Freundlich, Elisabeth

Data de nascimento: 21 de julho 1906
Local de nascimento: Império Áustro-Húngaro (Viena)
Data de morte: 25 de janeiro 2001
Local de morte: Áustria (Viena)
Nacionalidade: austríaca
Confissão:
Profissão:
Artes, Letras e Ciências:
Elizabeth Freundlich

 

Exílio

Data de partida: 11 de março 1938
Local de partida: Áustria (Viena)
Motivo(s):
Passagem por: Suíça (Zurique); França (Paris); Espanha

 

Chegada a Portugal

 

Permanência em Portugal

 

Partida de Portugal

Destino: EUA (Nova Iorque)

 

Fim do exílio

Data de regresso: 1950
Local de regresso: Áustria (Viena)
Sobre o exílio

 

Elisabeth Freundlich (1906–2001), que usou também os pseudónimos Elisabeth Lanzer (nome de solteira da mãe) e Elisabeth Stern (nome do marido), descendia de uma família judaica, culta e esclarecida, de Viena. O pai, o advogado social-democrata Jacques (Jakob) Freundlich, foi membro do Tribunal Constitucional da Primeira República e co-fundador e presidente do Arbeiterbank.  (O tio materno Ernst Lanzer foi o paciente a que Freud chamou «o homem dos ratos»).

Elisabeth estudou Germanística, Romanística, Estudos Teatrais e História de Arte  na Universidade de Viena, tendo obtido a licenciatura com uma tese sobre o teatro de Clemens Brentano. Todavia, a conhecida atividade oposicionista do pai – preso em fevereiro de 1934 durante as revoltas contra a tomada do poder pelo austro-fascista Dollfuss (março 1933)  e posteriormente proibido de trabalhar – dificultava a Elisabeth a nomeação definitiva para um cargo compatível com a sua formação;  colaborou esporadicamente com a revista Die Wiener Weltbühne, com o teatro vienense  Neues Wiener Schauspielhaus e, como assistente de produção, com o cineasta G. W. Pabst, ao mesmo tempo que escrevia um primeiro romance, hoje desaparecido. Viajou frequentemente para Paris, onde frequentou a Sorbonne e mais tarde participou num comité de auxílio aos republicanos espanhóis. O Anschluss (11 de março de 1938) dita a partida da família para o exílio, primeiro para Zurique, depois para Paris, onde Elisabeth retoma facilmente contactos. Priva com membros do «Schutzverband deutscher Schriftsteller» [Organização de apoio a escritores alemães], que serve de modelo à «Liga für das geistige Österreich» [Liga a favor da Áustria intelectual],  organização de que é co-fundadora e secretária e que tem como finalidade preservar a cultura austríaca. A partir do Outono de 1938, a Liga  congrega escritores e artistas austríacos (Joseph Roth, Franz Werfel, Alfred Polgar, Kurt Blaukopf, Gina Kaus e Ludwig Ullmann, e.o.) e embora de vida efémera, vem a inspirar outros movimentos de preservação da identidade austríaca no exílio inglês e norte-americano (Hertling 105).   Simultaneamente, Freundlich trabalha como jornalista e no programa de língua alemã difundido pela Rádio francesa. A aproximação das tropas de Hitler a Paris levam-na a seguir com a família para o sul, vindo a instalar-se, como muitos outros refugiados, em Montauban. Alguns meses depois, o pai é informado de que no consulado de Marselha o esperam vistos que alguém pedira em seu nome e que lhe permitirão e à família emigrar para os EUA.  Partem do sul de França e atravessam para Espanha, a pé pelo caminho através dos Pirenéus perto de Port Bou, um dia depois da morte de Walter Benjamin, beneficiando da benevolência que o fim funesto do filósofo acordara nos guardas espanhóis. Chegados a Lisboa, a cidade parece-lhe, como a outros, envolta num mar de luz e povoada por gente afável. Distinto é o convite que ela e o pai terão recebido por parte de professores da Universidade de Coimbra para lecionar na universidade durante pelo menos um ano, esperança que se vem a gorar pela impossibilidade de receber das autoridades portuguesas a respetiva autorização. Segue-se a luta por passagens para a América e a viagem, que descreve como calma, num antigo cargueiro adaptado ao transporte de passageiros, que os leva até Nova York, onde chegam a 26 de novembro de 1940.Na América profere conferências e ensina alemão em diferentes faculdades da costa leste.  Tendo em vista alcançar uma colocação segura, obtém um diploma  de bibliotecária na Universidade de Columbia, e ocupa a partir de 1943 um cargo permanente no Metropolitan Museum of Art, ao mesmo tempo que desenvolve e supervisiona o folhetim do Austro-American Tribune, o mais destacado jornal do exílio, para o qual consegue a colaboração de numerosos escritores, artistas plásticos,  músicos e cientistas de renome (Brecht, Zuckmayer, Max Reinhardt, Alfred Polgar, Heinrich Mann são apenas alguns exemplos).

Em 1945, casa com o jornalista, ensaísta e filósofo Günther Anders (na verdade, Günther Siegmund Stern), também ele refugiado de origem judaica, que fora casado com Hanna Arendt.  Com Anders, Elisabeth regressa à Áustria, em 1950, trabalhando como tradutora, correspondente cultural do jornal Mannheimer Morgen (1953–1978) e repórter política em prestigiados jornais e revistas, tendo-se encarregado da cobertura do Julgamento de Auschwitz no tribunal de Frankfurt. Todavia, o seu empenhamento político durante o exílio não deixa de ser olhado com alguma desconfiança na Áustria do pós-guerra, contribuindo, na opinião de Hertling (111-112), para que nunca chegue a alcançar um grande reconhecimento como escritora.

O seu romance autoficcional Der Seelenvogel [The soul bird], rejeitado pelas editoras no imediato pós-guerra, vem a lume em 1986.  Além de outros textos ficcionais sobre o período do exílio e pós-exílio,  escritos entre 1944 e 1966, EF publica ainda no fim da vida as suas memórias Fahrende Jahre [Anos nómadas].

Alge, Susanne, «Elisabeth Freundlich» (2019), in: Spalek, John M. et al. (ed.), Deutschsprachihe Exilliteratur seit 1933. Bd 3, Teil 1, De Gruyter, Berlin, München, Boston. Freundlich, Elisabeth (2004), «Elisabeth Freundlich. Zeitzeuguin», in: Friedrich Stadler (Hg.), Vertriebene Vernunft II. Emigration und Exil österreichischer Wissenschaft,  Münster, Lit Verlag, 525-528. Hertling, Viktoria (1997), «Exil und Post-Exil: Elisabeth Freundlichs Erinnerungsbuch Die Fahrenden Jahre», Modern Austrian Literature, vol. 30, n.1.   (Teresa Martins de Oliveira)

Portugal visto pelo artista

Os meus pais e eu e o nosso cãozito (onde é que o poderia ter deixado na nossa fuga precipitada de Viena em 11 de março de 1938?) tínhamos à nossa frente uma marcha longa e difícil através dos Pirenéus, a bota nazi sempre no nosso encalço. O nosso Dachshund recusava-se a continuar, os cardos picavam-lhe as patas; tinha que lhe tirar os picos um a um com cuidado – perdendo tempo – e por fim levá-lo ao colo, e a bota nazi sempre no nosso encalço.
Lembro-me ainda vagamente de que o meu pai escorregou diversas vezes no caminho irregular e cheio de cascalho. Nem posso imaginar se se tivesse magoado e não tivéssemos podido continuar. Alcançámos a fronteira espanhola e finalmente também Portugal.
O caminho que atravessa os Pirenéus foi descrito por muitos emigrantes: por Heinrich e Golo Mann, por Werfel e Alma Mahler, por Polgar e muitos outros. Também há um ou dois anos apareceu um livro da Lisa Fittko (Mein Weg über die Pyrenäen. Erinnerungen 1940-41 [O meu caminho através dos Pirenéus. Memórias 1940-41]), mas parece-me que a autora, talvez pelo tempo que passou, incorreu em alguns erros graves. Por vezes perguntam-me, até num tom severo: «Então, não escreveu um diário?» Ah, felizes os que não têm noção! Nós só conseguíamos ter uma coisa em mente: correr, correr, correr!
Chegada, então, a Lisboa. A cidade um mar de luz. Só agora tomámos verdadeiramente consciência de que tínhamos vivido em cidades escurecidas. Aqui: esplanadas de cafés bem iluminadas, pessoas alegres, varinas que com indescritível dignidade balançavam na cabeça canastas bem cheias e apregoavam a mercadoria. Gritavam «camarões, camarões». São os pequenos caranguejos que as pessoas daqui petiscam juntamente com o aperitivo. Todos tão amáveis. Inesquecíveis os professores da respeitável Universidade de Coimbra, considerada a Heidelberg portuguesa. Prometeram-nos lugares de professores convidados pelo menos por um ano e depois se veria.
Ficámos felicíssimos, a nossa vida ganhou novas perspetivas. Mas não deu em nada. As autoridades não o permitiram, tivemos que continuar o nosso caminho. Depois a luta amarga por bilhetes num navio. Primeiro reservámos para o «Nea Hellas», mas quando, depois, a Grécia entrou na guerra, também isto não deu em nada. Ainda tivemos que nos considerar muito felizes por conseguirmos passagens num vapor de 4.000 toneladas que fazia a sua viagem inaugural, pois até aí apenas tinha transportado frutas tropicais dos Açores para Lisboa. Viajámos com luzes apagadas e não encontrámos nem um navio. Foi a viagem mais calma que se pode imaginar. Alcançámos a costa dos EUA no dia 26 de novembro de 1940. Era o dia do sexagésimo aniversário da minha mãe.

Elisabeth Freundlich (1992), Die fahrenden Jahre. Erinnerungen, Otto Müller, Salzburg.

(Tradução de Teresa Martins de Oliveira)

Texto de Fahrende Jahre apud Friedrich Stadler (Hg.), Vertriebene Vernunft II. Emigration und Exil ]osterreichischer Wissenschaft, Münster, Lit Verlag, 2004

 

Do/a autor/a sobre o exílio

Citar este verbete como: Teresa Martins de Oliveira, "Freundlich, Elisabeth," em Passagen, Março 15, 2022, https://passagen.ilcml.com/base/freundlich-elisabeth/.