Exílio
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Permanência em Portugal
Partida de Portugal
Fim do exílio
Fritz Heine nasce em Hanover em 1904, filho de um construtor de órgãos de filiação social-democrata. Educado na fé protestante e na social-democracia, afasta-se da igreja um ano depois de perder a mãe, aos doze anos, mas adere em 1922 ao SPD, trocando três anos depois o seu trabalho, como empregado comercial primeiro e jornalista desportivo depois, pela colaboração na comissão executiva do partido em Berlim. Ali se virá a destacar, modernizando e dando grande incremento ao departamento de propaganda.
Após a ascensão dos nazis ao poder, em janeiro de 1933, Heine fugiu para Praga, juntando-se ao grupo social-democrata, depois de ter ajudado alguns dos mais destacados membros do partido, entre eles Stampfer, a atravessar a fronteira checoslovaca pelas montanhas que na qualidade de exímio esquiador bem conhecia (cf. Oral History, part1). Com a ajuda da quase totalidade dos ativos económicos que levaram consigo, os sociais-democratas organizam em Praga a resistência ativa contra o nacional-socialismo, por exemplo através da publicação do jornal «Neuer Vorwärts» [Novo Avante] e dos «Deutschland-Berichte der Sopade» [Relatórios do Sopade sobre a Alemanha] e da difusão de propaganda antinazi na Alemanha. Heine conta, numa entrevista gravada para a «Oral History», que todos os fins de semana se deslocava à fronteira alemã para encontrar correligionários, organizados em postos fronteiriços, para garantirem o contacto entre os membros e simpatizantes do partido na clandestinidade e o estrangeiro, bem como que, com o mesmo intuito, durante os cinco anos de permanência em Praga visitou a Alemanha umas 10 ou 12 vezes, com passaporte falso.
Todavia, a partir de 1936, a Checoslováquia dificulta crescentemente o trabalho de propaganda contra o regime de Hitler, e, em 1938, com o apoio do primeiro ministro francês Léon Blum, o Sopade (SPD no exílio) muda-se para Paris, onde Fritz Heine vem a integrar tanto a direção do partido como a do jornal «Neuer Vorwärts».
Dois anos volvidos, a invasão de França pelas tropas alemãs dita o envio de Fritz Heine no início de maio para um campo de internamento, na qualidade de «estrangeiro inimigo», depois de numa primeira fase, com o nome inscrito numa lista de reconhecidos antifascistas do Ministério do Interior francês, ter sido preservado desse destino. Voluntaria-se, então, para trabalhar como «prestataire» na construção de trincheiras fora do campo de internamento, criando uma oportunidade de fuga que se virá a concretizar semanas depois. Calcorreia as estradas pejadas de gente que se deslocava para sul fugindo às tropas alemãs e chega à fronteira com a zona livre de França e depois a Marselha, onde se encontravam já outros membros do Sopade. Instalado em Toulouse visita os outros membros da direção do partido ao domingo, em Castres.
Em Marselha torna-se colaborador de Frank Bohn, o delegado enviado pela «American Federation of Labour» e pelo «American Joint Labour Committee» para salvar funcionários sindicais, sociais democratas e antifascistas europeus, que irá substituir desde 1940 até março de 1941, período em que terá salvado mais de 100 pessoas em perigo. Instalado no Hôtel de Berna, providencia documentos (falsos), vistos e dinheiro, o que lhe valeu o título de «Anjo de Marselha» e, em 1988, o reconhecimento pelos israelitas como «Justo entre as Nações».
No início de 1941, com os alemães a exigirem ao governo de Vichy a extradição de Heine, a sua permanência em Marselha torna-se demasiadamente arriscada. Em final de fevereiro parte para Portugal, seguindo a rota que tantos ajudara a trilhar.
A partir de Lisboa, procura obter um visto de entrada na Grã-Bretanha, onde se encontravam já Ollenhauer, Geyer e Vogel, mas o governo britânico, que inicialmente apoia até mesmo financeiramente o SPD, vai-se desligando de qualquer envolvimento com os antinazis alemães, temendo eventualmente que estes pudessem comprometer as suas políticas para o pós-guerra. Heine vê-se obrigado a permanecer por vários meses em Lisboa, onde, segundo ele próprio, é apoiado pelos Quakers e pelos Unitarians.
Quando finalmente se junta aos outros membros do Sopade em Londres, onde vem a trabalhar no «Political Intelligence Department», Heine procura ainda ajudar os fugitivos a integrarem-se e põe a sua experiência ao serviço da BBC e das tropas aliadas depois da invasão destas da Alemanha (cf. Runge).
Em fevereiro de 1946, Heine regressou à Alemanha Ocidental. Em maio desse mesmo ano, foi eleito para o comité executivo do SPD, onde permaneceu até 1958. Tornou-se um dos mais próximos colaboradores de Kurt Schumacher e de Erich Ollenhauer, sendo responsável, entre outras atividades, pela organização das campanhas eleitorais para o «Bundestag» em 1949, 1953 e 1957. Entre 1958 e a sua aposentação em 1974 dirigiu o importante consórcio de empresas editoriais e comerciais pertencentes ao SPD («Konzentration GmbH»). Morre aos 97 anos, em Nordrhein-Westfallen.
Oral History, «Oral history interview with Fritz Heine» (26 July 1988). Oral history interviews of the Christian Rescuers Project. United States Holocaust Memorial Museum, Washington, DC. (acedido em 16.2. 2026)
Loring, Marianne (1996), Flucht aus Frankreich 194O. Die Vertreibung deutscher Sozialdemokraten aus dem Exil, Frankfurt a.M., Fischer.
Runge, Friederike (2018), «German Social Democrats in London Exile during World War II», in: The London Moment, online (acedido em 3.9.2025).
Seebacher-Brandt, Brigitte (1984), Ollenhauer: Biedermann und Patriot, Berlin, Siedler.
(Teresa Martins de Oliveira)
Do/a autor/a sobre o exílio