Chegada a Portugal
Permanência em Portugal
Partida de Portugal
Fim do exílio
Eva Lewinski (1910-1991) que se destacará como resistente antinazi, nasceu em 1910, em Goldach, na Prússia Oriental, para onde a sua família, originária da Polónia, havia fugido devido às perseguições aos judeus. Era a primeira dos 4 filhos de um segundo casamento do pai, um respeitado judeu liberal dono de uma loja de tecidos. Depois de um período de integração aparente, a ameaça da chegada dos russos durante a 1.ª Guerra Mundial leva à detenção de todos os homens judeus, o que constitui um duro golpe para a família.
A morte prematura do pai pouco depois, quando Eva não tinha ainda oito anos, inicia uma época de grandes privações, que não impedem a boa educação escolar dos filhos. A título excecional, Eva frequenta o liceu masculino, garantindo assim a possibilidade de continuar estudos superiores. Aos 16 anos, com o apoio do meio-irmão mais velho, entretanto advogado, Eva consolida os conhecimentos de francês durante um ano de permanência em França. Por influência do irmão, junta-se, em 1927, ao Internationaler Sozialistischer Kampfbund (ISK), um grupo dissidente do SPD, fundado pelo filósofo e matemático Leonard Nelson, que pugnava por um socialismo de matriz ética e não marxista. Durante três anos, Eva frequenta a escola de Walkemühle, um instituto de formação superior extremamente exigente, fundado no espírito do ISK, onde os alunos se debruçavam sobre as grandes questões humanas a partir de uma atitude racional e de um diálogo socrático, moldando o caráter no sentido de uma rigorosa superação de si mesmos e considerando o ativismo político uma obrigação moral. As muito difíceis condições ali impostas levam Eva a um colapso físico e psicológico do qual apenas gradualmente recupera, retomando o empenhamento político.
Em 1933, após a subida de Hitler ao poder, Eva é perseguida pela Gestapo, e parte para Paris, por conselho dos companheiros do ISK. Com o passaporte entretanto apreendido pela polícia política, é através de um estratagema arriscado que Eva leva a cabo a sua primeira fuga, através do Sarre. Em Paris, junta-se-lhe o irmão Erich e a família deste, entretanto fugidos pela Suíça, e juntos fundam um restaurante vegetariano, que se torna um centro da resistência e do ISK em solo francês.
Depois de anos de dolorosa solidão emocional após a rutura com o namorado alemão, Eva conhece em 1935 Otto Pfister, um carpinteiro bávaro e católico que adere ao movimento do ISK, em quem encontra um verdadeiro companheiro de alma. Relativamente aos judeus e à fé judaica, Eva, que declarara aos treze anos sentir-se afastada de qualquer religião, entende a crescente perseguição de que são vítimas como razão de identificação com a sua sorte, interrogando-se sobre a origem desta empatia (identidade de raça, de cultura ou de história?) (Pfister 12), reflexões que integram o diário que inicia logo a partir dos 15 anos e escreve ao longo de quase toda a vida. Mais tarde compilado e publicado pelos filhos, tais apontamentos diarísticos constituem um valioso testemunho sobre o destino singular de Eva, que em muitos momentos foi também comum ao de outros perseguidos e refugiados.
Em maio de 1940, com a invasão da França pelos alemães, Eva é considerada «estrangeira inimiga» e internada primeiro no Velodrome d’ Hiver, em Paris, e depois transferida para o campo de Gurs no sul de França. Otto Pfister fora, por sua vez, preso alguns meses antes. Quando pouco depois, em junho do mesmo ano, consegue ser libertada, dirige-se para Montauban e depois para Marselha, em busca de um visto que lhe permitisse emigrar para os EUA. A sua conhecida militância contra o regime nacional-socialista torna-a especialmente vulnerável e permite-lhe conseguir rapidamente os documentos necessários à fuga.
A 19 de setembro, Eva chega a Banyuls, na fronteira franco-espanhola, com três amigos – o poeta social-democrata austríaco Josef Luitpold Stern, Hans Jahn, membro do ISK, e Irma – e, tal como em Montauban, é ajudada pelo presidente da câmara local. Dois dias depois, partem de madrugada, com trabalhadores das vinhas como guias, pelo trilho da montanha que liga Banyuls a Portbou, tradicionalmente utilizado pelos contrabandistas e que se tornou na lendária rota F. Largados no cimo da montanha, sem saberem em que direção continuar, é o silvo de um comboio que os ajuda a orientarem-se. Nessa mesma noite, chegam a Portbou, no sopé dos Pirenéus, onde o encontro com as autoridades fronteiriças decorre de forma cordata, o que muitas vezes não acontecia. Segue-se a travessia de Espanha ainda marcada pelas ruínas e pela miséria da Guerra Civil, por Barcelona e Madrid, assombrada por complicações como o extravio de bagagens e dificuldades com instalações. A chegada à fronteira portuguesa é sentida como uma libertação, mas a alegria do encontro com amigos em Lisboa e o ambiente pacífico não desvanecem a angústia da cesura física e emocional que Eva adivinha plasmada na vastidão do oceano, antecipando a solidão americana.
Eva passa seis dias em Lisboa, em contacto com as vicissitudes comuns aos refugiados em busca de um lugar num navio, aproveitando para conhecer a cidade, cujos contrastes sociais a chocam e em cujas vegetação desmedida e condições de vida peculiares percebe que se encontra no limiar da Europa. Pouco depois, em cartas escritas a bordo tendo Otto Pfister como destinatário, Eva descreve com algum pormenor os contornos das diligências empreendidas em Lisboa para conseguir o bilhete, o desânimo quando se vê impedida de seguir viagem e a inesperada autorização de partida (vd. infra, «Do autor sobre o exílio»). Parte para Nova York em 3 de outubro 1940 e chega ao seu destino dez dias depois.
Em Nova York, Eva Lewinski apressa-se a contactar companheiros de luta e retoma o empenhamento em prol dos perseguidos pelo regime nazi, nomeadamente através da obtenção de vistos de passagem para os EUA. É conhecido o seu trabalho com o Emergency Rescue Committee (ERC), os seus encontros com Eleanora Roosevelt e o seu êxito em conseguir vistos para alguns fugitivos em maior risco, bem como o seu trabalho nos escritórios do OSS – Office of Strategic Services, dedicado à obtenção de informações secretas sobre a atuação de forças inimigas. Entre aqueles por quem se empenha encontrava-se Otto Pfister, seu companheiro, que ficara na Europa, durante algum tempo prisioneiro dos alemães. Otto chegará a Nova York em abril de 1941 e casam no ano seguinte, continuando os dois fortemente empenhados na resistência contra Hitler. Um ano volvido, depois da morte à nascença da primeira filha do casal, Otto regressa à Europa numa delicada e muito perigosa missão do ISK, enquanto Eva permanece nos EUA sozinha, tentando recompor-se e de novo dedicada ao seu trabalho em prol dos refugiados e perseguidos.
Terminada a guerra, e depois de obter a cidadania americana, o casal permanece nos EUA. Nos anos que se seguem, Eva dedica-se aos três filhos pequenos, para anos depois, com eles já mais crescidos, ingressar na universidade, onde estuda línguas estrangeiras, o que lhe abre as portas da docência numa escola secundária, profissão que desempenhará até à aposentação. Regressa à Alemanha apenas muito esporadicamente, para visitar a família.
Lewinski-Pfister, «Lisbon Diary – 1940-1941», United States Holocaust Memorial Museum, Collections Search – United States Holocaust Memorial Museum.
Pfister, Tom et alii (2020), Eva & Otto. Resistance, Refugees, and Love in the Time of Hitler, West Lafayette, Indiana, Purdue University Press.
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Tom Pfister et al. (2019), Eva and Otto: Resistence, Refugees and Love in the time of Hitler, Purdue University Press Book Previews. 40
T. Pfister et al. [2013], Eva Lewinski at Camp de Gurs: Her Diary and our Journey
Lewinski-Pfister, «Lisbon Diary – 1940-1941», United States Holocaust Memorial Museum, Collections Search – United States Holocaust Memorial Museum.
Eva Lewinski, «Lissaboner Tagebuch»
Lisboa, Samedi, 28.9.40
Dia 11, quarta-feira, à noitinha, partida de Mont[auban].
[…].
[…], mas capitalistas «sociais» do tipo de [Josef Luitpold] St[ern] são-me bastante incompreensíveis. Última explosão pouco antes de chegar a Lisboa (sic), sobre os procedimentos para arranjar hotel. Depois, amigos na estação, tudo se resolve, o quarto sem janelas é esquecido. É bom ver muitos amigos: Lene [membro do ISK, companheira de Eva em Paris], Marianne [companheira de Eva em Gurs], Oskar [social-democrata austríaco]. Grande tristeza, com gradual acalmia. Partida talvez daqui a quatro dias. Hoje, sábado ao fim da tarde, sozinha por meia hora com St[ern] e uma hora completamente só. A Irma ainda deve ter encontrado amigos. Gostaria de estar mais sozinha, para me ir habituando. A vida vai ser muito difícil nesta grande solidão, mas vou tentar.
Barco, segunda-feira, 7.10.40
Não consigo livrar-me da estranheza da vida. Estou deitada numa espreguiçadeira; por cima de mim, o céu cinzento, no qual o sol procura espreitar, à minha frente, água; à minha volta, água; a toda a volta, um cinzento que não acaba mais, uma superfície quase imóvel. …
[…]
Os dias em Lisboa foram tão estranhos. De repente, do nada, podermo-nos movimentar livremente, passar por polícias sem papéis, e sem que isso nos preocupasse. Poder estar sentados no café, poder falar na língua que nos apetecesse, sem qualquer impedimento; iluminação radiosa em todas as ruas pela noite dentro, abundância de [mercadorias] expostas nas lojas, jornais em todas as línguas, de todas as orientações, livros, livros. – Quando se está no porto, na foz do rio, na enorme praça, um pouco estranha, em cujo centro um rei qualquer como que cavalga pela água dentro; quando estamos sentados no Jardim Botânico, debaixo das árvores enormes, de dimensão sobre-humana – o que tem aquele salgueiro enorme a ver com as árvores suaves que ladeavam o rio em Compiègne? as palmeiras gigantes que se parecem com bushimanes, os grandes catos selvagens? – então, percebemos que estamos na dianteira da Europa, que na verdade já a deixámos.
Ao lado da riqueza das ruas principais, depois, a Alfama, afastada nem 10 minutos, com a sua miséria indescritível, lixo e horror. Que haja crianças que nascem ali, pequenos vermes comidos pela peste, com pernas como palitos, sem um bocadinho de carne, envolvidos nuns poucos andrajos, que quase não oferecem qualquer proteção contra o frio ou o calor; que haja seres humanos que ali envelheçam, em buracos escuros, em que nunca entra um raio de sol, com feridas abertas e corpos inchados e cobertos de sujidade, que tudo isso possa existir hoje em dia – nunca se conseguirá esquecer. E quantos seres humanos lindos, com luz nos olhos, com uma quase inconsciente mas inconfundível fome de um outro mundo! O rapazinho, como que recortado de um quadro de Murilo, com um cântaro de água pesado demais, não há nele qualquer desconfiança; quando olhei para ele, respondeu com um riso simpático, responde com alegria, confiança e calor humano ao calor humano. Apetecia-me trazê-lo comigo, connosco. Primeiro metê-lo na banheira, depois vesti-lo decentemente, sentá-lo a uma mesa limpa, e então, depois de ele ter comido até ficar satisfeito, ia contigo para uma oficina, onde houvesse muitas outras crianças e aprenderia a trabalhar com o martelo e a plaina e seria um ser humano como tu, que te afirmas pelo trabalho e nele encontras sempre a tua confirmação. Ou a mulher já não muito nova que nos mostrou o caminho e com uma firmeza simpática foi repetindo o nome da rua até que o pronunciássemos corretamente. Eram essas pessoas que caberiam também na nossa casa; mas principalmente tu.
Mas deixemos estas fantasias. Primeiro tenho que voltar a ter-te, antes de podermos começar a fazer planos de vida. Além disso, isto são casos isolados. Aquela zona é a única que não ficou destruída no grande terramoto. Sem um terramoto social, estes quarteirões nunca desaparecerão.
Terça-feira, 8.10.40
O vento começa a soprar violentamente. As ondas ainda não são muito grandes, mas têm coroas de espuma e esta noite houve grandes bátegas de água a fustigar com violência a escotilha do camarote.
Queria falar-te da forma como cheguei aqui ao barco e de como o consegui [fazer]. À chegada a Lisboa, a 27, foi-nos logo dito que tínhamos sorte, que o «Nea Hellas», que estava previsto fazer-se ao mar dia 28, ia partir com atraso por volta do dia 3, e nós todos poderíamos, todos, seguir viagem. Na manhã seguinte, as formalidades respetivas, eu com o procurador alemão, os outros junto dos [?]; entrega de passaportes, assinaturas, etc. É certo que me disseram que o HICEM ainda ia telegrafar para a América para terem a certeza de que os custos da viagem estavam cobertos, mas era com certeza apenas um proforma. De resto, não teríamos de tratar com nenhuma organização, isso até seria indesejável, os procuradores respetivos resolviam tudo para todos. – Assim, senti-me livre e até aliviada por não ter de percorrer certos caminhos.
Tu conheces-me e sabes que no fundo tenho sempre medo de entrar em contacto com pessoas desconhecidas, de me sentir em situações novas, que me não são familiares – tal como tenho sempre medo de entrar na água. Principalmente quando tu não estás por perto. Mas logo que estou lá dentro, até nem nado mal, na água, tal como com as pessoas novas. – Então, visitei Lisboa calmamente, escrevi cartas e não entrei em contacto com nenhuma organização, com o sentimento nada desagradável que se tem quando obrigação e vontade excecionalmente coincidem.
Um belo dia, disseram que não havia a certeza de partirmos, mas, ao mesmo tempo, atribuíram–nos números de cabines. E então, de repente, na terça-feira à noitinha, quando os outros receberam os bilhetes do navio, disseram-nos que nos tinham riscado definitivamente, porque não chegara qualquer resposta da A[mérica]. Só naquele momento é que se me tornou claro que tinha sido apanhada num erro ao partir do princípio de que o Hic[em] ou a sua congénere am[ericana] pagaria a viagem; na verdade temos que a custear nós próprios e o Hic[em] só adianta o dinheiro. Se eu soubesse disso à chegada, teria naturalmente feito de imediato as démarches necessárias junto dos nossos amigos americanos. Assim, na véspera da partida, era tarde demais para qualquer ação para lá de Lisboa. Por isso já não conto com que a coisa se consiga resolver, mas não quero desistir sem lutar – até porque eu empreendi toda esta ação da viagem apenas para do lado de lá poder fazer alguma coisa pelos outros e não para contemplar as belezas de Lisboa e da sua Biblioteca Nacional – e decido ir no dia seguinte de manhã ao Hicem, expor-lhes o meu caso, garantir o pagamento do outro lado e pedir ao Oskar que aceitasse que o seu grupo desse uma garantia formal para mim.
O Oskar mostra-se muito camarada e simpático, acompanha-me ao Hic[em]. Lá descubro que a secretária principal, de quem depende uma grande parte da decisão, esteve em nossa casa com a Ellen Hölrup.
Que pena, só agora ter percebido! Há três dias, uma curta conversa com a rapariga e ela ter-me–ia ajudado com certeza a arranjar as coisas. Mas agora é tudo tarde demais. As listas estão fechadas, definitivamente, nós fomos riscados, porque não veio nenhuma resposta da América. À pergunta «porque não dar uma palavra às pessoas a serem riscadas antes de o fazerem», inquirindo se eles próprios não poderiam resolver alguma coisa em prol da sua situação, a resposta foi: «Por favor, nós tratamos com organizações, não com pessoas! Pessoas não nos interessam». Apercebo-me de que não faz sentido continuar a insistir e vou embora, não sem dirigir a mim própria fortes censuras por não ter quebrado a tempo a malfadada disciplina organizacional, o que, neste caso, também veio ao encontro da minha tendência, e ter tomado em mãos a minha, ou a nossa questão.
Agora a questão estava encerrada e eu comecei a tomar disposições para a nova situação: telegrafar para a América a pedir dinheiro; desistir da pensão, limitar os meus gastos, mudar para casa da irmã da Lise, entregar ao St[ern] incumbências e pedidos dirigidos aos amigos do outro lado, para que pelo menos não fique tudo parado porque eu não pude viajar. É estranho: embora me custe tanto deixar a Europa, porque em certa medida essa partida dificulta muito o reencontro contigo, não quero ficar em Lisboa, não estou de maneira nenhuma satisfeita com o rumo que as coisas levaram. À tarde, há um novo encontro com os [?] amigos, às 4h30, no café. Todos estão verdadeiramente aborrecidos com o facto de eu ter de ficar. Às 4h45 chega o Oskar, precisa muito de falar comigo. Tinha tentado de novo o impossível junto do Hi[cem] e, contra todas as espectativas, tinha conseguido o seguinte: Se até às 5h eu conseguisse entregar no Hicem o montante para o bilhete do barco – 175 $ – , o tesoureiro ia comigo às Greek Lines e faria o que pudesse para eu conseguir partir. Mas onde ir buscar 175 $ em 10 minutos? «Talvez alguém tos possa emprestar», disse Oskar. «Podes mandar um telegrama ainda hoje à noite, para que o dinheiro emprestado seja enviado por telégrafo para aqui?». «Posso». «Então está bem, um momento». Fala com a Katia, sai, em menos de 5 minutos está de volta, com 200 $ na mão, do Fritz [Adler, Professor universitário em Zurique, depois presidente do Partido Social-democrata austríaco], com quem se cruzou por acaso. De táxi para o Hicem, falar com o tesoureiro, que não se mostrou muito simpático, mas se declarou de acordo em ir connosco. De alguma forma, ele parece-me conhecido, por um momento penso que ele é o Erich Gr., este é mais magro, mais moreno, diferente. Mas a linha do cabelo, a voz, a cabeça – incrível.
Na rua, estamos à procura de um táxi, pergunto-lhe, só para fazer conversa e na verdade sem grande convicção, se ele por acaso seria irmão do Erich. É, na verdade, e, à medida que percebe que conheço bem o Erich, passa a interessar-se pelo meu caso de uma forma completamente diferente, quase pessoal. Empenha-se imenso junto do diretor da Greek Line, como se fosse um assunto dele próprio, dez minutos de espectativa enquanto ele fala com o diretor, depois regressa, e nós ouvimos ainda as últimas palavras do diretor: “You can´t ask the impossible from me” e eu percebo que realmente está tudo acabado, porque é tarde demais. Nas últimas 24 horas nada foi descurado, tinha sido feito por muitos mais do que o mínimo necessário, agora o assunto tinha que ser definitivamente encerrado. No dia seguinte, por volta do meio dia, um par de horas no Jardim Botânico, uma despedida calma do St[ern].
Depois levá-los ao navio, verem-se muitos, muitos amigos, uma despedida triste. De regresso, um bocado com a Marianne, que cada vez me é mais querida. Depois embora, para casa da irmã da Lise. Sinto-me vazia e espremida, leio um bocado, começo a escrever cartas, comemos, quando ela chega a casa, ouvimos radio. Estou tão cansada que já não consigo fazer nada e deito–me muito cedo. As quatro semanas em Lisboa erguem-se à minha frente como uma montanha intransponível. Durmo profundamente. No dia seguinte, tenho o plano do dia feito: escrever, voltar a ir ao navio, Hi[cem], estudar inglês. Começo a escrever. O telefone toca. Chamam por mim. A esperança, que não quero confessar a mim própria, já tinha acordado quando o telefone tocou. Agora estremece um pouco mais conscientemente. Do outro lado está a Marianne. «Eva, senta-te. Tu podes partir. Às 11h com bagagem no Hi[em]». E começa uma correria, para lá e para cá, que termina com o facto de que às 8h da noite estou realmente no barco. Explicação sumária: de manhã tinha chegado o telegrama esperado, sem o meu nome. Como o Gr. e a secretária agora sabiam quem eu era, e além disso o Oskar intercedeu por mim, fui incluída nas démarches do Hic[em] para que nós os seis pudéssemos viajar. Razão para estes repentinos esforços generalizados: O Hic[em] tinha percebido que uma permanência de um mês de nós os seis em Lisboa ia custar imenso dinheiro que ninguém lhes ia pagar depois, ao passo que a nossa viagem não tinha qualquer risco financeiro para eles. Mas os senhores da Greek Lines já não nos queriam aceitar. Perante isto, o Hic[em], através de uma das pessoas deles bem colocadas, mobilizou a polícia, que deu a entender à Greek Line que iam ser obrigados a negar-nos aos seis a estadia em Lisboa, pelo que a Greek Line – nas mãos de estrangeiros – iria ser responsabilizada, porque, de uma perspetiva material, nós podíamos ir. Perante este último argumento, a Greek Line viu-se obrigada a ceder. Assim, pela primeira vez na minha vida, à partida da Europa, a Polícia tinha intercedido a nosso favor.
Quarta-feira, 9.10.40
Começo a pensar no futuro. Ontem li jornais ingleses e suíços e senti-me mais ligada do que antes aos acontecimentos mundiais […]
Eva Lewinski, «Lissaboner Tagebuch», File 6 Lisbon Diary Collections Search – United States Holocaust Memorial Museum
[Trad. Teresa Martins de Oliveira]
Eva Lewinski, «Lissaboner Tagebuch»
Lisboa, Samedi, 28.9.40
Dia 11, quarta-feira, à noitinha, partida de Mont[auban].
[…].
[…], mas capitalistas «sociais» do tipo de [Josef Luitpold] St[ern] são-me bastante incompreensíveis. Última explosão pouco antes de chegar a Lisboa (sic), sobre os procedimentos para arranjar hotel. Depois, amigos na estação, tudo se resolve, o quarto sem janelas é esquecido. É bom ver muitos amigos: Lene [membro do ISK, companheira de Eva em Paris], Marianne [companheira de Eva em Gurs], Oskar [social-democrata austríaco]. Grande tristeza, com gradual acalmia. Partida talvez daqui a quatro dias. Hoje, sábado ao fim da tarde, sozinha por meia hora com St[ern] e uma hora completamente só. A Irma ainda deve ter encontrado amigos. Gostaria de estar mais sozinha, para me ir habituando. A vida vai ser muito difícil nesta grande solidão, mas vou tentar.
Barco, segunda-feira, 7.10.40
Não consigo livrar-me da estranheza da vida. Estou deitada numa espreguiçadeira; por cima de mim, o céu cinzento, no qual o sol procura espreitar, à minha frente, água; à minha volta, água; a toda a volta, um cinzento que não acaba mais, uma superfície quase imóvel. …
[…]
Os dias em Lisboa foram tão estranhos. De repente, do nada, podermo-nos movimentar livremente, passar por polícias sem papéis, e sem que isso nos preocupasse. Poder estar sentados no café, poder falar na língua que nos apetecesse, sem qualquer impedimento; iluminação radiosa em todas as ruas pela noite dentro, abundância de [mercadorias] expostas nas lojas, jornais em todas as línguas, de todas as orientações, livros, livros. – Quando se está no porto, na foz do rio, na enorme praça, um pouco estranha, em cujo centro um rei qualquer como que cavalga pela água dentro; quando estamos sentados no Jardim Botânico, debaixo das árvores enormes, de dimensão sobre-humana – o que tem aquele salgueiro enorme a ver com as árvores suaves que ladeavam o rio em Compiègne? as palmeiras gigantes que se parecem com bushimanes, os grandes catos selvagens? – então, percebemos que estamos na dianteira da Europa, que na verdade já a deixámos.
Ao lado da riqueza das ruas principais, depois, a Alfama, afastada nem 10 minutos, com a sua miséria indescritível, lixo e horror. Que haja crianças que nascem ali, pequenos vermes comidos pela peste, com pernas como palitos, sem um bocadinho de carne, envolvidos nuns poucos andrajos, que quase não oferecem qualquer proteção contra o frio ou o calor; que haja seres humanos que ali envelheçam, em buracos escuros, em que nunca entra um raio de sol, com feridas abertas e corpos inchados e cobertos de sujidade, que tudo isso possa existir hoje em dia – nunca se conseguirá esquecer. E quantos seres humanos lindos, com luz nos olhos, com uma quase inconsciente mas inconfundível fome de um outro mundo! O rapazinho, como que recortado de um quadro de Murilo, com um cântaro de água pesado demais, não há nele qualquer desconfiança; quando olhei para ele, respondeu com um riso simpático, responde com alegria, confiança e calor humano ao calor humano. Apetecia-me trazê-lo comigo, connosco. Primeiro metê-lo na banheira, depois vesti-lo decentemente, sentá-lo a uma mesa limpa, e então, depois de ele ter comido até ficar satisfeito, ia contigo para uma oficina, onde houvesse muitas outras crianças e aprenderia a trabalhar com o martelo e a plaina e seria um ser humano como tu, que te afirmas pelo trabalho e nele encontras sempre a tua confirmação. Ou a mulher já não muito nova que nos mostrou o caminho e com uma firmeza simpática foi repetindo o nome da rua até que o pronunciássemos corretamente. Eram essas pessoas que caberiam também na nossa casa; mas principalmente tu.
Mas deixemos estas fantasias. Primeiro tenho que voltar a ter-te, antes de podermos começar a fazer planos de vida. Além disso, isto são casos isolados. Aquela zona é a única que não ficou destruída no grande terramoto. Sem um terramoto social, estes quarteirões nunca desaparecerão.
Terça-feira, 8.10.40
O vento começa a soprar violentamente. As ondas ainda não são muito grandes, mas têm coroas de espuma e esta noite houve grandes bátegas de água a fustigar com violência a escotilha do camarote.
Queria falar-te da forma como cheguei aqui ao barco e de como o consegui [fazer]. À chegada a Lisboa, a 27, foi-nos logo dito que tínhamos sorte, que o «Nea Hellas», que estava previsto fazer-se ao mar dia 28, ia partir com atraso por volta do dia 3, e nós todos poderíamos, todos, seguir viagem. Na manhã seguinte, as formalidades respetivas, eu com o procurador alemão, os outros junto dos [?]; entrega de passaportes, assinaturas, etc. É certo que me disseram que o HICEM ainda ia telegrafar para a América para terem a certeza de que os custos da viagem estavam cobertos, mas era com certeza apenas um proforma. De resto, não teríamos de tratar com nenhuma organização, isso até seria indesejável, os procuradores respetivos resolviam tudo para todos. – Assim, senti-me livre e até aliviada por não ter de percorrer certos caminhos.
Tu conheces-me e sabes que no fundo tenho sempre medo de entrar em contacto com pessoas desconhecidas, de me sentir em situações novas, que me não são familiares – tal como tenho sempre medo de entrar na água. Principalmente quando tu não estás por perto. Mas logo que estou lá dentro, até nem nado mal, na água, tal como com as pessoas novas. – Então, visitei Lisboa calmamente, escrevi cartas e não entrei em contacto com nenhuma organização, com o sentimento nada desagradável que se tem quando obrigação e vontade excecionalmente coincidem.
Um belo dia, disseram que não havia a certeza de partirmos, mas, ao mesmo tempo, atribuíram–nos números de cabines. E então, de repente, na terça-feira à noitinha, quando os outros receberam os bilhetes do navio, disseram-nos que nos tinham riscado definitivamente, porque não chegara qualquer resposta da A[mérica]. Só naquele momento é que se me tornou claro que tinha sido apanhada num erro ao partir do princípio de que o Hic[em] ou a sua congénere am[ericana] pagaria a viagem; na verdade temos que a custear nós próprios e o Hic[em] só adianta o dinheiro. Se eu soubesse disso à chegada, teria naturalmente feito de imediato as démarches necessárias junto dos nossos amigos americanos. Assim, na véspera da partida, era tarde demais para qualquer ação para lá de Lisboa. Por isso já não conto com que a coisa se consiga resolver, mas não quero desistir sem lutar – até porque eu empreendi toda esta ação da viagem apenas para do lado de lá poder fazer alguma coisa pelos outros e não para contemplar as belezas de Lisboa e da sua Biblioteca Nacional – e decido ir no dia seguinte de manhã ao Hicem, expor-lhes o meu caso, garantir o pagamento do outro lado e pedir ao Oskar que aceitasse que o seu grupo desse uma garantia formal para mim.
O Oskar mostra-se muito camarada e simpático, acompanha-me ao Hic[em]. Lá descubro que a secretária principal, de quem depende uma grande parte da decisão, esteve em nossa casa com a Ellen Hölrup.
Que pena, só agora ter percebido! Há três dias, uma curta conversa com a rapariga e ela ter-me–ia ajudado com certeza a arranjar as coisas. Mas agora é tudo tarde demais. As listas estão fechadas, definitivamente, nós fomos riscados, porque não veio nenhuma resposta da América. À pergunta «porque não dar uma palavra às pessoas a serem riscadas antes de o fazerem», inquirindo se eles próprios não poderiam resolver alguma coisa em prol da sua situação, a resposta foi: «Por favor, nós tratamos com organizações, não com pessoas! Pessoas não nos interessam». Apercebo-me de que não faz sentido continuar a insistir e vou embora, não sem dirigir a mim própria fortes censuras por não ter quebrado a tempo a malfadada disciplina organizacional, o que, neste caso, também veio ao encontro da minha tendência, e ter tomado em mãos a minha, ou a nossa questão.
Agora a questão estava encerrada e eu comecei a tomar disposições para a nova situação: telegrafar para a América a pedir dinheiro; desistir da pensão, limitar os meus gastos, mudar para casa da irmã da Lise, entregar ao St[ern] incumbências e pedidos dirigidos aos amigos do outro lado, para que pelo menos não fique tudo parado porque eu não pude viajar. É estranho: embora me custe tanto deixar a Europa, porque em certa medida essa partida dificulta muito o reencontro contigo, não quero ficar em Lisboa, não estou de maneira nenhuma satisfeita com o rumo que as coisas levaram. À tarde, há um novo encontro com os [?] amigos, às 4h30, no café. Todos estão verdadeiramente aborrecidos com o facto de eu ter de ficar. Às 4h45 chega o Oskar, precisa muito de falar comigo. Tinha tentado de novo o impossível junto do Hi[cem] e, contra todas as espectativas, tinha conseguido o seguinte: Se até às 5h eu conseguisse entregar no Hicem o montante para o bilhete do barco – 175 $ – , o tesoureiro ia comigo às Greek Lines e faria o que pudesse para eu conseguir partir. Mas onde ir buscar 175 $ em 10 minutos? «Talvez alguém tos possa emprestar», disse Oskar. «Podes mandar um telegrama ainda hoje à noite, para que o dinheiro emprestado seja enviado por telégrafo para aqui?». «Posso». «Então está bem, um momento». Fala com a Katia, sai, em menos de 5 minutos está de volta, com 200 $ na mão, do Fritz [Adler, Professor universitário em Zurique, depois presidente do Partido Social-democrata austríaco], com quem se cruzou por acaso. De táxi para o Hicem, falar com o tesoureiro, que não se mostrou muito simpático, mas se declarou de acordo em ir connosco. De alguma forma, ele parece-me conhecido, por um momento penso que ele é o Erich Gr., este é mais magro, mais moreno, diferente. Mas a linha do cabelo, a voz, a cabeça – incrível.
Na rua, estamos à procura de um táxi, pergunto-lhe, só para fazer conversa e na verdade sem grande convicção, se ele por acaso seria irmão do Erich. É, na verdade, e, à medida que percebe que conheço bem o Erich, passa a interessar-se pelo meu caso de uma forma completamente diferente, quase pessoal. Empenha-se imenso junto do diretor da Greek Line, como se fosse um assunto dele próprio, dez minutos de espectativa enquanto ele fala com o diretor, depois regressa, e nós ouvimos ainda as últimas palavras do diretor: “You can´t ask the impossible from me” e eu percebo que realmente está tudo acabado, porque é tarde demais. Nas últimas 24 horas nada foi descurado, tinha sido feito por muitos mais do que o mínimo necessário, agora o assunto tinha que ser definitivamente encerrado. No dia seguinte, por volta do meio dia, um par de horas no Jardim Botânico, uma despedida calma do St[ern].
Depois levá-los ao navio, verem-se muitos, muitos amigos, uma despedida triste. De regresso, um bocado com a Marianne, que cada vez me é mais querida. Depois embora, para casa da irmã da Lise. Sinto-me vazia e espremida, leio um bocado, começo a escrever cartas, comemos, quando ela chega a casa, ouvimos radio. Estou tão cansada que já não consigo fazer nada e deito–me muito cedo. As quatro semanas em Lisboa erguem-se à minha frente como uma montanha intransponível. Durmo profundamente. No dia seguinte, tenho o plano do dia feito: escrever, voltar a ir ao navio, Hi[cem], estudar inglês. Começo a escrever. O telefone toca. Chamam por mim. A esperança, que não quero confessar a mim própria, já tinha acordado quando o telefone tocou. Agora estremece um pouco mais conscientemente. Do outro lado está a Marianne. «Eva, senta-te. Tu podes partir. Às 11h com bagagem no Hi[em]». E começa uma correria, para lá e para cá, que termina com o facto de que às 8h da noite estou realmente no barco. Explicação sumária: de manhã tinha chegado o telegrama esperado, sem o meu nome. Como o Gr. e a secretária agora sabiam quem eu era, e além disso o Oskar intercedeu por mim, fui incluída nas démarches do Hic[em] para que nós os seis pudéssemos viajar. Razão para estes repentinos esforços generalizados: O Hic[em] tinha percebido que uma permanência de um mês de nós os seis em Lisboa ia custar imenso dinheiro que ninguém lhes ia pagar depois, ao passo que a nossa viagem não tinha qualquer risco financeiro para eles. Mas os senhores da Greek Lines já não nos queriam aceitar. Perante isto, o Hic[em], através de uma das pessoas deles bem colocadas, mobilizou a polícia, que deu a entender à Greek Line que iam ser obrigados a negar-nos aos seis a estadia em Lisboa, pelo que a Greek Line – nas mãos de estrangeiros – iria ser responsabilizada, porque, de uma perspetiva material, nós podíamos ir. Perante este último argumento, a Greek Line viu-se obrigada a ceder. Assim, pela primeira vez na minha vida, à partida da Europa, a Polícia tinha intercedido a nosso favor.
Quarta-feira, 9.10.40
Começo a pensar no futuro. Ontem li jornais ingleses e suíços e senti-me mais ligada do que antes aos acontecimentos mundiais […]
Eva Lewinski, «Lissaboner Tagebuch», File 6 Lisbon Diary Collections Search – United States Holocaust Memorial Museum
[Trad. Teresa Martins de Oliveira]
Eva Lewinski, «Lissaboner Tagebuch»
Lisboa, Samedi, 28.9.40
Dia 11, quarta-feira, à noitinha, partida de Mont[auban].
[…].
[…], mas capitalistas «sociais» do tipo de [Josef Luitpold] St[ern] são-me bastante incompreensíveis. Última explosão pouco antes de chegar a Lisboa (sic), sobre os procedimentos para arranjar hotel. Depois, amigos na estação, tudo se resolve, o quarto sem janelas é esquecido. É bom ver muitos amigos: Lene [membro do ISK, companheira de Eva em Paris], Marianne [companheira de Eva em Gurs], Oskar [social-democrata austríaco]. Grande tristeza, com gradual acalmia. Partida talvez daqui a quatro dias. Hoje, sábado ao fim da tarde, sozinha por meia hora com St[ern] e uma hora completamente só. A Irma ainda deve ter encontrado amigos. Gostaria de estar mais sozinha, para me ir habituando. A vida vai ser muito difícil nesta grande solidão, mas vou tentar.
Barco, segunda-feira, 7.10.40
Não consigo livrar-me da estranheza da vida. Estou deitada numa espreguiçadeira; por cima de mim, o céu cinzento, no qual o sol procura espreitar, à minha frente, água; à minha volta, água; a toda a volta, um cinzento que não acaba mais, uma superfície quase imóvel. …
[…]
Os dias em Lisboa foram tão estranhos. De repente, do nada, podermo-nos movimentar livremente, passar por polícias sem papéis, e sem que isso nos preocupasse. Poder estar sentados no café, poder falar na língua que nos apetecesse, sem qualquer impedimento; iluminação radiosa em todas as ruas pela noite dentro, abundância de [mercadorias] expostas nas lojas, jornais em todas as línguas, de todas as orientações, livros, livros. – Quando se está no porto, na foz do rio, na enorme praça, um pouco estranha, em cujo centro um rei qualquer como que cavalga pela água dentro; quando estamos sentados no Jardim Botânico, debaixo das árvores enormes, de dimensão sobre-humana – o que tem aquele salgueiro enorme a ver com as árvores suaves que ladeavam o rio em Compiègne? as palmeiras gigantes que se parecem com bushimanes, os grandes catos selvagens? – então, percebemos que estamos na dianteira da Europa, que na verdade já a deixámos.
Ao lado da riqueza das ruas principais, depois, a Alfama, afastada nem 10 minutos, com a sua miséria indescritível, lixo e horror. Que haja crianças que nascem ali, pequenos vermes comidos pela peste, com pernas como palitos, sem um bocadinho de carne, envolvidos nuns poucos andrajos, que quase não oferecem qualquer proteção contra o frio ou o calor; que haja seres humanos que ali envelheçam, em buracos escuros, em que nunca entra um raio de sol, com feridas abertas e corpos inchados e cobertos de sujidade, que tudo isso possa existir hoje em dia – nunca se conseguirá esquecer. E quantos seres humanos lindos, com luz nos olhos, com uma quase inconsciente mas inconfundível fome de um outro mundo! O rapazinho, como que recortado de um quadro de Murilo, com um cântaro de água pesado demais, não há nele qualquer desconfiança; quando olhei para ele, respondeu com um riso simpático, responde com alegria, confiança e calor humano ao calor humano. Apetecia-me trazê-lo comigo, connosco. Primeiro metê-lo na banheira, depois vesti-lo decentemente, sentá-lo a uma mesa limpa, e então, depois de ele ter comido até ficar satisfeito, ia contigo para uma oficina, onde houvesse muitas outras crianças e aprenderia a trabalhar com o martelo e a plaina e seria um ser humano como tu, que te afirmas pelo trabalho e nele encontras sempre a tua confirmação. Ou a mulher já não muito nova que nos mostrou o caminho e com uma firmeza simpática foi repetindo o nome da rua até que o pronunciássemos corretamente. Eram essas pessoas que caberiam também na nossa casa; mas principalmente tu.
Mas deixemos estas fantasias. Primeiro tenho que voltar a ter-te, antes de podermos começar a fazer planos de vida. Além disso, isto são casos isolados. Aquela zona é a única que não ficou destruída no grande terramoto. Sem um terramoto social, estes quarteirões nunca desaparecerão.
Terça-feira, 8.10.40
O vento começa a soprar violentamente. As ondas ainda não são muito grandes, mas têm coroas de espuma e esta noite houve grandes bátegas de água a fustigar com violência a escotilha do camarote.
Queria falar-te da forma como cheguei aqui ao barco e de como o consegui [fazer]. À chegada a Lisboa, a 27, foi-nos logo dito que tínhamos sorte, que o «Nea Hellas», que estava previsto fazer-se ao mar dia 28, ia partir com atraso por volta do dia 3, e nós todos poderíamos, todos, seguir viagem. Na manhã seguinte, as formalidades respetivas, eu com o procurador alemão, os outros junto dos [?]; entrega de passaportes, assinaturas, etc. É certo que me disseram que o HICEM ainda ia telegrafar para a América para terem a certeza de que os custos da viagem estavam cobertos, mas era com certeza apenas um proforma. De resto, não teríamos de tratar com nenhuma organização, isso até seria indesejável, os procuradores respetivos resolviam tudo para todos. – Assim, senti-me livre e até aliviada por não ter de percorrer certos caminhos.
Tu conheces-me e sabes que no fundo tenho sempre medo de entrar em contacto com pessoas desconhecidas, de me sentir em situações novas, que me não são familiares – tal como tenho sempre medo de entrar na água. Principalmente quando tu não estás por perto. Mas logo que estou lá dentro, até nem nado mal, na água, tal como com as pessoas novas. – Então, visitei Lisboa calmamente, escrevi cartas e não entrei em contacto com nenhuma organização, com o sentimento nada desagradável que se tem quando obrigação e vontade excecionalmente coincidem.
Um belo dia, disseram que não havia a certeza de partirmos, mas, ao mesmo tempo, atribuíram–nos números de cabines. E então, de repente, na terça-feira à noitinha, quando os outros receberam os bilhetes do navio, disseram-nos que nos tinham riscado definitivamente, porque não chegara qualquer resposta da A[mérica]. Só naquele momento é que se me tornou claro que tinha sido apanhada num erro ao partir do princípio de que o Hic[em] ou a sua congénere am[ericana] pagaria a viagem; na verdade temos que a custear nós próprios e o Hic[em] só adianta o dinheiro. Se eu soubesse disso à chegada, teria naturalmente feito de imediato as démarches necessárias junto dos nossos amigos americanos. Assim, na véspera da partida, era tarde demais para qualquer ação para lá de Lisboa. Por isso já não conto com que a coisa se consiga resolver, mas não quero desistir sem lutar – até porque eu empreendi toda esta ação da viagem apenas para do lado de lá poder fazer alguma coisa pelos outros e não para contemplar as belezas de Lisboa e da sua Biblioteca Nacional – e decido ir no dia seguinte de manhã ao Hicem, expor-lhes o meu caso, garantir o pagamento do outro lado e pedir ao Oskar que aceitasse que o seu grupo desse uma garantia formal para mim.
O Oskar mostra-se muito camarada e simpático, acompanha-me ao Hic[em]. Lá descubro que a secretária principal, de quem depende uma grande parte da decisão, esteve em nossa casa com a Ellen Hölrup.
Que pena, só agora ter percebido! Há três dias, uma curta conversa com a rapariga e ela ter-me–ia ajudado com certeza a arranjar as coisas. Mas agora é tudo tarde demais. As listas estão fechadas, definitivamente, nós fomos riscados, porque não veio nenhuma resposta da América. À pergunta «porque não dar uma palavra às pessoas a serem riscadas antes de o fazerem», inquirindo se eles próprios não poderiam resolver alguma coisa em prol da sua situação, a resposta foi: «Por favor, nós tratamos com organizações, não com pessoas! Pessoas não nos interessam». Apercebo-me de que não faz sentido continuar a insistir e vou embora, não sem dirigir a mim própria fortes censuras por não ter quebrado a tempo a malfadada disciplina organizacional, o que, neste caso, também veio ao encontro da minha tendência, e ter tomado em mãos a minha, ou a nossa questão.
Agora a questão estava encerrada e eu comecei a tomar disposições para a nova situação: telegrafar para a América a pedir dinheiro; desistir da pensão, limitar os meus gastos, mudar para casa da irmã da Lise, entregar ao St[ern] incumbências e pedidos dirigidos aos amigos do outro lado, para que pelo menos não fique tudo parado porque eu não pude viajar. É estranho: embora me custe tanto deixar a Europa, porque em certa medida essa partida dificulta muito o reencontro contigo, não quero ficar em Lisboa, não estou de maneira nenhuma satisfeita com o rumo que as coisas levaram. À tarde, há um novo encontro com os [?] amigos, às 4h30, no café. Todos estão verdadeiramente aborrecidos com o facto de eu ter de ficar. Às 4h45 chega o Oskar, precisa muito de falar comigo. Tinha tentado de novo o impossível junto do Hi[cem] e, contra todas as espectativas, tinha conseguido o seguinte: Se até às 5h eu conseguisse entregar no Hicem o montante para o bilhete do barco – 175 $ – , o tesoureiro ia comigo às Greek Lines e faria o que pudesse para eu conseguir partir. Mas onde ir buscar 175 $ em 10 minutos? «Talvez alguém tos possa emprestar», disse Oskar. «Podes mandar um telegrama ainda hoje à noite, para que o dinheiro emprestado seja enviado por telégrafo para aqui?». «Posso». «Então está bem, um momento». Fala com a Katia, sai, em menos de 5 minutos está de volta, com 200 $ na mão, do Fritz [Adler, Professor universitário em Zurique, depois presidente do Partido Social-democrata austríaco], com quem se cruzou por acaso. De táxi para o Hicem, falar com o tesoureiro, que não se mostrou muito simpático, mas se declarou de acordo em ir connosco. De alguma forma, ele parece-me conhecido, por um momento penso que ele é o Erich Gr., este é mais magro, mais moreno, diferente. Mas a linha do cabelo, a voz, a cabeça – incrível.
Na rua, estamos à procura de um táxi, pergunto-lhe, só para fazer conversa e na verdade sem grande convicção, se ele por acaso seria irmão do Erich. É, na verdade, e, à medida que percebe que conheço bem o Erich, passa a interessar-se pelo meu caso de uma forma completamente diferente, quase pessoal. Empenha-se imenso junto do diretor da Greek Line, como se fosse um assunto dele próprio, dez minutos de espectativa enquanto ele fala com o diretor, depois regressa, e nós ouvimos ainda as últimas palavras do diretor: “You can´t ask the impossible from me” e eu percebo que realmente está tudo acabado, porque é tarde demais. Nas últimas 24 horas nada foi descurado, tinha sido feito por muitos mais do que o mínimo necessário, agora o assunto tinha que ser definitivamente encerrado. No dia seguinte, por volta do meio dia, um par de horas no Jardim Botânico, uma despedida calma do St[ern].
Depois levá-los ao navio, verem-se muitos, muitos amigos, uma despedida triste. De regresso, um bocado com a Marianne, que cada vez me é mais querida. Depois embora, para casa da irmã da Lise. Sinto-me vazia e espremida, leio um bocado, começo a escrever cartas, comemos, quando ela chega a casa, ouvimos radio. Estou tão cansada que já não consigo fazer nada e deito–me muito cedo. As quatro semanas em Lisboa erguem-se à minha frente como uma montanha intransponível. Durmo profundamente. No dia seguinte, tenho o plano do dia feito: escrever, voltar a ir ao navio, Hi[cem], estudar inglês. Começo a escrever. O telefone toca. Chamam por mim. A esperança, que não quero confessar a mim própria, já tinha acordado quando o telefone tocou. Agora estremece um pouco mais conscientemente. Do outro lado está a Marianne. «Eva, senta-te. Tu podes partir. Às 11h com bagagem no Hi[em]». E começa uma correria, para lá e para cá, que termina com o facto de que às 8h da noite estou realmente no barco. Explicação sumária: de manhã tinha chegado o telegrama esperado, sem o meu nome. Como o Gr. e a secretária agora sabiam quem eu era, e além disso o Oskar intercedeu por mim, fui incluída nas démarches do Hic[em] para que nós os seis pudéssemos viajar. Razão para estes repentinos esforços generalizados: O Hic[em] tinha percebido que uma permanência de um mês de nós os seis em Lisboa ia custar imenso dinheiro que ninguém lhes ia pagar depois, ao passo que a nossa viagem não tinha qualquer risco financeiro para eles. Mas os senhores da Greek Lines já não nos queriam aceitar. Perante isto, o Hic[em], através de uma das pessoas deles bem colocadas, mobilizou a polícia, que deu a entender à Greek Line que iam ser obrigados a negar-nos aos seis a estadia em Lisboa, pelo que a Greek Line – nas mãos de estrangeiros – iria ser responsabilizada, porque, de uma perspetiva material, nós podíamos ir. Perante este último argumento, a Greek Line viu-se obrigada a ceder. Assim, pela primeira vez na minha vida, à partida da Europa, a Polícia tinha intercedido a nosso favor.
Quarta-feira, 9.10.40
Começo a pensar no futuro. Ontem li jornais ingleses e suíços e senti-me mais ligada do que antes aos acontecimentos mundiais […]
Eva Lewinski, «Lissaboner Tagebuch», File 6 Lisbon Diary Collections Search – United States Holocaust Memorial Museum
[Trad. Teresa Martins de Oliveira]
Do/a autor/a sobre o exílio
Eva Lewinski, «Lissaboner Tagebuch»
Lisboa, Samedi, 28.9.40
Dia 11, quarta-feira, à noitinha, partida de Mont[auban].
[…].
[…], mas capitalistas «sociais» do tipo de [Josef Luitpold] St[ern] são-me bastante incompreensíveis. Última explosão pouco antes de chegar a Lisboa (sic), sobre os procedimentos para arranjar hotel. Depois, amigos na estação, tudo se resolve, o quarto sem janelas é esquecido. É bom ver muitos amigos: Lene [membro do ISK, companheira de Eva em Paris], Marianne [companheira de Eva em Gurs], Oskar [social-democrata austríaco]. Grande tristeza, com gradual acalmia. Partida talvez daqui a quatro dias. Hoje, sábado ao fim da tarde, sozinha por meia hora com St[ern] e uma hora completamente só. A Irma ainda deve ter encontrado amigos. Gostaria de estar mais sozinha, para me ir habituando. A vida vai ser muito difícil nesta grande solidão, mas vou tentar.
Barco, segunda-feira, 7.10.40
Não consigo livrar-me da estranheza da vida. Estou deitada numa espreguiçadeira; por cima de mim, o céu cinzento, no qual o sol procura espreitar, à minha frente, água; à minha volta, água; a toda a volta, um cinzento que não acaba mais, uma superfície quase imóvel. …
[…]
Os dias em Lisboa foram tão estranhos. De repente, do nada, podermo-nos movimentar livremente, passar por polícias sem papéis, e sem que isso nos preocupasse. Poder estar sentados no café, poder falar na língua que nos apetecesse, sem qualquer impedimento; iluminação radiosa em todas as ruas pela noite dentro, abundância de [mercadorias] expostas nas lojas, jornais em todas as línguas, de todas as orientações, livros, livros. – Quando se está no porto, na foz do rio, na enorme praça, um pouco estranha, em cujo centro um rei qualquer como que cavalga pela água dentro; quando estamos sentados no Jardim Botânico, debaixo das árvores enormes, de dimensão sobre-humana – o que tem aquele salgueiro enorme a ver com as árvores suaves que ladeavam o rio em Compiègne? as palmeiras gigantes que se parecem com bushimanes, os grandes catos selvagens? – então, percebemos que estamos na dianteira da Europa, que na verdade já a deixámos.
Ao lado da riqueza das ruas principais, depois, a Alfama, afastada nem 10 minutos, com a sua miséria indescritível, lixo e horror. Que haja crianças que nascem ali, pequenos vermes comidos pela peste, com pernas como palitos, sem um bocadinho de carne, envolvidos nuns poucos andrajos, que quase não oferecem qualquer proteção contra o frio ou o calor; que haja seres humanos que ali envelheçam, em buracos escuros, em que nunca entra um raio de sol, com feridas abertas e corpos inchados e cobertos de sujidade, que tudo isso possa existir hoje em dia – nunca se conseguirá esquecer. E quantos seres humanos lindos, com luz nos olhos, com uma quase inconsciente mas inconfundível fome de um outro mundo! O rapazinho, como que recortado de um quadro de Murilo, com um cântaro de água pesado demais, não há nele qualquer desconfiança; quando olhei para ele, respondeu com um riso simpático, responde com alegria, confiança e calor humano ao calor humano. Apetecia-me trazê-lo comigo, connosco. Primeiro metê-lo na banheira, depois vesti-lo decentemente, sentá-lo a uma mesa limpa, e então, depois de ele ter comido até ficar satisfeito, ia contigo para uma oficina, onde houvesse muitas outras crianças e aprenderia a trabalhar com o martelo e a plaina e seria um ser humano como tu, que te afirmas pelo trabalho e nele encontras sempre a tua confirmação. Ou a mulher já não muito nova que nos mostrou o caminho e com uma firmeza simpática foi repetindo o nome da rua até que o pronunciássemos corretamente. Eram essas pessoas que caberiam também na nossa casa; mas principalmente tu.
Mas deixemos estas fantasias. Primeiro tenho que voltar a ter-te, antes de podermos começar a fazer planos de vida. Além disso, isto são casos isolados. Aquela zona é a única que não ficou destruída no grande terramoto. Sem um terramoto social, estes quarteirões nunca desaparecerão.
Terça-feira, 8.10.40
O vento começa a soprar violentamente. As ondas ainda não são muito grandes, mas têm coroas de espuma e esta noite houve grandes bátegas de água a fustigar com violência a escotilha do camarote.
Queria falar-te da forma como cheguei aqui ao barco e de como o consegui [fazer]. À chegada a Lisboa, a 27, foi-nos logo dito que tínhamos sorte, que o «Nea Hellas», que estava previsto fazer-se ao mar dia 28, ia partir com atraso por volta do dia 3, e nós todos poderíamos, todos, seguir viagem. Na manhã seguinte, as formalidades respetivas, eu com o procurador alemão, os outros junto dos [?]; entrega de passaportes, assinaturas, etc. É certo que me disseram que o HICEM ainda ia telegrafar para a América para terem a certeza de que os custos da viagem estavam cobertos, mas era com certeza apenas um proforma. De resto, não teríamos de tratar com nenhuma organização, isso até seria indesejável, os procuradores respetivos resolviam tudo para todos. – Assim, senti-me livre e até aliviada por não ter de percorrer certos caminhos.
Tu conheces-me e sabes que no fundo tenho sempre medo de entrar em contacto com pessoas desconhecidas, de me sentir em situações novas, que me não são familiares – tal como tenho sempre medo de entrar na água. Principalmente quando tu não estás por perto. Mas logo que estou lá dentro, até nem nado mal, na água, tal como com as pessoas novas. – Então, visitei Lisboa calmamente, escrevi cartas e não entrei em contacto com nenhuma organização, com o sentimento nada desagradável que se tem quando obrigação e vontade excecionalmente coincidem.
Um belo dia, disseram que não havia a certeza de partirmos, mas, ao mesmo tempo, atribuíram–nos números de cabines. E então, de repente, na terça-feira à noitinha, quando os outros receberam os bilhetes do navio, disseram-nos que nos tinham riscado definitivamente, porque não chegara qualquer resposta da A[mérica]. Só naquele momento é que se me tornou claro que tinha sido apanhada num erro ao partir do princípio de que o Hic[em] ou a sua congénere am[ericana] pagaria a viagem; na verdade temos que a custear nós próprios e o Hic[em] só adianta o dinheiro. Se eu soubesse disso à chegada, teria naturalmente feito de imediato as démarches necessárias junto dos nossos amigos americanos. Assim, na véspera da partida, era tarde demais para qualquer ação para lá de Lisboa. Por isso já não conto com que a coisa se consiga resolver, mas não quero desistir sem lutar – até porque eu empreendi toda esta ação da viagem apenas para do lado de lá poder fazer alguma coisa pelos outros e não para contemplar as belezas de Lisboa e da sua Biblioteca Nacional – e decido ir no dia seguinte de manhã ao Hicem, expor-lhes o meu caso, garantir o pagamento do outro lado e pedir ao Oskar que aceitasse que o seu grupo desse uma garantia formal para mim.
O Oskar mostra-se muito camarada e simpático, acompanha-me ao Hic[em]. Lá descubro que a secretária principal, de quem depende uma grande parte da decisão, esteve em nossa casa com a Ellen Hölrup.
Que pena, só agora ter percebido! Há três dias, uma curta conversa com a rapariga e ela ter-me–ia ajudado com certeza a arranjar as coisas. Mas agora é tudo tarde demais. As listas estão fechadas, definitivamente, nós fomos riscados, porque não veio nenhuma resposta da América. À pergunta «porque não dar uma palavra às pessoas a serem riscadas antes de o fazerem», inquirindo se eles próprios não poderiam resolver alguma coisa em prol da sua situação, a resposta foi: «Por favor, nós tratamos com organizações, não com pessoas! Pessoas não nos interessam». Apercebo-me de que não faz sentido continuar a insistir e vou embora, não sem dirigir a mim própria fortes censuras por não ter quebrado a tempo a malfadada disciplina organizacional, o que, neste caso, também veio ao encontro da minha tendência, e ter tomado em mãos a minha, ou a nossa questão.
Agora a questão estava encerrada e eu comecei a tomar disposições para a nova situação: telegrafar para a América a pedir dinheiro; desistir da pensão, limitar os meus gastos, mudar para casa da irmã da Lise, entregar ao St[ern] incumbências e pedidos dirigidos aos amigos do outro lado, para que pelo menos não fique tudo parado porque eu não pude viajar. É estranho: embora me custe tanto deixar a Europa, porque em certa medida essa partida dificulta muito o reencontro contigo, não quero ficar em Lisboa, não estou de maneira nenhuma satisfeita com o rumo que as coisas levaram. À tarde, há um novo encontro com os [?] amigos, às 4h30, no café. Todos estão verdadeiramente aborrecidos com o facto de eu ter de ficar. Às 4h45 chega o Oskar, precisa muito de falar comigo. Tinha tentado de novo o impossível junto do Hi[cem] e, contra todas as espectativas, tinha conseguido o seguinte: Se até às 5h eu conseguisse entregar no Hicem o montante para o bilhete do barco – 175 $ – , o tesoureiro ia comigo às Greek Lines e faria o que pudesse para eu conseguir partir. Mas onde ir buscar 175 $ em 10 minutos? «Talvez alguém tos possa emprestar», disse Oskar. «Podes mandar um telegrama ainda hoje à noite, para que o dinheiro emprestado seja enviado por telégrafo para aqui?». «Posso». «Então está bem, um momento». Fala com a Katia, sai, em menos de 5 minutos está de volta, com 200 $ na mão, do Fritz [Adler, Professor universitário em Zurique, depois presidente do Partido Social-democrata austríaco], com quem se cruzou por acaso. De táxi para o Hicem, falar com o tesoureiro, que não se mostrou muito simpático, mas se declarou de acordo em ir connosco. De alguma forma, ele parece-me conhecido, por um momento penso que ele é o Erich Gr., este é mais magro, mais moreno, diferente. Mas a linha do cabelo, a voz, a cabeça – incrível.
Na rua, estamos à procura de um táxi, pergunto-lhe, só para fazer conversa e na verdade sem grande convicção, se ele por acaso seria irmão do Erich. É, na verdade, e, à medida que percebe que conheço bem o Erich, passa a interessar-se pelo meu caso de uma forma completamente diferente, quase pessoal. Empenha-se imenso junto do diretor da Greek Line, como se fosse um assunto dele próprio, dez minutos de espectativa enquanto ele fala com o diretor, depois regressa, e nós ouvimos ainda as últimas palavras do diretor: “You can´t ask the impossible from me” e eu percebo que realmente está tudo acabado, porque é tarde demais. Nas últimas 24 horas nada foi descurado, tinha sido feito por muitos mais do que o mínimo necessário, agora o assunto tinha que ser definitivamente encerrado. No dia seguinte, por volta do meio dia, um par de horas no Jardim Botânico, uma despedida calma do St[ern].
Depois levá-los ao navio, verem-se muitos, muitos amigos, uma despedida triste. De regresso, um bocado com a Marianne, que cada vez me é mais querida. Depois embora, para casa da irmã da Lise. Sinto-me vazia e espremida, leio um bocado, começo a escrever cartas, comemos, quando ela chega a casa, ouvimos radio. Estou tão cansada que já não consigo fazer nada e deito–me muito cedo. As quatro semanas em Lisboa erguem-se à minha frente como uma montanha intransponível. Durmo profundamente. No dia seguinte, tenho o plano do dia feito: escrever, voltar a ir ao navio, Hi[cem], estudar inglês. Começo a escrever. O telefone toca. Chamam por mim. A esperança, que não quero confessar a mim própria, já tinha acordado quando o telefone tocou. Agora estremece um pouco mais conscientemente. Do outro lado está a Marianne. «Eva, senta-te. Tu podes partir. Às 11h com bagagem no Hi[em]». E começa uma correria, para lá e para cá, que termina com o facto de que às 8h da noite estou realmente no barco. Explicação sumária: de manhã tinha chegado o telegrama esperado, sem o meu nome. Como o Gr. e a secretária agora sabiam quem eu era, e além disso o Oskar intercedeu por mim, fui incluída nas démarches do Hic[em] para que nós os seis pudéssemos viajar. Razão para estes repentinos esforços generalizados: O Hic[em] tinha percebido que uma permanência de um mês de nós os seis em Lisboa ia custar imenso dinheiro que ninguém lhes ia pagar depois, ao passo que a nossa viagem não tinha qualquer risco financeiro para eles. Mas os senhores da Greek Lines já não nos queriam aceitar. Perante isto, o Hic[em], através de uma das pessoas deles bem colocadas, mobilizou a polícia, que deu a entender à Greek Line que iam ser obrigados a negar-nos aos seis a estadia em Lisboa, pelo que a Greek Line – nas mãos de estrangeiros – iria ser responsabilizada, porque, de uma perspetiva material, nós podíamos ir. Perante este último argumento, a Greek Line viu-se obrigada a ceder. Assim, pela primeira vez na minha vida, à partida da Europa, a Polícia tinha intercedido a nosso favor.
Quarta-feira, 9.10.40
Começo a pensar no futuro. Ontem li jornais ingleses e suíços e senti-me mais ligada do que antes aos acontecimentos mundiais […]
Eva Lewinski, «Lissaboner Tagebuch», File 6 Lisbon Diary Collections Search – United States Holocaust Memorial Museum
[Trad. Teresa Martins de Oliveira]