Exílio
Chegada a Portugal
Permanência em Portugal
Partida de Portugal
Fim do exílio
Nascido em 28-10-1892 nas imediações de Praga, Hans Natonek era filho do diretor de uma seguradora, neto de um rabino e o mais novo de quatro irmãos de uma família judaica assimilada. Frequentou um liceu alemão durante quatro anos, transitando depois para a Academia de Comércio de Praga. Em 1912 inscreveu-se na Universidade de Viena, que abandonou logo no verão seguinte, quando foi para Berlim. Se bem que, mais tarde, Natonek tenha referido ter aí estudado na Universidade, Böttger considera que o percurso académico de Natonek terminou em Viena, logo depois do primeiro semestre (Böttger 2013: 27-28). A permanência em Berlim também pouco durou: ainda no inverno de 1913-14 muda-se para Halle (Saxónia-Anhalt), onde começa um voluntariado no jornal Saale-Zeitung. Ao mesmo tempo, vai publicando regularmente em revistas, como Aktion (Berlim), Neues Wiener Journal ou Der Drache (Leipzig).
No início da Grande Guerra, para a qual foi considerado inapto, o entusiasmo e o patriotismo em breve deu lugar às primeiras dúvidas e depois a uma crítica aberta. Mesmo assim, teve a possibilidade de publicar – apesar da censura imperial, das admoestações da polícia e de protestos veementes de leitores entusiasmados com a guerra – as três partes de Tagebuch der Verzweiflung (1917/18) [Diário do desespero] na conceituada revista Schaubühne (Weltbühne a partir da primavera de 1918), na qual também colaboravam figuras proeminentes da cena cultural e literária como Kurt Tucholsky ou Lion Feuchtwanger (ibidem: 31).
Em outubro de 1917, muda-se para Leipzig em busca de melhores e mais seguras condições económicas e de publicação. Em menos de dez anos chega a um cargo de chefia no jornal liberal Leipziger Zeitung, ao mesmo tempo que publicava em várias outras revistas de nomeada. Entretanto, talvez para se poder casar com a alemã Gertrud Hüther, converteu-se ao protestantismo – tudo indica que sem grande convicção. Pelo trabalho que desenvolvia, pelos jornais e revistas em que publicava sentia-se tão ligado à cena cultural alemã que, cidadão do Império Austro-Húngaro por nascimento, brevemente austríaco, solicitou a cidadania alemã que lhe foi concedida sem problema em 1928. Não propriamente com a publicação de três romances (Der Mann, der nie genug hatte, Viena, 1929 [O homem que nunca tinha o suficiente]; Geld regiert die Welt oder Die Abenteuer des Gewissens, Berlim, 1930 [O dinheiro rege o mundo ou as aventuras da consciência]; Kinder einer Stadt, Viena, 1932 [Crianças de uma cidade]), mas muito especialmente devido ao sem número de artigos em conceituadas revistas e jornais – até 1933 terá publicado mais de 2000 (ibidem: 41) –, Natonek tornara-se numa das mais importantes e influentes figuras da cena literária e cultural da República de Weimar.
Em 30 de janeiro de 1933 Hitler foi nomeado chanceler do Reich e a promissora carreira de Natonek durante a República termina abruptamente. Logo em abril foi despedido do jornal (entretanto intitulado Neue Leipziger Zeitung), tal como todos os colegas judeus; também os seus livros integraram a «Lista da literatura perniciosa e indesejada» elaborada pela Biblioteca Alemã de Leipzig (ibidem; 68). Pouco depois, foi-lhe retirada a cidadania alemã (1933), o que o tornava apátrida (bem como a família) e lhe devolveu uma identidade judaica da qual pensava ter-se libertado, mas, no início de 1934, Natonek ainda esperava poder viver na Alemanha como escritor recorrendo a pseudónimos. Todavia, no final desse mesmo ano, recém-divorciado e já num segundo casamento, abandona a Alemanha rumo a Praga. No ano seguinte, foi excluído do «Reichsverband Deutscher Schriftsteller» [Associação dos Escritores Alemães do Reich] (1935), o que na prática significava a proibição de exercer a profissão no Reich. Conseguiu ainda publicar em Amsterdão um romance em 1935: Der Schlemihl. Ein Roman vom Leben des Adelbert von Chamisso [O Schlemihl. Um romance sobre a vida de Adelbert von Chamisso].
A ida para Praga, onde já muitos refugiados se encontravam, e a reintegração nesse círculo da literatura alemã não terá sido particularmente difícil – apesar de involuntária, era uma espécie de regresso à pátria. Comprou a nacionalidade checoslovaca (1936) – que o protegeria apenas até 1939, quando a Wehrmacht ocupou a Checoslováquia. Começou imediatamente a publicar no diário Prager Tagblatt, cujo editor era Max Brod, conhecido testamentário de Kafka que acompanhava laudatoriamente a carreira de Natonek desde 1917. Paralelamente, textos seus também podiam ser lidos em jornais e revistas suíças e austríacas e preparava Straβe des Verrats [Rua da traição], romance de cariz autobiográfico apenas publicado postumamente (1988). Pelo contrário, a vida privada era penosa: atormentado por depressões, preocupado com os dois filhos nascidos no primeiro casamento que continuavam na Alemanha, a vida conjugal a desmoronar-se – o que culminará no divórcio em agosto de 1938.
Com a ocupação dos Sudetas pelos nazis, a notícia da «noite de cristal», nove dias depois, foi o impulso decisivo para a fuga imediata para Paris (10-11-1938), o que representou para Natonek o início do verdadeiro exílio. Frequentava regularmente o Café Tournon onde prolongou o contacto com o grupo da comunidade emigrada que se reunia em torno do seu colega e amigo Joseph Roth.
Se já no verão de 1938 o teor dos seus escritos jornalísticos tinha começado a substituir o tom utilizado até 1933, leve, inofensivo, visando mais o entretenimento dos leitores, agora, em Paris, vem à superfície o comentador político que utiliza a escrita como arma contra o nacional-socialismo. Publicados, p.ex., na Pariser Tageszeitung e na Neue Weltbühne, uma das principais revistas da emigração alemã, são textos políticos que se debruçam sobre o acontecer do dia-a-dia – reações às notícias nos jornais diários, às fotografias publicadas, mas também aos boatos que corriam entre os refugiados –, sem nunca esquecer a dura luta pela existência que estes viviam (ibidem:100-101). Sempre com uma situação económica desoladora, conseguiu também publicar regularmente artigos traduzidos em jornais neerlandeses (p. ex., Het Volk ou De Telegraaf).
No meio do caos resultante da entrada da Wehrmacht em Paris, a 11 de junho de 1940, Natonek consegue escapar no último minuto: quando estava a empenhar dois casacos, um oficial polaco que parara à porta do peleiro ofereceu-lhe um lugar livre no carro dizendo que se dirigia para o sudoeste da França (ibidem:112). Segue-se uma verdadeira odisseia dramática através do país rumo a Marselha, de onde envia, juntamente com Walter Mehring e Hertha Pauli, um telegrama a Thomas Mann pedindo a ajuda que virá pela mão de Varian Fry. Com um mapa fornecido por Fry, um grupo no qual se encontravam, para além de Natonek, H. Pauli, o escritor e jornalista Norbert Mühlen e a jornalista Hilde Walter, percorreu o que se virá a designar como Rota-F para atravessar os Pirenéus, entrar na Espanha em Port Bou, a 26 de agosto (ibidem: 119-124), e seguir para Portugal.
Quanto à permanência de Natonek numa Lisboa sobrelotada, foi pouco o que me foi dado apurar – para essa lacuna terá contribuído o que o autor lamenta em entrevista à rádio em 1942: a «perda dos meus 20 diários que continham tantos apontamentos valiosos» (ibidem: 134, e 225, nota 265). Chega por volta dos primeiros dias de setembro. Sem meios de subsistência como tantos outros refugiados, procura a ajuda do HICEM, que lhe concede seis escudos por dia. Depois de cerca de quatro meses de espera angustiante, e com a intervenção de várias pessoas e organismos (desde Thomas Mann e Varian Fry, passando por Augusto d’Esaguy, até ao ERC ou o HICEM) Natonek recebe finalmente os documentos necessários para prosseguir a fuga.
Nos primeiros dias de janeiro de 1941 embarca num dos quatro navios americanos que, desde julho 1940, faziam a rota entre Lisboa, os portos das Caraíbas e Nova Iorque (ibidem: 133) – o SS «Excambion» da companhia «American Export Lines Inc.», sediada na rua Augusta. Chega a Nova Iorque/Jersey City (20 de janeiro 1941) com muito poucos conhecimentos de inglês, uma mala pequena e um total de 6,5 dólares (ibidem: 134). Com exceção da autobiografia «To whom it may concearn», editada sob o título de In search of myself (1943), mal consegue publicar – termina, p.ex., Blaubarts letzte Liebe [O último amor do Barba Azul], romance iniciado ainda em Paris, que não desperta qualquer interesse por parte dos editores, vindo a ser publicado apenas postumamente (1988); não procura integrar-se na comunidade de Nova Iorque do exílio e acaba por trabalhar como ajudante numa morgue em Harlem.
Em 1944 muda-se para Tucson/Arizona com a que virá a ser a sua terceira mulher e, dois anos depois, adquire a cidadania norte-americana. Com uma vida solitária, economicamente precária, quase sem visitas, escreve ininterruptamente. Decide passar a escrever em inglês, retrabalha textos antigos, mas nada é publicado; apenas alguns dos poemas que escreve, já muito doente, encontram leitores nos EUA. Pouco antes da morte, que ocorrerá em Tucson (23-10-1963), queima uma parte muito substancial dos seus manuscritos.
Böttger, Steffi (2013) Für immer fremd. Das Leben des jüdischen Schriftstellers Hans Natonek, Leipzig, Lehmstedt Verlag.
Jäger, Susanne (1997) Natonek, Hans, Neue deutsche Biographie, Bd. 18: 750s.
(Maria Antónia Gaspar Teixeira)
Böttger, Steffi (2013), Für immer fremd. Das Leben des jüdischen Schriftstellers Hans Natonek, Leipzig, Lehmstedt Verlag
Natonek, Hans, in: Aufbau, vol. VII, n.º 14, 4. abril: 9.
https://kuenste-im-exil.de/KIE/Content/EN/Persons/natonek-hans-en.html
State University of New York at Albany, Library, Dep. of special collections
Potsdam, Bundesarchiv, Abt. Deutsches Reich
Em Lisboa permanecera um funcionário da antiga embaixada checoslovaca como observador não
oficial. Trabalhava na sua residência particular ou, segundo o velho hábito de Praga, no café e
prestava bons serviços aos conterrâneos fugidos de França. Estabelecia a ligação com Londres e
Washington e lavrava os imprescindíveis «to whom it may concern». Portugal tinha cortado as
relações diplomáticas com a Checoslováquia muito antes do deflagrar da guerra devido a um
conflito sobre a Guerra Civil espanhola. Não sei em que consistiam as relações diplomáticas entre
dois países tão distantes, a não ser na troca harmoniosa de presunto de Praga pelo perfumado
vinho do Porto e da Madeira.
(Natonek (1942), To whom it may concern. Memoirs and Diaries: 144-145, apud Böttger 2013:
127-128)
Último dia na Europa
À antiga maneira das narrativas, falámos à vez, numa roda, sobre o primeiro dia aqui e o último
no outro lado. Cada um tem um primeiro e um último dia. As experiências não precisam de modo
algum de ser extraordinárias e também não o são na sua maioria. Há pessoas que chegam aqui
como se tivessem ido de Berlim para Stettin ou de Viena para Budapeste. E há pessoas que saem
da Europa como de um filme mau – apagou-se, não tem importância. Trocaram de continente
como se fosse um fato e para eles o assunto está resolvido. A nova vida absorve-os
completamente. Todavia, abandonar a Europa é um acontecimento monstruoso e talvez definitivo
quando o revivemos em plena consciência. (…) «No dia da minha partida para a América»,
continuou o outro, – um dia inesquecível de felicidade dolorosa – lembrei-me de um
acontecimento cruel que eu relacionava com o último olhar sobre a Europa. Por finais do verão
tinha chegado a Lisboa um jovem, um dos primeiros, se não o primeiro que tinha conseguido
escapar ilegalmente da ratoeira do sul da França através dos Pirenéus. Um solitário, reservado e
tímido, tinha aperfeiçoado o seu plano afincada e sistematicamente num quarto de hotel em
Perpignan. Estudou os mapas especiais das passagens da fronteira, arranjou recomendações para
antigos maires social-democratas das comunidades fronteiriças e, para todas as eventualidades,
mandou um gráfico experimentado ‘corrigir’ a sua idade no passaporte, dezassete anos em vez de
vinte e um, para que os espanhóis não o mandassem regressar devido à sua idade, de serviço
militar obrigatório. Uma preparação mais exaustiva do que a deste jovem austríaco era impossível.
(Como tínhamos mais tarde atrapalhado e improvisado!). Com a energia dos seus vinte e um anos
lançou-se sobre o muro ardente dos Pirenéus, um precursor em direção ao desconhecido. Três
vezes tentou a travessia à noite, perdeu-se três vezes, teve sede, teve fome, dormiu na gravilha,
mais decidido a morrer do que a deixar-se encarcerar. Um passeante solitário, um rapaz de calções,
aparentemente a contemplar com descontração a paisagem, reprimindo a respiração ofegante
daquele que corre, assim deambulava pelo lugarejo da fronteira espanhola. Deixaram-no correr,
continuou a correr para o destino, para Lisboa, e alcançou-o, feliz, sem folego, selvagem,
queimado pelo sol. E aqui aconteceu o inconcebível: Por um qualquer motivo fútil – talvez a
correção da idade no passaporte – discutiu com a autoridade, teve um ataque de raiva; foi preciso
chamar a polícia, e quando o levaram para a prisão, lançou-se do terceiro andar da escadaria, na
miséria sombria que lhe era própria, como se a escadaria fosse a fronteira espanhola. Não consigo
explicar por que, no momento em que subi para o navio americano, fui levado a pensar naquele
maratonista europeu que sucumbiu na meta. Eu apenas sentia que existe uma fronteira perigosa
entre a capacidade de vivenciar e a destruidora abundância de vivências. Fui obrigado a pensar
nele e em todos aqueles que tinham fracassado nesta terrível corrida de longo curso para sair da
Europa ou ainda a não tinham conseguido [realizar]; naqueles que caíam pelo caminho; em todos
os camaradas de fuga, que ficaram para trás nas suas sepulturas ou na sua miséria. Perante mim
encontrava-se, quase a desaparecer como se o navio já descesse o Tejo, um dos mais belos
cenários de pedra do passado europeu, barroco e gótico, em ruínas e irreal sob a luz dourada do
pôr do sol. Vi nesta luz as torres de Praga, a serena e doce paisagem vienense dum tempo
desaparecido, o [jardim de] Luxemburgo do Paris morto – toda uma vida vivida na Europa. Tudo
estava magicamente presente e tudo desapareceu fantasticamente neste último momento europeu.
Era demasiado; Eu oscilava como se a Europa me puxasse para o abismo – também eu um
maratonista. Então tocou-me a mão da mulher ao meu lado. «Tens de te esforçar», disse sorrindo,
«quando agora embarcares, já estás em solo americano». Soou quase festivamente. Subi
lentamente a íngreme escada de portaló, era mais do que uma fronteira terrestre –, e, apesar de
estar presa, flutuava e oscilava para cima e para baixo sob os meus pés. Em cima, na entrada do
navio, virei-me novamente. Uma grande escuridão à frente dos olhos e já não via coisa alguma –
nem a mulher, que, desamparada e minúscula, ficara em baixo no cais, nem os amigos, que
ficaram caídos no caminho, nem as cidades amadas, e tudo isto era Europa e era amado.
Deixávamos demasiadas coisas para trás. E o que era próximo já tão longe, mesmo antes de o
navio se afastar da costa. Era como se o último momento da Europa se extinguisse. Realmente,
há um ficar paralisado no olhar para trás. Com um sorriso rasgado, um stewart grisalho, com
óculos, perguntou ao que se afundou: «How do you do?» Isto já era a América. É preciso estar do
outro lado e ter já respirado durante algum tempo o ar da América, apenas então o inesquecível
do último dia na Europa vem lentamente ao encontro de cada um.
Natonek (1941): «Letzter Tag in Europa», Aufbau, vol.VII, New York, 4. April: 9
(trad. Maria Antónia Gaspar Teixeira)
Do/a autor/a sobre o exílio