Exílio
Chegada a Portugal
Permanência em Portugal
Partida de Portugal
Fim do exílio
Elsbeth Weichmann (1900-1988), cujo nome de solteira era Greisinger, nasce no seio de uma família protestante na cidade de Brünn, numa Morávia predominantemente católica.
Ao contrário da família que, embora de orientação liberal, não se empenhava ativamente na política, Elsbeth desde cedo se torna membro do SDAP (Sozialdemokratische Arbeiterpartei Österreichs), terminando a licenciatura em economia com uma dissertação sobre o leninismo, na Universidade de Graz (antes frequentara por alguns semestres as universidades de Brünn, Frankfurt a. M., Kiel e Köln, sempre mais interessada nas manifestações políticas do que no estudo). Em 1928 casa-se com Herbert Weichmann, de origem judaica, membro do SPD e conselheiro pessoal do primeiro-ministro do estado livre da Prússia Otto Braun, o que dita o seu exílio a partir do ano de 1933. É certo que Elsbeth, cristã e figura menos destacada do SPD, poderia ter permanecido em Berlim, mas, como ela própria explicou, não só a partida para o exílio representava uma perda muito maior para Herbert, como também ela seria muito mais capaz de se adaptar às vicissitudes que os esperavam.
No Verão de 1933 partem para a Checoslováquia, vindo a instalar-se em Praga, mas o antissemitismo que grassava na cidade, visando muito especialmente jornalistas de origem judaica, leva Herbert a aceitar o lugar de correspondente para questões económicas em Paris.
Com muito poucos conhecimentos de francês e sem relações próximas na cidade, sentem-se perdidos, até que o genro dos donos do pequeno hotel onde se acolhem, que lhes ensina francês, os introduz no meio socialista francês. Elsbeth apoia o trabalho do marido e gradualmente o casal torna-se colaborador de diferentes jornais e revistas e, sobretudo por ação de Elsbeth, estabelece ou retoma relações com outros exilados.
Após o ataque alemão à França em 1940, Elsbeth Weichmann é internada como «inimiga estrangeira» no Vélodrome d’Hiver de Paris e uma semana depois no campo feminino de Gurs, no sul da França. Como outras das presas políticas, Elsbeth foge do campo com um visto que conseguira retirar de um escritório mal vigiado e refugia-se no sul de França, na vila balnear de Sète, onde o marido se lhe virá juntar.
Semanas depois, o casal é informado de que poderá receber um visto para os EUA, em Marselha. Contornadas as dificuldades da chegada a esta cidade, praticamente fechada a mais forasteiros, os Weichmann acabam por conseguir um visto para Sião (Tailândia), que lhes garantia a possibilidade de obterem vistos para Portugal e Espanha. Contudo, sentindo apertar-se o cerco aos exilados políticos, decidem passar a fronteira franco-espanhola a pé pelos Pirenéus, sendo as suas parcas bagagens transportadas de comboio pela família Stampfer, que no mesmo dia partia para o exílio (cf. Passagen). De Port Bou seguem de comboio via Barcelona até Madrid, onde deveriam reunir-se com os Stampfer para fazerem a viagem em conjunto até Lisboa. Nessa noite, Elsbeth perde o passaporte no metro e vê-se impedida de seguir viagem. Acompanhados por Friedrich Stampfer e Alexander Stein, os Weichmann procuram obter no consulado um visto de substituição, mas o cônsul insiste que Herbert Weichmann parta com o resto do grupo para Lisboa, enquanto ele próprio se compromete a obter junto dos consulados espanhol e português os papeis que permitam a Elsbeth seguir por sua vez para Portugal, o que vem a acontecer alguns dias mais tarde.
Nas oito semanas de espera por um lugar num navio em Lisboa, o casal Weichmann encontra-se regularmente com outros refugiados social-democratas e com Arthur Koestler, até que, em 12 de novembro de 1940, parte para os EUA no vapor português «Guiné».
O início de vida na América é difícil, marcado por trabalhos ocasionais, um curto internamento como «estrangeira inimiga» depois da entrada dos EUA na guerra, e pela frequência de um curso breve na Universidade de Nova York. Depois disso, Elsbeth Weichmann trabalha na Rockefeller Foundation, seguindo-se a criação de uma empresa de confeção de peluches.
Em 1949 Elsbeth Weichmann regressa à Alemanha para se juntar ao marido, que partira um ano antes e se radicara em Hamburgo, onde desempenha diferentes cargos públicos até se tornar presidente da câmara da cidade. Quanto a Elsbeth, sempre considerada o verdadeiro esteio do marido, foi deputada do SPD no Parlamento de Hamburgo de 1957 a 1974, tendo-se empenhado na política cultural e iniciado o primeiro centro de aconselhamento ao consumidor na Alemanha. A sua principal atenção focou-se, porém, na promoção de políticas de género e de igualdade, e nos últimos anos de vida, na defesa dos direitos dos exilados.
Em 1989, um ano após a morte de Elsbeth Weichmann, foi criada a Fundação Herbert e Elsbeth Weichmann, dedicada a apoiar a preservação da memória da ação da oposição democrática no exílio contra o regime totalitário de Hitler.
«Elsbeth Weichmann: Flucht und Rückkehr», Konzept und Umsetzung Susanne Wittek, Agentur Initiative Literatur, Elsbeth Weichmann: Flucht und Rückkehr – Körber-Stiftung (koerber-stiftung.de) (acedido 18.3. 2022)
Loring, Marianne (1996), Flucht aus Frankreich 1940. Die Vertreibung deutscher Sozialdemokraten aus dem Exil. Fischer Taschenbuchverlag, Frankfurt am Main
Weichmann, Elsbeth (1983), Zuflucht. Jahre des Exils. Mit einem Vorwort von Siegfried Lenz, Knaus Verlag, Hamburg
(Teresa Martins de Oliveira)
Elsbeth Weichmann, Zuflucht. Jahre des Exils [Refúgio. Anos do exílio]
O Salto sobre um novo abismo
[…]
Na estação em Lisboa estava o Herbert. Tinha passado em revista os comboios que vinham de Madrid ao longo de todo o dia. Irradiava felicidade, na mão um ananás, sumarento e doce.
Por esses dias, Lisboa era uma cidade cheia de fugitivos, tal como Marselha. Mas mais descontraídos do que as pessoas de Marselha, porque a luta pelos papéis acabara e já só tinha de se esperar por um barco. Havíamos chegado a um país neutro, já não tínhamos o inimigo colado a nós. Podíamo-nos aquecer a um agradável sol de setembro e calcorrear ruas alegres, movimentadas e coloridas. Esperar era por agora uma bem-vinda pausa para respirar. Podíamos dormir, passear, sentar-nos em cafés nas avenidas. Cumprimentar conhecidos, discutir aventuras passadas e perspetivas para o futuro.
Aliás, as marchas triunfais dos ditadores lembravam-nos permanentemente de que apenas vivíamos numa estação intercalar, por acaso ainda pacífica, e que durante muito tempo não estaríamos em segurança. Os preparativos dos nazis para a invasão de Inglaterra progrediam. O estabelecimento do pacto tripartido para uma nova ordem da Europa e do Leste asiático firmado entre a Alemanha, a Itália e o Japão era um novo sinal de alarme. Barcos que levassem passageiros rareavam cada vez mais. Crescia o medo de talvez não sairmos daqui.
Estávamos hospedados num pequeno hotel ocupado quase só por anti-nazis alemães. A direção do partido SPD da altura tinha-se instalado ali e atraía outros fugitivos. Passámos dias e serões com o Erich Ollenhauer e a família, com o Vogel, o Rinner e outros amigos do partido, como o Konrad Heiden, autor do corajoso livro sobre Hitler, de 1932, que o tinha transformado em inimigo número um dos nazis – por razões indecifráveis, Heiden tinha escolhido para si o pseudónimo judeu «Silbermann» [homem de prata] –, e com muitos outros. Discutíamos as notícias do dia, refletíamos em conjunto as hipóteses e os objetivos da nossa emigração. A direção do SPD aguardava um barco para Inglaterra, para se juntar ao «Labour-Party». Também Artur Koestler, que tinha fugido da Legião Estrangeira e tinha aparecido em Lisboa, torturado interior e exteriormente, queria ir para Inglaterra. A maioria, porém, esperava por um barco para os EUA.
Aguardámos semana após semana. Esperávamos pelos barcos, cujos bilhetes haviam sido pagos pelos respetivos «rescue-commitees». O dinheiro para o dia a dia tornava-se cada vez mais escasso, a situação cada vez mais desconfortável. É verdade que tínhamos uma conta no Westminster-Bank, mas, enquanto alemães, não tínhamos acesso a esse dinheiro. Herbert dirigiu-se ao Westminster-Bank, pedindo que, dadas as circunstâncias, fosse encontrada uma forma de levantar dinheiro da nossa conta. O Westminster-Bank mandou-nos imediatamente 50 libras, uma fortuna que nos livrou de uma dívida grave e que, ao mesmo tempo, nos trouxe um incentivo moral.
Alguns pequenos acontecimentos como esse trouxeram-nos um estímulo interior. A chegada de um navio de passageiros americano deu a todos quantos ainda tinham dinheiro a possibilidade de serem transportados para Nova Iorque. Um jovem médico de Danzig, que tinha fugido do Campo de Ruchard com o Herbert, ofereceu-me duzentos dólares para a passagem dele. «Eu estou em muito menor perigo do que ele», comentou. Mais tarde, em Nova Iorque, continuou um bom amigo.
Cada vez nos pesavam mais a espera, completamente entregues ao acaso, e a passividade em que tínhamos que aguentar o medo e a insegurança. Percorríamos as ruas sem nada ver, evitávamos as pessoas e a repetida pergunta: «Já tens lugar num barco? Quando? Para onde?» Evitava-se pensar e falar sobre os acontecimentos mundiais, porque nada era imaginável e nós só esperávamos à margem, sem nada poder fazer. Por esses dias, esperar parecia-nos muitas vezes mais difícil do que a corrida de obstáculos que tínhamos atrás de nós.
Finalmente chegou a notícia de que tínhamos lugares reservados num navio de passageiros grego, que devia zarpar a 28 de outubro. Quando nesse dia nos preparávamos para abandonar o hotel com os nossos pertences, deu-se o ataque da Itália à Grécia. O barco foi apresado. Nós, os perseguidos de Hitler, tínhamos entretanto desenvolvido uma grande capacidade de viver em situações-limite e de aguentar tensões. Mas quanto mais essa capacidade era posta à prova, tanto mais se desenvolvia uma coragem prática, que é a única forma de se conseguir lidar com essas situações-limite. Nós, perseguidos pelos nazis, tivemos que aprender a muito custo essa coragem prática, e toda a nossa vida posterior foi marcada por ela.
Nessa emergência, surgiu um navio costeiro português de 2 500 toneladas que se pôs à disposição para a grande viagem. Os lugares reservados para nós ficavam um num dormitório de homens e o outro num de mulheres. Sentíamo-nos felizes só por poder partir, por nos pormos em movimento, quaisquer que fossem as condições. O movimento provocou primeiro um relaxamento, mas depois um cansaço profundo.
Ao cansaço juntou-se uma tempestade. O pequeno barco balouçava como uma casca de noz. Conseguiríamos chegar à América com tal meio de transporte? Pouco depois, já nem perguntávamos. Nos dormitórios fedorentos e mal arejados, os passageiros vomitavam e gemiam. No dia seguinte, o mar estava um pouco mais calmo. Fui ter com o Herbert, que jazia no seu catre, com uma cor amarelo-esverdeada. «Foi complicado?» perguntei. «Oh, o vomitado físico já não tem qualquer importância», respondeu ele, «estou psicologicamente todo vomitado».
Mais tarde, sentámo-nos sozinhos no convés do navio e contemplávamos em silêncio o fosso que o navio cavava no mar. A maior parte dos passageiros estava na amurada, olhando ansiosamente para uma nova pátria e um novo futuro. Nós olhávamos para trás, para a nossa perdida pátria Europa e para o nosso futuro nela, destruído, que cada vez se afastava mais de nós.
Elsbeth Weichmann (1983), Zuflucht. Jahre des Exils, Hamburg, Albrecht Knaus Verlag, 112-119.
(Tradução Teresa Martins de Oliveira)
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