Pauli, Hertha

Data de nascimento: 4 de setembro 1906
Local de nascimento: Império Austro-Húngaro (Viena)
Data de morte: 9 de fevereiro 1973
Local de morte: EUA (Nova Iorque)
Nacionalidade: austro-húngara; americana
Confissão:
Profissão:
Artes, Letras e Ciências:
Pauli, Herta

 

Exílio

Data de partida: 1938
Local de partida: Áustria (Viena)
Passagem por: Suíça; França (Paris, Saint Jean de Luz, Lurdes, Toulouse, Marselha, Cerbère); Espanha (Port Bou, Barcelona, Madrid)

 

Chegada a Portugal

Acompanhado por: Carl Frucht, Norbert Mühlen, Hans Natonek, Hilde Walter

 

Permanência em Portugal

 

Partida de Portugal

Destino: EUA (Nova Iorque)

 

Fim do exílio

Sobre o exílio

 

Como muitos dos intelectuais e artistas que fugiram ao nacional-socialismo, também a atriz, ativista política, escritora e jornalista Hertha Pauli (1906-1973) provinha de uma família ilustre e tinha origens judaicas, embora o pai,  médico e professor universitário em Viena, se tenha convertido ao Catolicismo. A mãe, pacifista, ativista dos direitos das mulheres e jornalista, era, por seu turno, filha de uma conhecida cantora lírica e de um escritor e destacado jornalista político e crítico teatral do jornal Neue deutsche Presse. O irmão de Hertha, Wolfgang Pauli, recebeu o Prémio Nobel da Física em 1945.

Depois de uma cuidada formação em representação (com Hedwig Bleibtreu primeiro e depois na escola de teatro Schauspielschule de Viena) e da sua estreia  em Breslau – onde, simultaneamente com o trabalho no teatro, se empenhava em projetos na área do cinema e da rádio e publicava folhetins, lírica e prosa curta, visitando Paris e Viena em tournées –  Hertha Pauli é convidada por Max Reinhardt, em 1927, para se juntar ao seu teatro em Berlim. Quando Hitler sobe ao poder, Pauli muda-se para Viena, onde trabalha na área editorial, fundando juntamente com o estudante, mais tarde jurista, Karl Frucht, a agência «Österreichiche Korrespondenz», dedicada a promover a  publicação de obras de autores perseguidos pelo nacional-socialismo , entre eles Feuchtwanger, Egon  Friedell e Werfel. Dedica-se também à escrita de biografias: Toni. Ein Frauenleben für Ferdinand Raimund e Nur eine Frau,  sobre a vida da pacifista Bertha von Suttner, que vem a causar grande indignação na Alemanha de Hitler e a colocar a autora na lista de perseguidos pelo regime, até que a anexação da Áustria dita a sua partida para o exílio no ano de 1938.

Esta multiplicidade de interesses parece plasmar-se também na vida sentimental de Pauli, que, bonita e elegante, vive e provoca fortes paixões.  O casamento com o ator Karl Behr (1929-1932) termina quando se apaixona por Ödön von Hórwath, relação que a conduzirá a uma tentativa de suicídio ao saber dos planos do casamento deste. Por seu lado, Walter Mehring, com quem teve uma fugaz relação amorosa, mal se recompõe do abandono a que é votado; durante o exílio em Paris, Hertha tem uma ligação com um carpinteiro francês, mais tarde ativista político. Relatá-la-á num texto autobiográfico e em múltiplos artigos que publica no jornal Neue Volkszeitung pouco depois da chegada a Nova Iorque, retrabalhando apontamentos que intitulara «Dossier d’ Amour» e que com esse título integram a autobiografia Der Riss der Zeit geht durch mein Herz. A Karl Frucht,  companheiro de trabalho em Viena e de fuga pela Europa, liga-a uma grande proximidade ao longo da vida. Já em 1951, nos EUA, vem a casar com o tradutor E. B. Ashton, pseudónimo do alemão Ernst Basch.

Depois do Anschluss, Pauli foge, então, pela Suíça para Paris, onde participa nas reuniões à volta de Joseph Roth no Café de Tournon e reencontra Ödön von Horváth. Reencontra-se também com os amigos Mehring e Frucht e o apoio emocional e financeiro que mutuamente se prestam ter-lhes-á tornado o exílio bem mais leve, para o que conta ainda o retomar do trabalho da agência literária (Pötscher 2009: 621-622).

Com o avanço das tropas alemãs para sul, Hertha Pauli, Walter Mehring e Hans Natonek sentem-se crescentemente ameaçados e escrevem a Thomas Mann, pedindo a sua ajuda, dizendo que o fazem em nome de todos os exilados em risco, o que vem a desencadear a vinda de Varian Fry para a Europa e a criação do ERC – Emergency Rescue Commitee. Juntamente com Mehring, Hertha Pauli empreende uma fuga desesperada pela França, sendo surpreendidos pelo armistício. Finalmente chegam a Saint-Jean-de-Luz, mas acabam por ser internados num campo de refugiados, evadindo-se depois  para Lurdes, onde encontram Werfel com Alma Mahler. Daí seguem para Toulouse, onde se reúnem com Natonek e Frucht, e depois para Marselha, a cidade pejada de refugiados que procuravam desesperadamente  uma saída para o além-mar. Como os outros exilados, Pauli e os amigos afadigam-se de consulado em consulado na mira de conseguir os passaportes necessários à partida, o que acontece junto do consulado checo. Por mero acaso, Pauli descobre que no consulado americano a aguarda um «visto de emergência». Ultrapassada a desconfiança inicial face ao papel salvífico de Varian Fry, que acabara de chegar a França, Hertha Pauli parte com Hans Natonek e Norbert Mühlen e ainda a jornalista Hilde Walter pela rota dos Pirenéus. Acompanha-os também Carl Frucht, na qualidade de guia, contratado por Fry a pedido de Hertha. No entanto, a fuga de Pauli pela montanha vem a revelar-se extremamente difícil, já que fora acometida por uma febre alta e repentina. Além disso, o grupo cai nas mãos de guardas da fronteira espanhola, que apenas muito relutantemente permitem a sua passagem.

Chegada a Lisboa, Pauli, que continua gravemente doente, procura encontrar o amigo que lhe arranjara o visto de partida para os EUA, mas descobre que ele se suicidara pouco tempo antes. Na capital portuguesa, será Frucht que lhe vai valer, conseguindo-lhe um lugar no navio «Nea Hellas».Chegada a New Jersey a 12 de setembro de 1940, tendo como bagagem apenas «aquilo que transporta dentro da cabeça», como responde ao atónito funcionário da alfândega, Pauli leva também a sua juventude, elegância e uma enorme autoconfiança. Pouco depois, publica na revista Aufbau três artigos com o relato da sua fuga (11.10.1940; 25.10.1940 e 1.11.1940).

Simultaneamente arranja um trabalho como dactilografa, o que a ajuda a aprender inglês e retoma contacto com muitos amigos refugiados.  Em 1941 instala-se durante um ano em Hollywood, onde trabalha como secretária de Walter Mehring para a Metro-Goldwyn-Mayer, regressando depois a Nova York, e em 1948 muda, com o marido, Mehring e a mulher, para uma quinta em New England, até que em 1951 o casal se instala em Long Island. Depois dessa data viaja com frequência para a Europa e colabora em diversos jornais e revistas, como Aufbau , Praline, Reader’s Digest , Die Presse (Viena)  e Die Weltwoche (Zurique) e vem a tornar-se conhecida como autora de literatura infanto-juvenil, muita dela sobre figuras e histórias de origem católica.  Escreve ainda uma biografia de Alfred Nobel, que Ashton a ajudará a traduzir, e em 1970, a sua última obra, a autobiografia Der Riss der Zeit geht durch mein Herz [O rasgão do tempo atravessa o meu coração], publicada quase simultaneamente em alemão, francês e inglês e que foi considerada um clássico da literatura de exílio.   A totalidade da obra de Hertha Pauli é composta por 26 livros, dos quais seis em alemão e os outros em inglês (Pötscher 2009: 121). Era, desde os anos 30, membro do P.E.N.-Club europeu e, desde 1956, membro honorário do P.E.N.-Center norte-americano: em 1967 recebeu da República da Áustria a Medalha de Prata de Mérito (Blumesberger).

Pauli morreu nos EUA, em 1972, sendo depois transladada para Viena, para junto da família.

Blumesberger, Susanne, Pauli Hertha – biografiA (sabiado.at) (acedido em 1.5. 2022)

Pauli, Hertha (1970), Der Riß der Zeit geht durch mein Herz. Ein Erlebnisbuch. Wien: Zsolnay 1970190

(October 11, 1940), «Flucht.» Aufbau. 6 (41): 3

—  (October 25, 1940) , «Tagebuch einer Flucht », Aufbau. 6 (43): 7

—  (November 1, 1940)«Tagebuch einer Flucht », Aufbau. 6 (44): 10 .

Pötscher, Sylvia (2009), Leben im Exil in Frankreich. Eine vergleichende Analyse der autobiographischen Exil- und Widerstandsdarstellungen im Werk der Autorinnen Lisa Fittko und Hertha Pauli, Diplomarbeit, Universität Wien, u:theses | Detailansicht (4118) (univie.ac.at) (acedido em 18. 03.2022).

 

(Teresa Martins de Oliveira)

Obras do/a autor/a sobre o exílio

Pauli, Hertha (1940), “Tagebuch einer Flucht”, Aufbau.6 (41: 3, 43:7, 44:10)

Pauli, Hertha (1970), Der Riss der Zeit geht durch mein Herz,

Espólio
  •  Sammlung von Handschriften und alten Drucken, ÖNB, Wien.  36 caixas
  • Literaturhaus/Exilbibliothek
  • Base de dados Ariadne Österreichische Nationalbibliothek

 

Do/a autor/a sobre o exílio

Citar este verbete como: Teresa Martins de Oliveira, "Pauli, Hertha," em Passagen, Maio 26, 2021, https://passagen.ilcml.com/base/pauli-hertha/.