Scheer, Maximilian

Data de nascimento: 22 de abril 1896
Local de nascimento: Império Alemão (Haan)
Data de morte: 03 de fevereiro 1978
Local de morte: RDA (Berlim Leste)
Nacionalidade: alemã
Profissão:
Artes, Letras e Ciências:
Maximilian Scheer

 

Exílio

Data de partida: março 1933
Motivo(s):
Passagem por: França (Paris, Vierson, Bagny, Nantes, Marselha); Espanha (Portbou, Barcelona, Madrid); Portugal
Encontro com outros artistas/intelectuais:

 

Chegada a Portugal

Data de chegada: 18 de setembro 1940
Acompanhado por: mulher e filho

 

Permanência em Portugal

Tempo de permanência: um mês

 

Partida de Portugal

Data de partida: outubro 1940
Meio de transporte: navio (Serpa Pinto)
Destino: EUA (Nova Iorque)

 

Fim do exílio

Data de regresso: 1947
Local de regresso: RDA (Berlim Leste)
Sobre o exílio

Maximilian Scheer, pseudónimo de Walter Schlieper, nascido no estado da Renânia do Norte-Vestfália no seio de uma família pequeno-burguesa, teve formação na área comercial. Após uma breve participação na Grande Guerra, desempenhou funções de chefia em empresas metalúrgicas de Colónia e frequentou aulas de História da Literatura,de Etnografia e de Estudos de Teatro na Universidade dessa cidade. Antes de emigrar para a França (março de 1933), foi ainda cofundador e membro da direção do círculo literário Oktobergruppe, ao mesmo tempo que colaborava como crítico teatral e literário em diversos jornais (p.ex., Berliner Börsen-Courier).

Exilado em Paris, passou a cooperar com a resistência antinazi e com jornais franceses, assim como alemães do exílio (p.ex., Neue Weltbühne), publicando também anonimamente, com o apoio de dois outros refugiados, o resultado de uma encomenda da editora Editions du Carrefour. Trata-se de Das deutsche Volk klagt an – Hitlers Krieg gegen die Friedenskämpfer in Deutschland (1936) [O povo alemão acusa – a guerra de Hitler contra os pacifistas na Alemanha], uma cuidadosa compilação de factos que desmascaram a tirania da Alemanha nazi desde a tomada do poder por Hitler até 1936. Três anos depois, na sequência da invasão da França pelas tropas nacional-socialistas, M.S. foi preso pelas autoridades francesas, em setembro de 1939, percorreu diversos campos de internamento (Vierson, Bagny, Nantes) até que, em julho de 1940, conseguiu abandonar a França na companhia da mulher e do filho.

Com a documentação imprescindível para chegar a Portugal adquirida em Marselha, a família segue a «F-Route» ou «Route Lister», a principal rota de milhares de refugiados que pretendiam chegar aos EUA: atravessa os Pirenéus junto ao Mediterrâneo chegando a Portbou e prossegue de comboio para Lisboa, via Barcelona, Madrid e Vilar Formoso (Madeira 2018: 156).

Passados os sete anos de exílio em Nova Iorque (1940-1947), durante os quais cooperou, p.ex., com Overseas News Agency e com Council for a Democratic Germany, M.S. regressa a Berlim Leste, onde a sua atividade cultural, politicamente empenhada, se desdobra em diversos campos e lhe valerá vários prémios e condecorações da República Democrática Alemã. Foi, p.ex., redator-chefe da revista Ost und West, editada por Alfred Kantorowicz. Nos anos 50 e 60 empreende grandes viagens – mundo árabe, Índia, África oriental, União Soviética, Cuba, Mongólia – que encontrarão eco quer na sua escrita, quer na sua atividade política.

De entre a sua vasta produção literária, que engloba ficção narrativa, peças radiofónicas e dramáticas, reportagens, ensaios, literatura de viagem, saliente-se a obra de caráter diarístico e memorialista que é Begegnungen in Europa und Amerika (1949) [Encontros na Europa e na América], publicada na RDA, na qual se encontra o principal testemunho da passagem do autor por Portugal. Tal como alguns outros refugiados que passaram pelo nosso país, o olhar de M.S. sobre Lisboa reveste-se de uma notória ambivalência. Se, por um lado, transmite uma imagem eufórica da cidade, seduzido pela sua paz e luminosidade, por outro denuncia criticamente a miséria social e a opressão impostas à população pelo regime de Salazar.

Barth, Bernd-Rainer (2010), «Maximilian Scheer», in Helmut Müller-Engbergs et al. (eds.), Wer war wer in der DDR? Ein Lexikon ostdeutscher Biographien, vol.2, 5, Berlin. Ch. Links Verlag

Madeira, Rogério (2018), «Impressões do Estado Novo: a imagem de Portugal na obra Begegnungen in Europa und Amerika de Maximilian Scheer», in Teresa Martins de Oliveira/Maria Antónia Gaspar Teixeira (eds.), De passagem: artistas de língua alemã no exílio português, Porto, Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa/Edições Afrontamento: 155-164 [BEA].

https:// www.deutschlandfunkkultur.de/enfesselte-mörderbande.1270.de.html?dram:article_id=216452 [acesso 11.03.2021]

Obras do/a autor/a sobre o exílio

Scheer, Maximilian (1949), Begegnungen in Europa und Amerika

Scheer, Maximilian (1975), Ein unruhiges Leben

 

Obras do/a autor/a com referências a Portugal

Scheer, Maximilian (1949), Begegnungen in Europa und Amerika

Bibliografia crítica sobre o exílio português

Madeira, Rogério (2018), «Impressões do Estado Novo: a imagem de Portugal na obra Begegnungen in Europa und Amerika» in Teresa Martins de Oliveira/Maria Antónia Gaspar Teixeira (eds.), De passagem: artistas de língua alemã no exílio português, Porto, Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa/Edições Afrontamento: 155-164.

 

Do/a autor/a sobre o exílio

– «À nossa frente encontra-se a praça D. Pedro IV, conhecida como Rossio, ao pôr-do-sol. Para lá da praça, sobre uma das colinas, ergue-se uma parte daquela cidade branca. Passam portuguesas como se gozassem a liberdade como um fruto proibido. Há homens a tagarelar na beira dos passeios, outros sentados nos cafés. Oficiais passeiam-se como se tivessem saído da opereta “A viúva alegre” de Maurice Chevalier. Diante de dois edifícios junta-se uma multidão para ler as últimas notícias. Na rua ladram buzinas de automóveis; a sua barulheira infernal é trespassada pela gritaria imparável de inúmeros ardinas. Miúdos com idades entre os seis e os quinze anos grasnam numa vertigem incessante os nomes de dois vespertinos. A maioria dos rapazes anda descalça, traz vestido um farrapo sujo a fazer de camisa e umas calças puídas ou rasgadas. À minha frente está em acção um rapazinho de oito anos, cabelo preto e oleoso, que traz vestidas duas calcitas, uma por cima da outra. Onde a de cima tem um buraco, a outra está inteira. Mas o rapazinho baixa-se, as calças deslizam e o rabito fica a brilhar através de dois buracos

Há paz em Portugal!»

 

– «Por trás do Rossio luminoso ergue-se uma colina de pobreza com becos estreitos e sombrios. Num pequeno café reúnem-se escritores que recusaram fazer as pazes com a ditadura, não podem publicar mais nada e trabalham como empregados de escritório. Na pensão que nos acolhe, dia sim dia não aparecem jovens cheios de força, os quais, com a ajuda de um inspector da polícia, são exportados para o Brasil como operários, para que na sua pátria não possam erguer os braços pela liberdade. A criada de quarto, que nos conta que nos últimos três meses chegaram e partiram setenta colegas suas porque não ganhavam o suficiente, responde à pergunta, onde ficaria Portugal: “Em Lisboa”, e à pergunta, onde ficaria Lisboa: “Em África”. Um músico avisa-me que em cada quatro portugueses sentados a uma mesa, se encontra pelo menos um que está ao serviço da polícia política».

 

-«À nossa direita, ao longe, brilham as casas brancas de Lisboa como se tivessem sido espalhados diamantes sobre algumas das sete colinas. “Nem posso acreditar”, digo eu, “que ainda há beleza e paz, depois de ter vivido a guerra, a decadência e o pesadelo do cessar-fogo em França”».

(trad. Rogério Monteiro (2018), BEA: 159, 162-163, e 160)