Nesta viagem pelo mundo, os cafés são, mesmo que contra vontade, verdadeiros ímanes, que atraem os apátridas e preservam de um isolamento total as pessoas sós. Encontro alguns camaradas da companhia de trabalho de Langlade, reconheço caras do campo de emigrantes «Les Milles»; pessoas com quem passámos horas à frente dos consulados e em bancos de espera em organizações de auxílio humanitário. Reencontro alegre com amigos há muito desaparecidos. O meu antigo redator-chefe, Georg Bernhard, fica tão contente por nos reencontrar entre os vivos que oferece à Traute duas notas de dólar, verdes.
Somos vacinados, conseguimos bilhetes para a viagem rumo à América, no Ciudad de Sevilla. Uma vez que não se arranjavam barcos de passageiros para os EUA e a aviação comercial de passageiros se generalizaria apenas num futuro distante, as organizações de auxílio humanitário tinham, elas mesmo, fretado um navio espanhol, para despachar 700 pessoas de uma assentada.
[Chegou] o grande dia: embarque para a América. No cais, está um barco bastante pequeno, as cores da bandeira espanhola, vermelho – amarelo – vermelho, pintadas nas laterais do navio. Em tempos de paz, o Ciudad de Sevilla fora um barco de turistas da rota das Baleares. Tinha uma dúzia de cabines, que ficavam reservadas para os extremamente ricos, que podiam pagar a própria viagem em primeira classe. Para nós, os porões de carga tinham sido transformados em dormitórios.
Com os nossos últimos escudos comprámos cadeiras de convés no cais, vamos precisar muito delas na nossa cruzada de três semanas até ao Novo Mundo. Juntamente com o certificado de vacinas, o HIAS deu-nos uma nota de cinco dólares como dinheiro de bolso para a viagem. Subimos a ponte até ao navio; examinam e carimbam os nossos papéis – depois somos recebidos por dois senhores vestidos à civil: «Serviço de controle sanitário, por favor cinco dólares para vacinas!» Nós protestamos, já tínhamos sido vacinados, aqui está a declaração oficial! Os senhores abanam a cabeça: «Cinco dólares para controle sanitário, ou não entram no barco!» Setecentos passageiros entregam as suas preciosas notas de cinco dólares aos dois homens, que nem olham para o nosso boletim de vacinas, nem fazem qualquer tentativa de nos vacinar ou de proceder a qualquer outro controle sanitário – nem carimbo nem qualquer fatura. 700 x 5 – são 3 500 dólares. Depois de todos os passageiros estarem a bordo, os dois homens desaparecem – e só então se descobre que os cavalheiros eram meros vigaristas que tinham descoberto em algum lado que todos os passageiros tinham 5 dólares no bolso e os haviam extorquido setecentas vezes – foi para eles a mais simples forma de lucros de guerra. 700 imprecações em muitas línguas diferentes não ajudaram muito – o nosso dinheiro de bolso tinha desaparecido, e com ele as pequenas mordomias a bordo, como vinho espanhol e cigarros americanos.
A sirene do navio apita, o Ciudad de Sevilla deslisa Tejo abaixo. […]

(Trad. Teresa Martins de Oliveira)
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Do/a autor/a sobre o exílio